Não há risco iminente ao Brasil em vitória da oposição na Argentina

Simão Silber analisa que o Brasil já vem absorvendo o impacto da crise de seu parceiro comercial

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Os argentinos presenciaram nos últimos dias uma dança das cadeiras em seu Ministério da Fazenda. O antigo ministro Nicolás Dujóvne deixou o cargo tacitamente aceitando o fracasso de suas medidas ao declarar que está convencido da necessidade de uma “renovação significativa na área econômica”.

A saída de Dujóvne se insere no conturbado contexto atual da Argentina, que não somente passa por uma persistente crise econômica, mas também por um momento de instabilidade política. Isso porque as prévias de sua eleição presidencial indicaram um avanço do kirchnerismo. O candidato de centro-esquerda, Alberto Fernández – cuja vice é Cristina Kirchner -, ficou na liderança, com vantagem de 15 pontos porcentuais em relação ao segundo colocado, o atual presidente da direita liberal, Mauricio Macri.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro já fez declarações hostis à ideia da vitória de Fernández, até mesmo confirmando a possibilidade de o Brasil sair do Mercosul caso o Partido Justicialista vença. Para entender melhor as possíveis consequências do processo eleitoral argentino à economia brasileira, o Jornal da USP no Ar conversou com o professor Simão Silber, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP.

Ele explica que o impacto do resultado das prévias foi muito turbulento. Trouxe desvalorização do peso argentino, acelerou a inflação e gerou uma perda de US$ 5 bilhões de reservas argentinas. “Tudo isso representou um temor do mercado com a possibilidade de retorno das práticas protecionistas ao estilo da família Kirchner.” Porém, para o professor, a vitória de Fernández, por si só, não traz um perigo tão iminente. “Ele é muito diferente da Cristina, mais equilibrado, tradicional e conservador, e estaria disposto a negociar.” Em recente declaração ao jornal argentino La Nación, Fernández disse que não pretende fechar a economia. Ainda afirmou que o Mercosul é uma questão central e que o Brasil seguirá sendo seu principal parceiro econômico.

“A prematura postura brasileira, muito beligerante em relação ao candidato da oposição, não me parece muito adequada. Inclusive com palavras inadequadas à diplomacia”, comenta Silber. Ele relembra que os impactos da crise argentina – iniciada em agosto de 2018 – já se materializaram no Brasil, reduzindo significativamente o crescimento de nossa economia. “Tínhamos expectativa de crescimento acima dos 2% e com a crise argentina e o acirramento da briga entre EUA e China terminamos o ano com crescimento de 1%.”

A posição brasileira segue sendo extremamente confortável em comparação à Argentina. “Nós estamos com uma inflação da ordem de 3,5%, a Argentina, 55%. Nossa taxa básica de juros deve chegar em 5% até o fim do ano, a deles é de 70%”. Estamos melhores até mesmo se compararmos as reservas de dólar. Porém, o grande desconforto é que, “dadas essas condições, nosso país não consegue deslanchar um crescimento da economia minimamente razoável”.

Um dos grandes medos gerados sobre a possível vitória de Fernández diz respeito ao recém-fechado acordo entre Mercosul e União Europeia. Para o professor Simão Silber, em um cenário no qual 30% da população está em situação de pobreza absoluta, e há três anos em recessão, não faria sentido a Argentina abdicar do acordo. “Ficar fora desse acordo significa abdicar de participar do comércio mundial. A União Europeia representa 20% do mercado mundial, e é o único grande mercado com que o Mercosul conseguiu fazer um acordo de aproximação”, conclui.


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