Vulnerabilidades debilitantes das ferramentas para avaliações on-line da USP

Por Ronaldo de Breyne Salvagni, professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP

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Ronaldo Salvagni – Foto: Divulgação via CEA Poli
Imagine se o sistema financeiro no Brasil adotasse a hipótese de que todas as pessoas são essencialmente éticas e honestas e, portanto, deixasse de usar senhas e outros dispositivos de segurança na utilização de cartões e demais transações financeiras. Não é difícil prever o que aconteceria.Entretanto, é algo parecido com isso que atualmente acontece com as ferramentas de avaliação on-line da USP: não há nenhum mecanismo que permita coibir fraudes, ou pelo menos detectá-las. Isso é consequência direta de alguns ranços ideológicos e traços do pensamento “politicamente correto”, cultivados por algumas pessoas e grupos na USP, que merecem alguma reflexão por ignorarem ou negarem fatos fundamentais:

1 – Existem pessoas inescrupulosas, egoístas e desonestas, inclusive entre os alunos da USP
Parece que alguns fingem ignorar ou negam isso. Podemos pressupor que a grande maioria das pessoas é honesta e ética, mas algumas não o são – isso faz parte da natureza humana e da realidade que vivemos. Pode-se argumentar que, nas grandes universidades do mundo, há uma forte relação de confiança entre alunos e professores, o que inibe fraudes e desonestidades. Isso pode ser verdade, mas não implica que essas instituições não tenham mecanismos para detectar essas ocorrências. Pelo contrário, essas grandes universidades são as mais preocupadas com a qualidade e integridade das suas avaliações. Na própria USP, em provas presenciais, em todos os anos temos casos e abrimos sindicâncias para apurar tentativas de fraude e uso de recursos ilícitos – por que isso não iria ocorrer no ambiente on-line?

2 – A importância da veracidade e confiabilidade da avaliação
É responsabilidade da instituição evitar que alunos esforçados e éticos sejam prejudicados por colegas inescrupulosos e desonestos. Durante o curso, há uma variedade de processos seletivos e listas de classificação baseadas nos históricos escolares dos alunos, com as notas das avaliações realizadas nas diversas disciplinas e atividades realizadas. A finalidade de uma avaliação é medir e atestar os níveis de conhecimentos, habilidades e atitudes adquiridos pelo aluno. Assim:

  • em primeiro lugar, ao fazer a avaliação, a instituição e o professor responsável atestam que o aluno adquiriu um determinado nível real de conhecimentos, habilidade e atitudes. Se isso não for verdade, ambos estão incorrendo em falsidade ideológica. A coisa é mais grave nos casos em que o diploma do curso dá automaticamente o registro para exercício profissional, como é o caso da Engenharia e da Medicina no Brasil;
  • em segundo lugar, em avaliações fraudadas, o aluno honesto e esforçado será prejudicado, em processos seletivos e listas de classificação, pelo aluno inescrupuloso e desonesto, que levará vantagem indevida.

O fato é que, se uma ferramenta de avaliação on-line, qualquer que seja ela, não tiver mecanismos para detecção e inibição de fraudes, seus resultados não são confiáveis e sua utilidade fica seriamente comprometida.

Entretanto, não é fácil nem trivial criar e implementar esses mecanismos. Por exemplo, para uma prova on-line, há propostas para se usar a câmera do computador do próprio aluno, exigindo que ele a deixe ligada, bem como o microfone, e fique dentro da sua área de visão durante toda a avaliação. Este seria um procedimento bastante invasivo e constrangedor, além de ter eficácia discutível, e não parece recomendável. Outra proposta seria avaliar o aluno através de uma entrevista ao vivo, uma “prova oral”. Isso seria semelhante às bancas não presencias para defesa de teses, e poderia funcionar bem. Entretanto, sua viabilidade é limitada pela quantidade de alunos a serem avaliados. Na Poli temos disciplinas únicas com mais de 1000 alunos – como entrevistá-los individualmente, um a um?

Na verdade, o problema se torna muito mais difícil quando tratamos de avaliações em massa, de grande quantidade de alunos. Não é viável fazer vigilância por câmeras nem entrevistas individuais. Alguns propõem mudar o procedimento de avaliação, não fazendo provas, mas sim diluindo o processo através de uma série de atividades menores distribuídas ao longo de todo o curso, aula a aula. Além do fato de que isso não resolve o problema principal da segurança (é o aluno mesmo que está fazendo individualmente as tarefas?), o trabalho para avaliar essas muitas atividades diárias cresceria exponencialmente para uma quantidade grande de alunos.

Desta forma, parece inevitável concluir que a avaliação individual, do tipo de provas e para grande quantidade de alunos, entra na categoria das atividades que devem ser realizadas presencialmente, analogamente a vários laboratórios e atividade de campo, não podendo ser feitas on-line.

Fica aqui, para os especialistas que desenvolvem ferramentas de avaliação on-line, o desafio de desmentir essa conclusão.

O ponto fundamental é que a grande maioria das pessoas é honesta e ética, mas é necessário evitar que elas, e a sociedade como um todo, sejam prejudicadas por uns poucos inescrupulosos desonestos.

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