Isolamento horizontal versus isolamento vertical no combate à covid-19

Por Fábio Augusto Reis Gomes, professor do Departamento de Economia da FEA-RP

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Fábio Augusto Reis Gomes – Foto: Divulgação/FEA-RP
H á um debate no país sobre qual seria a forma mais adequada de combater a epidemia do coronavírus (covid-19). Há aqueles que defendem o isolamento horizontal, que significa manter o maior número possível de pessoas em suas residências e, portanto, isoladas. Há outros que defendem o isolamento vertical, que implica manter as pessoas dos grupos de riscos, como idosos, diabéticos e hipertensos, isolados. Quais são as vantagens e desvantagens de cada estratégia?

Sem dúvida, o isolamento horizontal tem maior potencial para conter a epidemia, pois ao isolar um número maior de pessoas, gera-se uma dificuldade para a transmissão do coronavírus. Considerando que esse vírus é transmitido facilmente e que a superlotação do sistema de saúde acarretaria a perda de várias vidas – inclusive para doenças diversas –, entende-se o apelo de órgãos de saúde em favor do isolamento horizontal. Portanto, a vantagem do isolamento horizontal é clara: dificultar a transmissão do vírus e impedir a superlotação e o esgotamento do sistema de saúde, com vistas a salvar vidas.

A desvantagem do isolamento horizontal, especialmente se longo, é que há um efeito negativo considerável na economia. Não se trata aqui de aceitar que vidas sejam perdidas para que uma empresa não tenha seu lucro reduzido ou mesmo não venha a falir. Não se trata de estabelecer uma troca entre vidas e dinheiro. A questão não é essa.

Então, qual é a questão? Uma economia desorganizada e em recessão também acarreta perda de vidas. Explico. Se as estradas forem completamente fechadas, como o material hospitalar chegará aos hospitais? Se os restaurantes em todas as estradas forem fechados, como os caminhoneiros continuarão a trabalhar? Já vimos o que acontece neste país quando essa classe não trabalha. Ainda, uma recessão implica mais desemprego, mais miséria e queda na arrecadação do governo, que implicaria menos recursos para o próprio sistema de saúde.

O isolamento vertical é, certamente, menos promissor em termos de combate à epidemia, pois é mais fácil isolar uma família inteira, do que apenas uma pessoa dessa família que pertence ao grupo de risco. Por exemplo, se uma família tem um idoso que fica somente em casa, mas os demais circulam normalmente, indiretamente o idoso está exposto ao coronavírus. Por outro lado, de um modo geral, a economia continuaria organizada e em funcionamento, gerando inclusive recursos para o sistema de saúde.

O Brasil tem colocado em prática o isolamento horizontal, o que parece o mais prudente a se fazer neste momento por vários motivos. Primeiro, o inimigo é pouco conhecido (não dispomos ainda de remédios e vacinas devidamente testados e aprovados). Segundo, não podemos correr o risco de ver o sistema de saúde ruir com uma superlotação e, somente depois disso, tomar medidas enérgicas. Terceiro, uma forte epidemia também tem impactos na economia, inclusive porque neste cenário muitos se isolariam voluntariamente. Por tudo isso, é bastante prudente começar essa batalha com o isolamento horizontal. No entanto, mesmo com esse tipo de isolamento, é preciso tomar certos cuidados. Por exemplo, inviabilizar o transporte de mercadorias não ajudará no combate ao coronavírus. Como mencionado, precisamos que suprimentos cheguem aos próprios hospitais.

Se as ações atuais se mostrarem bem-sucedidas ao longo do tempo, podemos, com o devido acompanhamento dos números, migrar do isolamento horizontal para o vertical. Para que fique claro: isso deveria ser feito com o objetivo de salvar vidas. Lembre-se que recessões também causam mortes. Ademais, há uma questão prática. Quanto tempo o brasileiro médio consegue suportar o isolamento horizontal? Os profissionais autônomos – indivíduos que exercem suas atividades sem qualquer vínculo empregatício – têm capacidade de suportar um isolamento horizontal longo apenas se possuíssem uma poupança elevada, o que não é caso de muitos, especialmente os de baixa renda. Mesmo aqueles com vínculo empregatício têm receio de a empresa quebrar e perderem suas fontes de renda. Dai a importância da atuação emergencial do governo para possibilitar a continuidade do isolamento horizontal.

Um isolamento horizontal organizado, com os serviços essenciais em funcionamento, é desejável a um isolamento horizontal sem o devido planejamento. Uma transição organizada do isolamento horizontal para o vertical – no devido momento e da forma correta – é melhor do que uma transição abrupta para aqueles de baixa de renda que simplesmente ficarão sem opção.

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