Quanto vale uma fala?

Por Jean Pierre Chauvin, professor de Cultura e Literatura Brasileira na ECA/USP

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Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Entre 10 e 12 de setembro de 2018, a Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp (campus Guarulhos) promoveu e sediou o I Panorama de Estudos Poéticos e Retóricos no Brasil, em homenagem à carreira e ao trabalho de João Adolfo Hansen, professor aposentado de Literatura Brasileira da FFLCH/USP. Com atividades que preencheram todas as manhãs, tardes e noites, o evento contou com a exposição de estudiosos da França (Roger Chartier) e de Portugal (Isabel Almeida); de pesquisadores oriundos de diversas instituições de ensino do País (Uesb, Unifesp, UFSM e USP); e do próprio homenageado, na conferência de encerramento.

Capa do livro Hidra Vocal, da Ateliê Editorial

A melhor parte da notícia é que o conteúdo substancial dessas falas sobre falas será disponibilizado em livro sob os cuidados da Ateliê Editorial, preparado por Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, Marcelo Lachat e Lavínia Silvares – docentes da Unifesp que (também) idealizaram e organizaram o Panorama. Recorrendo à caracterização da “hidra vocal”, sugerida por Baltasar Gracián em meados do século XVII, o volume reúne estudos sobre matérias situadas em vários tempos e lugares, centrados nas obras de Propércio, João de Barros, Luís de Camões, Michel de Montaigne, William Shakespeare, Antônio Vieira, Gregório de Matos e Sebastião da Rocha Pita.

Na “Apresentação” ao volume, Carvalho, Lachat e Silvares destacam a importância inconteste de A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII – versão em livro da tese defendida por João Adolfo Hansen na FFLCH, em dezembro de 1988 –, publicado em 1989 pela Companhia das Letras e reeditado em 2004 pela Ateliê Editorial, em parceria com a Editora Unicamp. Os organizadores de Hidra Vocal salientam que, a partir dos estudos pioneiros de Hansen no Brasil, passou-se a historicizar, “[…] sem jamais engessar, os complexos objetos do mundo das letras produzidos em uma alteridade histórica que definitivamente não é a nossa”.

No capítulo (“Artes e letras no Brasil anteriores ao século XVII”) que transcreve a fala de Hansen apresentada durante o evento, o estudioso relata o seu percurso intelectual e acadêmico, dentro e fora da Universidade de São Paulo; a seguir, questiona a abordagem idealista e de feição teleológica, praticada por (in)certa historiografia literária no Brasil, que ainda desconsidera as condicionantes históricas, a emulação de obras modelares e o papel das preceptivas retórico-poéticas na invenção, decoro e conformação das obras e a filiação dos homens letrados à auctoritas (tradição autoral).

O pesquisador também assinala a importância de se (re)valorizar a linguagem (situada historicamente) e a materialidade dos textos como fundamentos que embasam e asseguram maior consistência às leituras e pesquisas sobre as práticas letradas produzidas em diferentes temporalidades, por vezes coexistentes. Essas cartas, sermões, tratados e versos foram confeccionados por homens que não concebiam os territórios, os conceitos, a religião, a política, a(s) cultura(s) e as relações sociais da maneira apressada, superficial, massificada e impressionista que passou a vigorar na passagem do século XVIII para o XIX – e se consolidou na segunda metade do século XX, com o advento dos mass media e dos self media, durante o que se convencionou chamar, problematicamente, de pós-modernidade.

Dito isso, talvez fosse o caso de reiterar a importância dos procedimentos empregados, dos artifícios de que se valeram e dos expedientes utilizados por pensadores, tratadistas, historiadores, teólogos e poetas da Antiguidade, Idade Média e Era Moderna, na composição das obras que se lhes atribuem. Seria o momento oportuno de afirmar que as preceptivas e as letras luso-brasileiras têm encontrado crescente efetivo de adeptos, nos últimos 30 anos.

Mas, para evitar redundâncias e seguir o estilo e os propósitos do gênero resenha, convém abreviar o comentário e ressaltar a importância de consultar esse livro pelo que vai nele. Hidra Vocal poderia ser caracterizado pelo menos de duas formas: como impecável registro de estudos sobre as “ruínas” que sobrevivem à rasoura que pauta o tempo da megaespecialização intelectual; e como justa homenagem a um generoso professor e intelectual que reorientou a crítica e a historiografia literária, dentro e fora do País.

 

Hidra Vocal: Estudos sobre retórica e poética (em homenagem a João Adolfo Hansen), de Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, Marcelo Lachat e Lavínia Silvares (orgs.), Cotia, Ateliê Editorial, 2020, 265 pp.

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