Há 25 anos, curso de redação e cidadania busca democratizar conhecimento na USP

Criado por estudantes de comunicação, Projeto Redigir amplia acesso de pessoas em situação de vulnerabilidade econômica à Universidade

 16/05/2024 - Publicado há 1 mês

Texto: Maria Trombini*

Arte: Beatriz Haddad**

Voluntários do Redigir comprovam que a iniciativa realmente mudou a vida de muitos - Foto: Arquivo pessoal de Taís Ilhéu

O Projeto Redigir é um curso gratuito de comunicação e cidadania, cujas aulas são organizadas e ministradas por alunos da USP. Na próxima terça-feira, 21 de maio, o Projeto Redigir promoverá uma série de atividades que integram a Semana de Cultura e Extensão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O evento marca os 25 anos desde a criação do projeto, e contará com a presença de professores, educadores e educandos ligados ao Redigir.

“A nossa proposta é dar aulas para pessoas que gostariam de ter mais acesso tanto à USP quanto a aulas sobre redação, gramática, comunicação e cidadania. Queremos fazer com que as pessoas em vulnerabilidade socioeconômica que nos procuram consigam ter acesso a essa formação para poderem exercer plenamente a sua cidadania”, afirma Nicole Camargo, aluna do curso de Publicidade e Propaganda da ECA e voluntária no Redigir. 

Nascido em 1999, o projeto deu seus primeiros passos com a organização de um grupo de alunos do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.  “A nossa motivação foi ver as salas do departamento vazias, sobretudo na parte da tarde, o que acontece ainda hoje. A gente imaginou [o projeto] como uma possibilidade de ocupar esses lugares, trazendo um pouco também da função social da Universidade”, relembra Rodrigo Ratier, um dos doze estudantes fundadores do projeto.

Nicole Camargo - Foto: Arquivo pessoal
Nicole Camargo - Foto: Arquivo pessoal

Hoje, Ratier é docente no curso de Jornalismo no Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE). Ele explica que o Redigir é um exemplo de prática extensionista, um dos três pilares das universidades, assim como o ensino e a pesquisa. As atividades de extensão são ações voltadas à comunidade externa que permitem a prática dos conhecimentos adquiridos pelos estudantes universitários e funcionam como uma ponte entre a academia e o público em geral.

Ontem e hoje

À época de sua criação, a articulação do Redigir com a Universidade era pequena. “O CJE cedeu as salas para a gente trabalhar. Conseguimos a colaboração de uma xerox. Para chegar ao público externo, fizemos uma divulgação na imprensa e fomos para escolas regulares e técnicas do entorno. Contamos também com a parceria do Centro Acadêmico [Lupe Cotrim]”, comenta Ratier.

Rodrigo Ratier - Foto: Arquivo pessoal
Rodrigo Ratier - Foto: Arquivo pessoal
A ajuda se mostrou muito necessária. A propaganda de um curso gratuito de redação dedicado a pessoas de baixa renda, sem necessidade de graduação em um curso superior, atraiu dezenas de inscritos. No primeiro semestre, foram organizadas oito turmas. “A gente se dividia em dois educadores por grupo, para que um pudesse apoiar o outro, já que tínhamos consciência de que ninguém ali era professor”, diz Ratier.

O professor explica que o projeto Redigir passou por algumas transformações estruturais e pedagógicas ao longo dos anos: “No início, queríamos fazer um curso de redação para vestibulares, mas logo vimos que era algo muito difícil de fazer. Não dava para garantir que as pessoas passariam no vestibular só com aulas de redação, ainda mais com as nossas aulas, que não eram de super qualidade”.

Nesse contexto, os alunos procuraram assessoria na Faculdade de Educação com professores parceiros. “A gente foi migrando para uma proposta que tinha uma abordagem com influência de Paulo Freire. Passamos a olhar também para a cidadania e não apenas falar dos gêneros que caem no vestibular. Queríamos promover uma comunicação que pudesse ajudar as pessoas para além do vestibular, que tivesse uma colocação na vida pessoal, como escrever um pedido para a prefeitura ou coisas assim”, lembra Ratier.
Alunas do Projeto Redigir da USP durante as aulas de comunicação para cidadania
Alunas do Projeto Redigir durante as aulas de comunicação para cidadania - Foto: Arquivo pessoal de Nicole Camargo

Educação e integração

Taís Ilhéu é formada em Jornalismo pela USP. Durante seu segundo ano de graduação, em 2017, ela decidiu se voluntariar no Redigir, incentivada pelos relatos de amigos que já eram monitores no projeto.

Taís se tornou educadora nas noites de quarta-feira, ainda que o interesse pela área tivesse surgido muito antes. “Estudei em escola pública durante toda a minha vida. Essa experiência me fez ter um olhar diferenciado para a educação. Eu percebi como as desigualdades educacionais tornam difícil o acesso às universidades”, lembra.

Ela relata que a identificação com o sonho de ingressar em uma universidade pública a aproximou dos alunos. “Meus educandos eram pessoas de experiências muito diferentes, vindos de diversos lugares, mas que me lembravam também da minha própria história, da minha família e dos lugares de onde eu vim”, diz.

Taís Ilhéu - Foto: Arquivo pessoal
Taís Ilhéu - Foto: Arquivo pessoal

Os laços criados dentro da organização refletiram na vida acadêmica de Tais. Para o Trabalho de Conclusão de Curso, ela escreveu o livro-reportagem Sala de Sonhos, em que narra a história do Redigir. A jornalista diz que queria contar as histórias que permearam os anos de construção e de atividade do projeto, pois elas refletem o que ele é hoje. “O que mais me surpreendeu foi perceber a dimensão do Redigir e como ele realmente mudou a vida de muitos. Ver a capacidade de reinvenção do projeto e como a iniciativa das pessoas manteve o Redigir funcionando”.

Capa do TCC "Uma Sala de Sonhos" - Taís Ilheu
Capa do TCC "Uma Sala de Sonhos" - Taís Ilheu

Protagonismo estudantil

Denalyn de Oliveira - Foto: Arquivo pessoal
Denalyn de Oliveira - Foto: Arquivo pessoal

O desejo de entrar em uma faculdade pública também é compartilhado por Denalyn de Oliveira, vestibulanda de jornalismo e uma das educandas do Redigir no segundo semestre de 2023. 

“O que mais me chamou a atenção foi o interesse deles em fazer com que os educandos tivessem uma experiência dentro da Universidade e que nós ocupássemos esse espaço”, afirma Denalyn.

Ela conta que as aulas aconteciam em roda e todos tinham o direito de falar. Os encontros sempre começavam com debates sobre temas atuais, propostos pelos educadores, durante os quais os alunos poderiam expressar suas opiniões e exercitar a argumentação e a escuta ativa.

“Eu sentia que todo mundo ficava confortável em ter esse espaço para aprender a se comunicar. Eles nos ensinaram sobre pontos de vista diferentes, fontes confiáveis e os conceitos-base da argumentação. Existia uma troca de confiança e de respeito pela opinião do próximo, de forma que todo mundo conseguia sair com uma bagagem nova depois de todas as aulas”

O professor Ratier explica que o Redigir procurou adotar uma metodologia de ensino em que o protagonismo estivesse não só no professor, mas também nos alunos. “Foi ficando cada vez mais evidente o quão pouco efetivo é o método tradicional das aulas, com o professor na frente e os alunos sentados recebendo a informação. O Paulo Freire chamava isso de educação bancária, como se os alunos fossem um depósito para saberes transferidos pelo professor”, informa.

Educação para o futuro

Taís acredita que o projeto Redigir precisa de mais apoio. “Para um projeto sem institucionalização, é difícil conseguir dinheiro de editais ou mesmo angariar outras fontes de renda fora da Universidade. É uma dificuldade presente ao longo de todos esses anos e que precisa de atenção”, adverte.

O professor Ratier ressalta que as universidades vivem um processo de curricularização das atividades de extensão, o que permite o estreitamento das relações entre a instituição e a atividade estudantil.

“Fortalecer a extensão mostra a contribuição que os universitários podem dar com o seu conhecimento e, sobretudo, permite enxergar como eles estão abertos a ver esse curso coconstruído pela comunidade”, lembra o professor.

A fala de Ratier no evento de aniversário do Redigir abordará as transformações da educação e da comunicação e sua relação com a atividade do projeto.

“Os processos de digitalização trouxeram novas discussões, como as sobre redes sociais e fake news. Isso é algo que, lá no começo do Redigir, a gente intuía. Eu mesmo montei um curso dentro do projeto que teve vários nomes: ‘Como não ser enganado pela mídia?’, ‘Entendendo a mídia’ e ‘Comunicar para mudar o mundo’”, conta o professor.

“O que a gente pretende é trazer cada vez mais essa questão para as nossas aulas. Não importa qual o perfil, classe social, idade ou outra característica do educando que busca o projeto. Queremos fazer com que as pessoas sejam cidadãos também do mundo digital, mas tendo consciência de como participar de uma maneira efetiva”, acrescenta Nicole.

Serviço:

25 anos do Projeto Redigir

Data: 21/05

Horários: das 14 às 17 horas e das 19h30 às 22 horas

Local: Auditório Freitas Nobre da ECA

Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Prédio 2, Cidade Universitária

Evento aberto ao público, sem inscrição prévia. Para os alunos da USP, será oferecido certificado válido para horas complementares.

*Estagiária sob supervisão de Tabita Said
**Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado


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