Linguagem neutra pode ser considerada movimento social e parte da evolução da língua

Segundo especialistas, o objetivo é tornar a língua portuguesa inclusiva àqueles que não se sentem abrangidos pelo uso do masculino genérico

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A linguagem neutra é uma estratégia para evitar o uso do masculino genérico no idioma – Foto: Franz via Pixabay – CC

 

A linguagem neutra é uma proposta de reflexão sobre representatividade e objetiva tornar a língua portuguesa inclusiva para pessoas transexuais, travestis, não-binárias, intersexo ou que não se sintam abrangidas pelo uso do masculino genérico. Apesar de amplas discussões sobre o tema nas redes sociais e entre linguistas na academia, a linguagem neutra ou linguagem inclusiva não é uma nova norma, mas uma tentativa de alguns falantes para que o português possa abranger uma parcela invisibilizada da população.

Monique Amaral de Freitas, doutoranda do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, explica que a linguagem neutra é uma estratégia para evitar o uso do masculino genérico no idioma: “Para se referir a um coletivo de pessoas, a categorias ou coisas desse tipo não se utiliza o masculino na linguagem neutra. Desse modo, não se apaga a existência do gênero feminino ou mesmo de um gênero não binário, ou seja, nem masculino nem feminino”.

Existem diversas propostas de modificação para garantir a inclusão na língua portuguesa. Algumas já são consideradas inadequadas, como o uso do “X” ou do @, porque dificultam a fala e a leitura. Para tornar a frase neutra, basta não deixar evidente o sujeito da frase, porque desse modo não se utiliza o masculino genérico e não ocorre a flexão de gênero. Ou é só substituir a vogal temática e o artigo pela letra “E”, pelo “I” ou mesmo pelo “U”. Por exemplo, a frase “os educadores brasileiros” se torna “es educadores brasileires” quando as vogais temáticas são trocadas por alguma letra que remete à neutralidade, como o “E”.

Para Heloisa Buarque de Almeida, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre os Marcadores Sociais da Diferença (Numas), a demanda por uma linguagem inclusiva pode ser considerada um movimento social e faz parte da evolução da língua. “É interessante entendermos isso como um movimento social e de transformação. A sociedade está sempre em transformação. Há discursos conservadores que acham que as coisas são fixas, mas não é assim e nunca foi.”


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