Iara Rennó canta “Macunaíma” no Espaço Brasiliana

O espetáculo, que aconteceria no dia 30 de maio, foi cancelado e será remarcado em breve

Por - Editorias: Cultura

Evento a seguir foi cancelado e será remarcado em breve. 

Ouça no link acima entrevista de Iara Rennó sobre o espetáculo Macunaíma Música e Prosa, apresentada no programa Via Sampa, da Rádio USP (93,7 MHz), no dia 25 de maio de 2018. 

A cantora e compositora Iara Rennó iniciou o projeto Macunaíma como estudante de Letras na USP – Foto: Divulgação / Bruno Nucci

O herói “de nossa gente”, que nasceu no fundo do mato virgem, filho do medo da noite, a criança que chamaram de Macunaíma completa 90 anos. O pai e autor, o escritor Mário de Andrade (1893-1945), criou o “preto retinto” como o retrato do povo brasileiro. Mas talvez não imaginou o menino da célebre frase “Ai que preguiça!” crescendo como um clássico da literatura brasileira. No dia 30 de maio, quarta-feira, às 14 horas, o romance será apresentado pela cantora e compositora Iara Rennó no Auditório István Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Macunaíma será homenageado com Macunaíma Música e Prosa, uma recriação da artista com a dinâmica de uma aula-show. Com entrada grátis, o evento é promovido pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP,

Apresentação do espetáculo Macunaíma Ópera Tupi, de Iara Rennó, no Teatro Oficina, em 2010 – Foto: Divulgação / Mônica Bento

Macunaíma, que brincava de decepar cabeça de saúva e se transformou em filme e peças de teatro, é lembrado nas canções compostas e interpretadas por Iara. Um projeto que a artista iniciou em 1999, quando era estudante de graduação do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Decidi pesquisar a obra de Mário de Andrade para o meu trabalho de conclusão de curso com a orientação do professor, poeta e crítico Augusto Massi”, conta Iara. A partir desse TCC, a aluna continuou a pesquisa no IEB e o resultado foi a montagem do espetáculo Macunaíma Ópera Tupi e a gravação em CD, com o selo Sesc. Um projeto que há dez anos tem sido remontado e apresentado em todo o País.

“Nessa aula-show, tocarei as músicas do meu álbum e discorrerei sobre os processos de criação e composição ali presentes”, explica a compositora. “Para ilustrar, contarei com referências dos áudios originais da Missão de Pesquisas Folclóricas, expedição organizada por Mário de Andrade em 1920, e trechos do filme de Joaquim Pedro de Andrade, considerado um dos mais importantes do cinema brasileiro.”

Houve um momento em que o silêncio foi tão grande, escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia.”

As canções de Iara Rennó destacam a poesia de Mário de Andrade. O vídeo acima traz as cenas iniciais da apresentação do Macunaíma Ópera Baile, no Teatro Oficina. A letra flui sob a poética do escritor: “Houve um momento em que o silêncio foi tão grande, escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Macunaíma já na meninice fez coisas de sarapantar.”
Iara Rennó vai apresentar as canções de Macunaíma Ópera Tupi, um álbum de 14 faixas que destacam trechos do livro. “Cada música terá sua gênese contada, com um breve apontamento das referências folclóricas a que remetem, além da análise da forma do texto que foi utilizado na composição e quais suas características poético-musicais, tais como métrica, rimas, assonâncias, aliterações etc.”, explica a compositora. A apresentação da aula-show Macunaíma Música e Prosa traz um paralelo entre as diversas linguagens que envolvem o projeto da artista, como literatura, música, cinema e teatro. “Será uma apresentação multimídia, que vai envolver o público e o transportar totalmente para dentro do tema referido, munindo-o de elementos para a melhor absorção do conteúdo da obra original.”

Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando.”

Iara Rennó é paulistana, mas, quando menina, morou no Mato Grosso do Sul, no Rio de Janeiro e também passou pela Bahia. O dom de cantar e compor vem da família materna. “Nasci entre vários cantautores, como Alzira Espíndola, minha mãe, Tetê e Geraldo Espíndola”, conta com orgulho. Estudei na USP entre 1998 e 2002. Mas meu primeiro contato com Macunaíma foi no ginásio. Quando reli o livro no curso de Letras, uma melodia me saltou aos ouvidos, como que imagens em 3D quando salta aos olhos. A prosa apresentou seu ritmo, sua ginga, cheia de rimas e alterações, reverberações dos sons. Na minha cabeça, a música começou a tocar e não parou mais.”

As primeiras músicas do disco fluíram em seu TCC. “São três as passagens de texto em prosa que musiquei, fazendo cortes, mas nunca acrescentando palavras”, explica Iara. “O resto das canções foram feitas sobre os versos que a história traz – músicas que sempre estiveram ali, mas quietinhas. E as formas da música popular folclórica do Brasil se misturaram com tudo quanto é música contemporânea que ouvi. Então eu fiz isso conservando e corrompendo a tradição, colando e recriando, bem ao gosto do poeta e ao sabor da obra, ‘na fala impura’.”

Iara Rennó: abertura do espetáculo no Teatro Oficina– Foto: Divulgação / Mônica Bento

O resultado da pesquisa de Iara Rennó compôs uma ponte entre o romance de Mário de Andrade e o teatro, o cinema e a música contemporânea, mostrando que, aos 90 anos, Macunaíma tem a sua infinitude no universo dos clássicos. No final do livro, o poeta, escritor, crítico, musicólogo traça esse destino: “Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente. Tem mais não”.

O espetáculo Macunaíma, música e prosa, da cantora e compositora Iara Rennó, acontece no dia 30 de maio, às 14 horas, no Auditório Istvan Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Espaço Brasiliana, avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo). A coordenação é de Flávia Toni e Stelio Marras, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Entrada grátis.

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