Tempos de pandemia. A essencialidade das Ciências Humanas, Sociais e das Artes

Por Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora titular do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP*

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Maria Arminda do Nascimento Arruda – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Em entrevista concedida no final da vida, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), um dos intelectuais mais marcantes da segunda metade do século XX, quando lhe perguntaram se um pensador da cultura como ele ficava incomodado com a expansão das pesquisas que pretendiam explicar o comportamento humano por meio da herança genética, respondeu que não se sentia atingido. Primeiro, porque muito das “nossas pesquisas, da psicologia, da sociologia, são modos provisórios de apreender fenômenos que tratamentos mais sérios vão acabar solucionando…”. Segundo, as questões do humano são ilimitadas: “Estamos condenados em vários níveis e esses níveis são incomensuráveis. Para fazer ciência é preciso fazer como se o mundo exterior tivesse uma realidade e como se a razão humana fosse capaz de compreendê-lo. Mas é ‘como se’”(1).

As ponderações de Lévi-Strauss permitem interpretar que as Ciências Humanas, Sociais e as Artes formulam problemas fundamentais da existência, ainda que a explicação possa escapar do seu domínio exclusivo. E de fato, até há pouco tempo, seria inusual formular a pergunta sobre a centralidade das Ciências Humanas, das Ciências Sociais e das Artes no tratamento dos temas que lhes são próprios, a despeito da diversidade disciplinar existente no campo científico. O lugar que essas disciplinas ocupavam na hierarquia do conhecimento e da produção da ciência, bem como o reconhecimento da sua capacidade de explicar e de representar os problemas da vida, dos mais imediatos aos mais transcendentes, não era matéria de exame, tampouco de questionamentos.

Nesse sentido, a pergunta já alude para o nublamento da legitimidade desses saberes, bem como das suas formas de expressão, revelando certas concepções correntes sobre o seu caráter não essencial, juízo que desnuda disputas de poder internas ao campo científico. Naturalmente, o exame de tais ideias implica tratar de questões que recobrem amplo leque de problemas, cujos fundamentos últimos residem no modo como as sociedades contemporâneas organizaram-se em todas as esferas da existência:

  • na valorização da tecnologia como artefato dotado de neutralidade;
  • na pura assunção das regras do mercado, esfera na qual funcionariam leis inquestionáveis, cujo movimento global, para além das fronteiras nacionais e culturais, é entendido como se fosse natural e desejável (não histórico e social);
  • na correlata negação do poder Estado como instituição social reguladora, elidindo o seu atributo de ser, potencialmente, organismo voltado a dirimir iniquidades e a atender demandas alheias ao puro movimento de valorização do capital;
  • na dominância dos veículos da cultura de massas que tendem a produzir modos de vida e a difundir concepções homogêneas de mundo;
  • na prevalência da razão prática que valoriza os meios em detrimento dos fins, área de atuação de um corpo administrativo que se legitima afirmando a racionalidade das suas decisões, como se fosse baseada em critérios exclusivamente técnicos e isentos de juízos de valor, sendo, na verdade, pura manifestação de poder institucional;
  • na crescente institucionalização dos organismos da sociedade, inclusive das universidades, que passaram a guiar as suas decisões pelo cálculo seguro, em detrimento do risco inerente à aventura científica, operando segundo moldes administrativos, abrindo espaço para interpretações de que sejam componentes da produção de bens, atributo que cria uma relação imediata com as demandas externas, sejam econômicas, sejam políticas, para cujo concurso os meios acabam por prevalecer sobre os fins;
  • no processo de aprofundamento da individuação e de múltiplas identidades, presentes na difusão de convicções que cada pessoa é dona de si e responsável pela construção do seu próprio destino;
  • na compreensão de que os indivíduos são responsáveis exclusivos pelos insucessos do seu percurso, remetendo possíveis fracassos para a seara do erro, quando não da incapacidade pessoal, concepção cristalizada na valorização de personalidades inovadoras e empreendedoras;
  • no consequente paradoxo que alia personalidades autônomas e autorreferidas com a difícil tarefa de se assenhorar da própria trajetória, manifesta na expansão dos diversos tratamentos terapêuticos e nas expressões variadas de crenças;
  • no enfraquecimento das formas de representação, sobretudo de cunho político, redundando na flagrante judicialização da existência;
  • no enfraquecimento da esfera pública, com o consequente embaralhamento entre os universos públicos e privados;
  • no predomínio da comunicação mediada, cuja expressão mais aguda são as redes sociais com o seu arsenal disruptivo, especialmente na propagação de saberes e conhecimentos de senso comum, que atingem o limite com as fake news, fonte onde governos autoritários sorvem o seus impulsos antidemocráticos, com a resultante anatematização do pensamento crítico e discordante.

Cada um desses fenômenos está na base da perda de legitimidade, ou do desconhecimento das Humanidades como campo do saber e das Artes como linguagem social particular, vistas, muitas vezes, como pré-científicas (as ciências humanas) e perfunctórias (as artes). No conjunto, é possível asseverar que as sociedades contemporâneas, particularmente nas três últimas décadas, tornaram-se avessas às formas de conhecimento que não possuem aplicação evidente, no limite são classificadas como inúteis, ou como mera ilustração de mentes eruditas. Naturalmente, as afirmações acima inspiram-se na construção típico-ideal de Max Weber, que implica acentuar os traços mais significativos dos fenômenos.

Teia de significados

Cabe, agora, indagar como esse quadro tende a levar ao questionamento do lugar e da importância das Ciências Humanas e Sociais no rol das disciplinas tidas como dotadas de maior cientificidade e como produtoras de explicações mais verdadeiras, tendo em vista que as Artes não estão aí subsumidas. Primacialmente, é necessário distinguir a diversidade das operações de conhecimento entre as áreas genericamente denominadas por Humanidades e as Ciências Experimentais, que têm no laboratório o ambiente normal da pesquisa. Como se sabe, na impossibilidade de testar de maneira definitiva comportamentos humanos, ou de construir leis abstratas que deem conta integral do movimento geral da história, as Humanidades só podem formular “leis históricas”, portanto provisórias, o que não significa que elas sejam arbitrárias e não científicas. O que as distingue, especificamente, é a rejeição das leis abstratas que acabam por abjurar a história, situando-as na contramão das concepções naturalizadas e aderentes à autorregulação do mercado e do movimento autônomo da economia vis-à-vis as esferas políticas, sociais e culturais, argumento que pode ser estendido às diversas compreensões a respeito da neutralidade da tecnologia.

As Artes, em contrapartida, escapam do terreno palmilhado pelas ciências. A produção artística é menos sujeita aos juízos acerca da sua importância, pois é vista como alheia aos critérios de verdade, sendo interpretada como linguagem apenas expressiva e comumente entendida enquanto fruto de vocações individuais diferenciadas. Tal vantagem relativa torna-se, frequentemente, desvantagem, pois o trabalho artístico fica mais sujeito a ser qualificado como inessencial, mero produto de consumo conspícuo; por vezes suntuário, veículo de atribuição de prestígio e diferenciação social aos proprietários de obras, aproximando-as da condição dos bens de luxo ofertados no mercado e submetendo-as às instituições de legitimação, como as curadorias dos museus, principal instância, atualmente, de sua valorização. O campo das Artes em geral, especialmente das artes plásticas, cuja linguagem adquiriu, pelo menos desde o Modernismo, expressão crescentemente abstrata, faculta o aparecimento de concepções sobre a sua inutilidade. O engano subjacente a essas interpretações ancora-se na dificuldade de admitir que o conjunto das linguagens artísticas é socialmente saturado. O exemplo das artes plásticas é paradigmático, pois desde as vanguardas modernas haviam explorado as inúmeras possibilidades de expressão do mundo, mas, com o abstracionismo, terminam por recusar as formas anteriores da representação, expressão da rejeição surda a uma sociedade dissonante, de resto característica da música atonal, que revelou a desarmonia vigente no mundo contemporâneo. A procura incessante de formas de representar tem se revelado, especialmente no campo das artes, na impossibilidade de se estabelecer consensos sobre o sentido geral da linguagem artística.

Esse cenário de incompreensões sobre o modo como as Ciências Humanas e Sociais constroem as suas operações de conhecimento, nas quais a posição do pesquisador é parte integrante das perguntas e dos problemas a serem investigados – o que não elide, antes pressupõe e acentua, as questões sobre a objetividade dos procedimentos de pesquisa – agravou-se no curso das profundas transformações ocorridas nas últimas décadas, que modelaram e construíram hierarquias no campo científico. Dito de outro modo, passou-se a privilegiar a dimensão aplicada e útil do conhecimento, dirigido a um objetivo específico, cuja forma mais desenvolvida o tornou meio de promover a riqueza, sem que se pergunte sobre os fins e a quem se destina. A tecnologia adquiriu independência formal em relação às exigências éticas, a exemplo da propalada inteligência artificial, que parece se desprender das perguntas sobre os princípios a ela subjacentes e os problemas normativos que a acompanham.

A contemporaneidade, em suma, encontra-se imersa numa teia de significados que tem desvalorizado reflexões sobre o caráter contingente dos critérios de verdade, numa espécie de recusa em admitir que a própria valorização da ciência deriva da mudança no cânone da cultura. É a essa espécie de cegueira que se pode atribuir os questionamentos sobre a importância das disciplinas que lidam com os significados, na contraface da afirmação da tecnologia e do saber aplicado e útil. Nesse diapasão, é facultado lançar mão do oximoro que pensa a utilidade das disciplinas dos sentidos à sua pretensa inutilidade, para parafrasear Theodor Adorno. Explicitamente falando, as perguntas sobre os fundamentos da vida social, portadoras de inescapáveis sentidos críticos e normativos, distinguem-se de compreensões seduzidas por critérios práticos e da aplicabilidade, produzindo, além do mais, importunações de natureza política, tão avessas a uma era de recuo democrático e de desconfiança generalizada sobre a importância da ciência, da cultura e do conhecimento. A utilidade desses campos do saber deriva, então, do seu distanciamento em relação aos consensos vigentes, porque não compartilham da ideia de transparência do mundo social, condição que lhes permite propor problemas essenciais de reflexão.

Por esses motivos, o impulso crítico da Ciências Humanas, Sociais e mesmo das Artes incomoda, especialmente em contextos regressivos, característicos de países como o Brasil do presente. No caso específico das Humanidades, tendo em vista que os objetos de conhecimento e de expressão dessas áreas originam-se de questões ligadas ao universo imediato do pesquisador, resulta daí maior adesão aos temas da sua sociedade, limitando o alcance das operações de generalização, por conseguinte, ficam mais sujeitas à censura de poderes instituídos. Dito em outros termos, explicar e compreender são procedimentos que não se afastam, antes se pressupõem, sendo parte da mesma operação, significando que o conhecimento nessas disciplinas admite a normatividade, pois mescla o ser (o objeto da investigação) ao dever ser (os valores do investigador), sem, contudo, abjurar a objetividade. Contrariamente, toda a construção da explicação exige método, procedimentos rigorosos e atitude de questionamento incessante sobre o alcance da objetividade a ser atingida, processo que se realiza na narrativa. Todavia, a doxa, hoje dominante no ambiente acadêmico, parece derivar da valorização do conhecimento internacionalmente validado, que não se confunde com o caráter cosmopolita dos criadores, embora limite o raio de alcance das pesquisas no campo das Humanidades.

As Humanidades na formação da USP

Esse universo de problemas enquadra a produção do conhecimento em geral e subjaz à construção das hierarquias disciplinares nos ambientes específicos das universidades contemporâneas. Na Universidade de São Paulo – USP – o ambiente acadêmico reverbera muitas dessas concepções difundidas na vida social, pois, na condição de instituição da sociedade, essas organizações reproduzem parte das ideias dominantes. Mas é interessante assinalar que a criação da USP, em 1934, resultou de um projeto cultural e político totalmente exitoso, permitindo-lhe assumir, no futuro, a posição mais distinguida dentre as universidades latino-americanas. No bojo desse projeto original para o País na época – que aliou ensino, pesquisa e extensão e contou com a participação de profissionais e de jovens professores europeus, como Claude Lévi-Strauss –, as Humanidades tiveram papel fundamental tanto na reunião das escolas profissionais existentes, quanto no estreitamento das relações entre os vários campos disciplinares, sendo a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – FFCL – a instituição agregadora e o centro da inovação.

Dessa experiência resultou um setor de Ciências Humanas e Sociais altamente diferenciado e único no Brasil, o que permitiu à USP formar vários intelectuais, pesquisadores e cientistas brasileiros, a exemplo de Antonio Candido de Mello e Souza, Florestan Fernandes, César Lattes, entre inúmeros outros. As Ciências Humanas e Sociais, hoje existentes, são herdeiras do projeto original, ainda que a reforma universitária, de 1968, tenha separado as Ciências Básicas e Naturais em institutos especializados e dado origem a habilitações independentes, como as Faculdades de Educação e de Psicologia, anteriormente cursos ministrados na antiga FFCL. A formação da Faculdade de Economia foi, nesse sentido, precoce em comparação com as anteriores, pois já havia adquirido identidade própria no final da década de 1940. Outros centros altamente qualificados de docência e de pesquisa no campo das Ciências Humanas, Sociais e das Artes localizam-se em instituições como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – FAU – núcleo de prestígio internacional na área. Novas instituições foram criadas, posteriormente, como a Faculdade de Comunicações e Artes- ECA –fundada na segunda metade dos anos 1960, que abriga, atualmente, um amplo espectro de cursos e disciplinas nos setores das artes plásticas, das artes industriais, das artes performáticas, das comunicações e do jornalismo. A Escola de Artes, Ciências e Humanidades – EACH -, construída em 2005 e, pouco depois, o Instituto de Arquitetura e Urbanismo – IAU – localizado no campus de São Carlos, são representativos do adensamento da reflexão, visto que abrigam uma profusão de objetos de pesquisa e volumosa produção intelectual.

O núcleo original das Humanidades na USP permaneceu reunido na atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH -, a maior instituição da Universidade de São Paulo, que conta com cinco departamentos de Letras (Letras Clássicas e Vernáculas, Letras Modernas, Teoria Literária, Letras Orientais, Linguística), responsáveis por 17 diferentes habilitações; três departamentos que compõem o curso de Ciências Sociais (Antropologia, Ciência Política e Sociologia); um departamento de Filosofia; um departamento de História; um departamento de Geografia. O conjunto dos 11 departamentos da FFLCH atende aproximadamente 11 mil estudantes de graduação, 3 mil de pós-graduação e 5 mil nos diversos cursos de extensão, perfazendo um volume que gira em torno de 19 mil alunos. A instituição possui, ainda, 23 cursos de pós-graduação e, entre 2016-2020, titulou perto de 3.400 mestres e doutores. Todos esses atributos fazem da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas o maior centro brasileiro de formação na área, cujos cursos têm sido classificados internacionalmente nas mais diferenciadas posições, elevando o patamar de excelência da Universidade de São Paulo, contribuindo para o êxito que a instituição tem obtido nas avaliações.

Como se vê, a USP é detentora de um setor de Humanidades e Artes incomum e raro, pois a ele se agregam acervos documentais e museológicos ímpares, atestado em organismos como o Instituto de Estudos Brasileiros – IEB – e a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin de obras raras; o Museu Paulista, que reúne um acervo histórico e documental notável; o Museu de Arqueologia e Etnologia – MAE –, que possui exemplares de civilizações anteriores à era cristã, além do mais importante conjunto etnológico sobre as sociedades indígenas no Brasil; o Museu de Arte Contemporânea – MAC – detentor de peças de valor inestimável, tendo, possivelmente, o maior volume de artes plásticas modernistas no Hemisfério Sul. Essas instituições são centros de pesquisa e de reflexão científica, a elas se somam vários outros núcleos documentais da mesma natureza. Nesse cenário incomensurável do ponto de vista da sua complexidade e da sua riqueza, à Universidade de São Paulo é desaconselhável desconhecer a importância das Ciências Humanas, Sociais e das Artes, aqui classificadas genericamente, apesar das suas singularidades.

Compreender as complexidades da vida humana

A conjuntura mundial no presente momento, foi redefinida pela pandemia que surpreendeu mesmo a ciência mais avançada, haja vista a perplexidade dos cientistas diante dos efeitos desconhecidos do vírus e da desorientação inicial sobre as medidas mais adequadas a serem tomadas. Após o vácuo de explicações para dar conta desse acontecimento imprevisto para a maioria dos habitantes do planeta, a ciência foi revalorizada e, no seu bojo, realidades já há muito conhecidas, como as profundas desigualdades sociais características das sociedades contemporâneas e que se aprofundaram em todos os países com o processo de mundialização, como têm revelado as pesquisas, não puderam ser escoimadas da agenda científica. Mesmo porque, se as doenças são fenômenos coletivos, dado o seu caráter de desequilibrar as relações humanas, as epidemias e pandemias são males sociais por excelência, dada a sua abrangência e frente à desigualdade dos efeitos que provoca. Na conjuntura atual, a valorização da ciência e das pesquisas desenvolvidas nas universidades, se resulta da necessidade de encontrar explicações plausíveis para responder à angústia que a todos apossa, implica reafirmar o lugar das Ciências Humanas e Sociais, uma vez que não se entende o aparecimento e a difusão do vírus sem levar em consideração os processos históricos e coletivos que o produziram.

O mundo da pandemia demanda explicações e inspira compreensões que não se esgotam em concepções que escoimaram o tratamento da complexidade da vida humana, que só se realiza no convívio social. A naturalização das leis do mercado em escala global contribuiu para criar a anormalidade social em que hoje vivemos, pois requereu o trânsito intenso e permanente de pessoas e mercadorias, que passaram a ritmar as sociedades contemporâneas. A aposta cega no poder da tecnologia revelou-se impotente para responder de modo imediato aos desafios da doença. Lançou-se mão, então, de medidas conhecidas e praticadas há séculos em situações de epidemias, como a quarentena e o isolamento social. Não se pode desconhecer, no entanto, que a ruptura dos laços de convivência, de cooperação e de afeto à qual os habitantes do planeta foram relegados, se é sempre subjetivamente grave, em contextos de intensa mobilidade espacial tende a aprofundar o desconforto.

Ruiu, em suma, o arcabouço sobre o qual se assentaram princípios tidos como incontornáveis em quase meio século, como expôs um presidente europeu, insuspeito de comungar com o ideário socialista, ao declarar que a tragédia provava que, nas últimas décadas, se havia feito tudo errado. Ou seja, as ideias neoliberais aprofundaram as desigualdades sociais e o Estado mínimo revelou-se enfraquecido diante da magnitude da tarefa à qual foi instado a desempenhar; a intensa mobilidade geográfica foi coibida, do mesmo modo que o ritmo do consumo de bens, poderosos marcadores sociais e símbolos de distinção; a desconfiança em relação às políticas e direitos sociais deixaram parcelas inteiras da população vulneráveis e à mercê da propagação do vírus. Finalmente, o controle da pandemia obrigou à politização das medidas sanitárias, visíveis no caráter mandatório das deliberações oficiais, na distribuição de recursos, na adoção de programas públicos, ao ponto de se poder medir o êxito das políticas de saúde a partir da orientação segura e inequívoca do Estado.

Nesse universo de problemas não equacionados, é relevante lembrar a poderosa representação da peste criada pela literatura desde a Antiguidade clássica, que concebeu obras-primas da ficção mundial; rememorar as linguagens artísticas que construíram imagens pungentes da vida sufocada, quando conformaram e conferiram expressão a essas situações extremas. No conjunto, tornam palpáveis e dão concretude a esses acontecimentos imprevisíveis e fornecem um desaguadouro ao mal-estar reinante, que medrou no terreno inseguro da vida, no medo que a todos assolou, companheiro da angústia que fez dos outros o perigo a ser evitado. Se o momento é repleto de promessas para a construção de um conhecimento integrado e clama por saídas inovadoras, o risco de se retornar a concepções puramente técnicas para a ultrapassagem da crise não está escoimado. A produção de vacinas em tempo recorde, se são fundamentais à sobrevivência de amplas parcelas da população mundial, tem como contraface a valorização das empresas farmacêuticas e as organizações privadas de saúde e toda a sorte de companhias capazes de responder às questões pontuais da crise.

Em meio a esse mundo de fundos desconcertos, as universidades podem se erigir em possíveis respiradouros na busca de soluções efetivamente civilizatórias, mas sob a condição de tratar das mazelas sociais e subjetivas inerentes ao mal que nos atingiu. Para tanto, a atitude sine qua non exige romper a defasagem corriqueira entre as pesquisas experimentais, realizadas em laboratórios, e os problemas substantivos da humanidade formulados pelas Ciências Humanas e Sociais e que são representados nas diversas linguagens das Artes. A cultura, como assinalou Claude Lévi-Strauss, é o repositório comum de todos os problemas. A Universidade de São Paulo, dada a complexidade e diversidade das pesquisas desenvolvidas nas diversas disciplinas humanísticas, ocupa posição privilegiada para enfrentar os desafios do presente.

* Este texto foi concebido tendo em vista oferecer subsídios à participação da USP em fórum acadêmico internacional sobre o papel das ciências humanas nas universidades.
(1) Entrevista de Claude Lévi-Strauss. Ilustrada. Folha de S. Paulo, 03/10/1993. A entrevista foi reproduzida pelo jornal, por ocasião do falecimento do antropólogo. Caderno Mais. Folha de S. Paulo, 03/11/2009.

 

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