Deus proverá? Variações sobre uma constante – Parte I

Por Marília Fiorillo, professora de Filosofia Política e Retórica da ECA/USP

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=336981
Marília Fiorillo – Foto: jornal.usp.br

 

O presidente Vladimir Putin, no golpe constitucional consumado na primeira semana de julho, através de um pacote de emendas, garantiu sua vitaliciedade no poder. Agora é lei: se o acaso não impedir, a virtù fará do atlético judoca, ex-chefe da KGB, alternadamente presidente e primeiro-ministro da Rússia, desde 2000, o mais longevo ditador das paragens – mais que Stalin, que desgovernou a União Soviética de 1927 até sua morte, em 1953. Se a sorte soprar para suas bandas, Putin será o czar da Grande Mãe Rússia (e amedrontadas adjacências) até completar 83 anos de idade.

Mas o pacote de emendas, em tese aprovado por 77% dos eleitores, tem uma peculiaridade. Consagra a “fé em Deus” como cláusula constitucional – assim como estipula que casamento só vale se for hetero, criminalizando a união de pessoas do mesmo sexo. Com a bênção e, agora, a tipificação legal de Deus, a Rússia continua um país laico, secularista, se Deus quiser. Ao contrário do Irã, uma teocracia orgulhosa de si.

A manobra de incluir Deus na Carta Magna russa provavelmente agradará a uma população majoritariamente de cristãos ortodoxos que, mesmo na era stalinista, escondia seus ícones nos potes de farinha.

A finada União Soviética nunca deixou de rezar. Nem de ser conservadora. Sob Lenin, uma militante bolchevique feminista e progressista, Alexandra Kollontai, escreveu o opúsculo A moral sexual (1921) e outros no gênero, em que defendia, sem senões, o aborto, o que era o suprassumo da revolução sexual nos anos 20 do século passado, e que faz dela uma precursora do “meu corpo, minha escolha”. Depois Kollontai se tornou “comissária do povo para assuntos do bem-estar social”, diplomata e, finalmente, tendo de escolher entre a causa e a vida, aderiu ao stalinismo para sobreviver.

Não foi a única que se dobrou aos ditames do stalinismo, e passou a rezar em outra cartilha. Talvez o mais famoso deles seja o esplêndido poeta e dramaturgo Bertolt Brecht. Mas isso são outros quinhentos.

2.

Os países ditos, erroneamente, comunistas, como China (até hoje!) e como os satélites da falecida Cortina de Ferro, professavam o ateísmo. Nunca pegou. Fingia-se que Deus estava morto, para não cair em desgraça com a polícia política, pois os tempos eram bicudos. Nos anos 30, os “processos de Moscou”, julgamentos forjados sob tortura e falsas alegações e cujo intuito era apenas limpar/executar o comitê central de quem não fosse sabujo de Stalin, deram o arremate finalíssimo para quem, digamos, intelectuais, ainda achava que tal regime totalitário teria qualquer aprovação de Karl Marx.

De novo, outros quinhentos. Desculpem, mas é o espanto diante da acelerada e arrebatadora ignorância, que nunca deve ser menosprezada.

Pois não sobrou um único comunista (na acepção original) neste planeta. Pudera! Coloquemos o cartaz, ou no twitter e análogos, a mensagem urgente: “Procura-se um comunista”, pelo amor de Deus! Quem achar recebe uma recompensa maior que a oferecida pela captura de Bin Laden. A recompensa será triplicada se se achar um da espécie “comunista” nesta “terra radiosa onde vive um povo triste”, como escreveu Paulo Prado, o primeiro dos explicadores do Brasil.

Comunistas tinham data de validade. Já expirou. Não disseram aos caçadores robóticos de comunistas da Terra de Santa Cruz que distributivismo, direitos sociais e liberdades civis, igualdade, fraternidade e certo bom senso não são, mas não são mesmo, apanágio dos comunas, nem dos Tudor, nem dos Habsburgos.

3.

Comunistas inexistem, mas teístas se propagam ruidosamente. Dizemos teístas, e não deístas, pois estes últimos, mesmo admitindo Deus, não precisam de igrejas, nem de intermediários, nem de revelações, e acatam a ciência. São a turma dos anarquistas de Deus. Não têm nada de esotérico. Já os teístas, de qualquer confissão, não sobrevivem sem a pompa de instituições, liturgias e um apelo inefável ao terror. Podem ser católicos, cristãos ortodoxos, protestantes, evangélicos, pentecostais, hinduístas, até budistas nacionalistas raivosos, como o monge chefe Ashin Wirathu, em Myanmar.

Óbvio que há gente boa em todo lugar. Mas em geral o poder, e os poderosos, corrompem e sequestram Deus para suas agendas políticas. Trump, Viktor Orbán, Bolsonaro são atualmente os mais notórios, mas longe de serem os únicos. Invocam cansativamente Seu nome, e nunca é em vão. Pois dá certo, dá liga com a maioria das pessoas, traz confiança e conforto, transfere responsabilidades e promove esperanças.

O terreno ideal para igrejas prosperarem é a crise. Desde sempre, a crença (e a credulidade) esmaga facilmente a razoabilidade. O filósofo e filólogo irlandês E. R. Dodds, socialista e um erudito em neoplatonismo e misticismo, escreveu, em Pagan and christian in a Age of Anxiety [Pagãos e cristãos em uma Era da Ansiedade] (Cambridge University Press, 1965), que o caos econômico e social e a insegurança política – ele se referia ao período que vai da ascensão de Marco Aurélio, em 161, à conversão de Constantino, em 312 – são a mais fértil terra para semear o misticismo e, acrescentamos, as “nebulosas da fé”.

Miséria e fervor religioso são gêmeos siameses. Na(s) era(s) da ansiedade, expressão que ele emprestou de seu amigo e poeta W. H. Auden, a conversão torna-se endêmica. Por que tamanha desgraça se abate sobre nós? Não é uma pergunta que o homem feliz se faça, já que a vida feliz é sua própria justificativa (Fiorillo, O deus exilado, Civilização Brasileira, 2008).

4.

Os ateus, tradicionalmente seres constrangidos e que, para evitar a ira humana, costumam se dizer agnósticos (nem creio, nem descreio…), hoje estão encurralados. Houve quem dissesse, recentemente, que “os torturadores são ateus” e ninguém exigiu a devida retratação. É de se supor, portanto, que a Santa Inquisição, seus líderes e obreiros, foram todos ateístas dissimulados.

Ser ateu continua uma infâmia, apesar do sucesso, das tantas publicações e da notoriedade do grupo ateu que, ironicamente, se intitulou Brights, “brilhantes” (como fizeram os homossexuais, ao reverter o sentido pejorativo de gay), cujos expoentes são o biólogo evolucionista Richard Dawkins (The god delusion [Deus, um delírio], Houghton Mifflin Company, 2006), o filósofo Daniel Dennett (Breaking the spell: religion as a natural phenomenon [Quebrando o feitiço: religião como um fenômeno natural], Penguin, 2006) ou o petulante jornalista Christopher Hitchens (God is not great: how religion poisons everything [Deus não é grande: como a religião envenena tudo], Twelve Books, 2007).

Porém, a mais esclarecedora e luminosa defesa do ateísmo é dos anos 50, e seu autor, Bertrand Russell. No livro Por que não sou cristão (tradução de Brenno Silveira, Livraria Exposição do Livro, 1965) ele se pergunta por que cargas d’água Deus prefere milagres frívolos, em vez de repartir justiça no mundo. Por que atira um monte de inocentes porquinhos (possuídos pelos “demônios de Gerasa”) no despenhadeiro, em vez de acionar sua onipotência para simplesmente dar cabo da possessão? E, para os que creem que as ações divinas têm misteriosos propósitos (o argumento da “prova teológica”), conclui: “[…] afirma-se, por exemplo, que as lebres têm rabos brancos para que possam ser facilmente atingidas por um tiro. Não sei o que as lebres pensariam deste argumento”. Mais adiante, no capítulo “Aquilo em que creio”, resume: “A religião, tendo a sua origem no terror, dignificou certas espécies de medo, fazendo com que não sejam encarados como coisas vergonhosas. Nisso, prestou à humanidade um grande desserviço, pois que todo medo é um mal”.

Darwin, o bom caráter e gênio que destronou Deus ao descobrir a evolução das espécies e a seleção natural, também apanhou. Foi ridicularizado pelo arcebispo de Canterbury, que o interpelou: “Senhor Darwin, o senhor é descendente de macaco por parte de pai ou de mãe?”.

Agora sim, chegamos ao nosso tema: a teodiceia. Ou a questão do mal, em um mundo governado por um Ser onipotente, onisciente e onipresente. E bom.

5.

Teodiceia. Como é que Deus se explica diante de tanta catástrofe e maldade? Hipóteses:

  1. O horror do mundo é mistério. Insondável. Inacessível. Vide o filósofo Leibniz, cujos traços inspiraram o dr. Pangloss de Voltaire. Os pioneiros explicadores de Deus, ou padres da Igreja, vêm de Alexandria ou do norte da África, como Agostinho de Hipona. Aliás, o único sinônimo eclesial preciso para “dogma” é “mistério”. Dogma, o alicerce fundante de toda religião, significa “sou pequenininho demais para entender”. Qualquer tentativa de refletir sobre o dogma ou dar-lhe coerência seria uma ingerência indevida, além de herética, sacrilégio capital. Ou, como escreveu um dos mais eloquentes padres da Igreja (na passagem do séc. II para o séc. III), o cartaginês Tertuliano: “Creio, porque é absurdo”.
  2. O horror no mundo não tem nada com Deus. É obra humana, já que nos foi concedido o livre-arbítrio.

Como dizia Russell, os homens precisam visceralmente do terror, para fins de catarse, o que lhes é proporcionado pelas religiões. Religião é a antítese do sublime. Se algo pode ser associado ao sublime e à promessa de felicidade, ou superação, é a arte. Bach nos faz flutuar, Beethoven, na Ode à alegria, nos lembra que poderíamos ter outro destino, e os pintores Francis Bacon e Julien Freud, expondo nossas feias vísceras, paradoxalmente nos elevam a outro patamar de compreensão, mais afiado.

Às religiões, repugna a compreensão. Tanto que a fantasia mais comumente evocada nelas é a do mysterium tremendum, do enorme, esmagador, abissal, tenebroso.

O teólogo e especialista em religiões comparadas Rudolf Otto esmiúça a questão em seu O sagrado (tradução de João Gama, Lisboa, Perspectivas do Homem/Edições 70, s/d). O numinoso, misteriosa revelação espiritual do sagrado, é o fenômeno que nos incute assombro, tremor, terror, o “sentimento de estado de criatura” – a revelação de nossa pequenez (pior que irrelevância) que se abisma no nada diante da tremenda transcendência de Deus e Sua inacessibilidade absoluta. Do pó ao pó, pulverizados desde sempre perante o Inatingível.

Daí a verdadeira vocação da comoção religiosa: a admoestação, o aviso recriminador, o alerta contínuo e a contínua vigilância até o final dos tempos. A escatologia, aqui, cumpre à perfeição o avesso da utopia, ao suscitar pavor e assegurar-se da resignação e disciplina dos fiéis.

Todo o resto é mera consequência. Ouro, incenso, mirra, exorcismos, dízimos, pompa, glória, magnificência, templos, influência, longevidade e também a manha de converter gente simples em fanáticos (ou, como disse o Prêmio Nobel de Física Steven Weinberg, a proeza de “fazer com que gente boa pratique más ações”) são o resultado deste mysterium tremendum, da altiva segurança de Si que não admite dúvida nem réplica.

Em religiões que se prezam não cabem hesitações, perguntas, divagações, digressões, oxímoros. O segredo do sucesso das Igrejas é a infalibilidade do dogma: estão isentas de prestar contas.

O mistério é, por definição, imune a qualquer lógica, impenetrável e exclusivista. E o exclusivismo, germe do fanatismo, sempre foi a virtude cardeal das religiões, ao menos das monoteístas. Na Antiguidade tardia, os pagãos helenistas, que tinham à disposição um panteão de deuses, Apolo, Afrodite, Ares, Zeus & cia., cada qual cumprindo a parte que lhe cabia, ficavam pasmos diante do avanço célere do cristianismo (poderia ter sido, também, do mitraísmo, culto predileto das legiões romanas, mas pouco assistencialista). Deviam se perguntar: mas para que concentrar tudo nas mãos de uma só deidade? Por que tanto ciúme?

6.

O Deus exclusivista venceu. Está, sozinho, com o fardo de se explicar. A clássica teodiceia o justificava, mas, para o não crente, sobram enigmas:

  • Deus se afastou de suas criaturas, pois reconheceu o erro de sua criação?
  • Deus é afastado por suas criaturas, e foi substituído e falsificado por demiurgo malicioso?
  • Deus se enfurece, como de hábito?
  • Deus ri, pois tudo terá conserto?
  • Seria Ele o Criador ou criação nossa?

Vamos tentar esquadrinhar cada uma dessas intrigantes hipóteses. Mas fica para a Parte II.

.

.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.