Estimulação cerebral traz benefícios no tratamento da dor crônica

Segundo o especialista, esse procedimento se mostra mais eficaz nas fibromialgias e dores neuropáticas

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Cérebro – Foto: Euskalanato/Visualhunt. com – CC BY-NC-SA

A dor crônica passa a ser alvo de novas abordagens terapêuticas que fogem dos tratamentos convencionais feitos com medicamentos e reabilitação. Para o grupo de pacientes que não melhoram com as terapias convencionais, pesquisadores têm estudado técnicas que incluem a estimulação elétrica do sistema nervoso para aliviar a dor. Cerca de 60 milhões de brasileiros sofrem de dor crônica. O Jornal da USP no Ar conversa sobre o assunto com Daniel Ciampi, do Laboratório da Dor do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Trata-se de uma dor persistente, com duração superior a três meses, presente na maior parte do dia. “É um problema de saúde enorme. Entre as dez doenças mais prevalentes no mundo, duas são representantes de dor crônica: lombalgia (dor nas costas) e a cefaleia (dores de cabeça). Das que mais causam anos perdidos por incapacidade, quatro se relacionam com dor crônica – a lombalgia é a principal” , afirma o especialista.

Apesar de altos números de prevalência de dores crônicas, que acometem 20% da população geral em países desenvolvidos, cerca de 30% dos pacientes permanecem com dor mesmo com o tratamento. Muitas linhas de pesquisa tentam solucionar esse problema. “A novidade é que algumas formas de tratamento, estudadas nos últimos 20 e 30 anos, vêm aparecendo na literatura com resultados positivos. Dentre elas, está a estimulação do cérebro de forma não invasiva a partir de sessões de 15 minutos, com eletrodos colocados sob o crânio e a cabeça, com as pessoas acordadas.”

Esse procedimento, de uma forma geral, se mostra mais eficaz para tratar de dores neuropáticas, que resultam de lesões no sistema nervoso, que acometem 7% da população. A fibromialgia, muito prevalente em mulheres, está entre os perfis de dor crônica que mais responderam aos estudos disponíveis até hoje. “É algo novo, mas um processo que está andando para a frente. É promissor, visto que não há um tratamento único para todos os males”, destaca Ciampi.

Uma questão atual é de que essas técnicas, apesar de serem usadas em ambiente de pesquisa, ainda não existem no Sistema Único de Saúde (SUS). “É um processo que está acontecendo, uma fase de transição natural no mundo da ciência. A gente analisa a quantidade de estudos primeiro, depois encaminhamos as vias oficiais do sistema público de saúde para formalizar na assistência do paciente do SUS”, explica.

Para Ciampi, é essencial que o paciente com dor crônica entenda a doença, pois não é intuitivo lidar com uma dor duradoura. “Se a dor pode ser um alarme de uma doença, uma dor crônica também pode ser uma doença por si própria”, como é o caso da enxaqueca.

Quanto aos tratamentos convencionais, o médico aponta acupuntura, alongamento e algumas técnicas de habilitação em analgesia. “Estas têm uma acessibilidade heterogênea no SUS”, afirma. Ele também cita a vertente farmacológica, em que “existem alguns remédios muito interessantes e seguros, mas sempre com a questão de ter que tomar remédio, às vezes ajustar a dose e ver sua disponibilidade na rede pública”, e a área cirúrgica.

Por fim, o especialista cita estratégias que, “talvez não com um termo adequado, são chamadas de técnicas complementares ou alternativas”: hipnose, técnicas mais avançadas de acupuntura com base na medicina chinesa e meditação – “a mais estudada, não necessariamente a melhor, é a de atenção plena (mindfulness)”.

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