Simples como o céu, Ecléa

Eliane Robert de Moraes é professora de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP

Por - Editorias: Artigos
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Eliane Robert Moraes – Foto: Arquivo pessoal
Ecléa Bosi era única, a começar pelo nome. Quanto a isso, não restava qualquer dúvida a quem quer que tenha tido o privilégio de conviver com ela. A bem da verdade, nem era preciso passar pela prova da convivência para sabê-lo: bastava um breve contato para se perceber a singularidade que envolvia por inteiro a sua pessoa. Daí, por certo, a impressão marcante que sua presença causava, não raro traduzida nas impressões de que ela parecia “estar em outro plano”, “viver uma vida outra” ou “não ser deste mundo”.

Impressão à primeira vista, que captava sua superfície assim como anunciava sua profundidade, oferecendo-nos não só um rosto, uma voz ou um jeito de andar únicos, mas também uma alma ímpar. Como quem olha para o céu e tem vontade de saber o que existe além dele, ou mesmo dentro dele, essa impressão formulava uma espécie de convite para se divisar o mundo de Ecléa.

A quem desejava conhecer esse “outro mundo”, cujas portas estavam sempre abertas, ela generosamente ofertava pelo menos três chaves. A primeira delas, e talvez a mais importante, era a dimensão do sagrado que cultivava como profissão de fé, estendendo-a a vários domínios de sua existência. Se sagrada era a devoção cristã que a orientava em direção à prática do bem, também o eram as causas que abraçava contra diversas formas de opressão. Assim, a elevação religiosa caminhava em paralelo com a militância em lutas sociais e ecológicas do aqui e agora, entre as quais o Movimento em Defesa da Vida contra Usinas Nucleares, de que foi fundadora.

De fato, o “outro mundo” de Ecléa implicava um pacto denso e sutil entre a transcendência espiritual e as contingências da vida comum. Nele conviviam criaturas invisíveis aos nossos olhos, não só como os santos católicos, mas também os velhos, os operários, os pobres e toda sorte de injustiçados. A estes, Ecléa emprestou a voz suave e o ouvido atento, devolvendo a cada qual a dignidade de uma história de vida, o que fez de forma muito especial com as mulheres, valendo-se de um feminismo igualmente particular, que combinava doçura e combatividade.

Esta pequena nota sobre essa grande mulher perderia sentido se ignorasse outra chave essencial de seu mundo. Ao lado do sagrado, e habitando suas bordas, essa chave é a poesia. Paixão da vida inteira, compartilhada com o companheiro de toda vida, a poesia foi, para ela, leitura de eleição, objeto de tradução e modo de vida. Ecléa guardava no coração as lições de seus poetas preferidos, alguns dos quais traduziu. Em Ungaretti e Montale, reconhecia o gesto de elevação e a experiência humana; em Leopardi e Rosalía de Castro, a “piedade pela beleza”.

Se houver um ponto em comum entre os poetas, os autores, os amigos, os santos e as pessoas que Ecléa admirava, este é sem dúvida a simplicidade. Valor soberano de seus juízos e prática norteadora de sua ética, sua concepção de vida simples talvez seja a terceira chave que nos dá acesso ao seu mundo.

Escusado lembrar que esse foi também um norteador capital para Simone Weil, outro anjo inspirador que acompanhou Ecléa ao longo da vida. No estudo que consagrou à autora francesa, há passagens reveladoras sobre seu apreço pela simplicidade, que se manifestava desde a infância em atitudes como andar descalça ou recusar vestidos novos, passando pela formatura de bacharelado à qual ela apareceu com seu velho impermeável e sapatos gastos, e daí em diante.

Ecléa nunca escondeu sua simpatia pelo modo de vida de Simone Weil, ou ainda pelo das operárias a quem ambas se dedicaram. Devo dizer, contudo, que meu entendimento sobre sua valorização da simplicidade só se completou no triste dia de sua partida. Durante o velório, a uma pequena roda de amigos, Viviana Bosi contou que a mãe um dia havia lhe confidenciado como imaginava o paraíso celeste. Permito-me reproduzir de cabeça suas palavras: “Um lugar simples, muito simples, sem qualquer decoração; uma sala antiga, de paredes velhas, sem luxo, onde vamos encontrar todas as pessoas queridas que já partiram; uma sala com poltronas e sofás gastos, meio rotos mas confortáveis, onde a gente pode se sentar para conversar muito, muito, sem qualquer preocupação”.

Se esse céu existe – condicional a que se obriga esta amiga ateia, que tanto aprendeu com ela –, ele é mesmo a cara da Ecléa. E, se assim for, ela já deve estar sentada num daqueles velhos sofás, junto de tantos amigos com quem conviveu, e também de seus poetas de eleição, e ainda das figuras que lhe inspiraram a solidariedade e a luta contra as injustiças deste mundo, como Simone Weil, Carlitos, Gandhi, Alberto Schweitzer ou Martin Luther King. E, quem sabe, agora, ela não esteja lendo para todos eles os versos simples e profundos de Rosalía de Castro, de quem tanto gostava, em sua própria tradução:

“Abri as frescas rosas,

fazei brilhar os cravos

do seu jardim, ó arvores, vesti-vos

de lindas folhas verdes,

videira que nos destes sombra outrora,

a cobrir-vos de pâmpanos, voltai.

Natureza formosa,

eternamente a mesma,

dizei aos loucos, aos mortais dizei

que eles não perecerão.”

 

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