Por que iniciar 2023 com um compromisso para a prevenção da covid-19?

Por Lorena Barberia, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 Publicado: 10/01/2023  Atualizado: 11/01/2023 as 16:11

No dia 30 de dezembro de 2019, a Comissão de Saúde da cidade chinesa de Wuhan divulgou um aviso urgente alertando sobre uma doença não identificada. Hoje, três anos depois, tendo vivenciado ciclos persistentes de surtos de covid-19, existe um grupo de pessoas pensando que, como já estamos vacinados com pelo menos duas doses e teremos acesso a doses de reforço contra sars-cov-2, é uma bobagem tentar atrasar o repetido e frequente encontro com o vírus. Para estas pessoas, a doença provocada pela covid-19 não deve ser uma preocupação importante em 2023. Covid-19 não é uma doença sexualmente transmissível, nem Ebola. Por ser um vírus respiratório altamente transmissível e com as variantes que surgem com potência de escape vacinal, há pessoas que defendem que não é possível evitá-lo para sempre. Para estas pessoas, devemos aceitar que continuaremos sendo infectados repetidas vezes. De acordo com estas pessoas, não há motivo de preocupação, você está sendo infectado apenas mais uma vez, agora mais velho e com maior exposição ao vírus. Defendem que não adianta insistir em usar testes, máscaras e outras medidas para atrasar o tempo até nos infectarmos pela próxima variante de covid-19.

Porém, atualmente há motivos importantes para impedir as repetidas infecções por sars-cov-2. Devemos compreender que novas variantes do vírus continuam a surgir, inclusive com maior capacidade de transmissão e de provocar doença grave. A variante Omicron, por exemplo, tem mostrado ser mais infecciosa e resistente às principais vacinas em uso. E mais, a sua letalidade tem se mantido elevada, mesmo sendo menor do que nos tempos anteriores à vacinação. Essa variante não deve ser a última a nos preocupar, dado que, com três anos de experiência, temos aprendido que o sars-cov-2 tem uma alta capacidade de mutação. Ao contrário do que argumentam os que minimizam os impactos das repetidas infecções, também sabemos que o sistema imunológico e o organismo como um todo podem sofrer perturbações devido a repetidas infecções. E ainda pior, quanto mais gente tem se infectado pelo sars-cov-2, mais chance de novas mutações e do surgimento de novas variantes com maior potencial de transmissão e escape vacinal.

Além de convivermos com um vírus mais transmissível, a ocorrência de covid longa merece um destaque especial. Há evidências de que as complicações devido à infecção por sars-cov-2 estão relacionadas com o surgimento ou agravamento de problemas de saúde crônicos, afetando nossa saúde cardiovascular, respiratória, neurológica e cognitiva, semanas e meses após a fase aguda de infecção, podendo permanecer até por mais de anos, e cujos desfechos, a longo prazo, ainda são desconhecidos. Muito do que sabemos se limita aos primeiros meses após uma infecção, mas, com o passar do tempo, estudos devem ser produzidos para que possam auxiliar os profissionais da saúde a compreender melhor os mecanismos pelos quais o vírus vem gerando sequelas e mesmo persistência de doença ativa em diferentes sistemas do corpo humano.

Atualmente, já sabemos que, após a infecção aguda por covid-19, uma proporção de indivíduos desenvolve sintomas físicos e neuropsiquiátricos com duração superior a 12 semanas (conhecido como covid longa, síndrome crônica de covid-19 ou sequelas pós-agudas de covid-19). Estudos indicam que a covid longa afeta entre 10% e 50% dos casos de covid-19, mesmo em casos de covid-19 aguda com sintomas leves. Como os sintomas da covid longa (CL) incluem fadiga persistente intensa, dispneia (falta de ar), aperto no peito, tosse, nevoeiro mental e cefaleia, as pessoas acometidas por estes problemas sofrem prejuízos, que afetam as atividades cotidianas e, a cada infecção por sars-cov-2, corremos o risco de desenvolver CL. É importante lembrar também que a covid longa pode ocorrer em todas as faixas etárias tanto em crianças, jovens adultos e idosos. Mesmo ainda subnotificada e submonitorada, as sequelas da covid aguda e a covid longa podem ser tão graves que as pessoas perdem seus empregos, moradia e família, além de ter que cuidar de seus problemas de saúde.

Iniciamos o ano de 2023 sabendo que podemos pegar covid-19 várias vezes. As vacinas não previnem a reinfecção ou a transmissão, por completo, mas reduzem ambas. Os reforços vacinais são importantes. Não há evidências de que as novas variantes de sars-cov-2 sejam menos letais ou que causem sintomas mais leves e menor ocorrência de sequelas. Também sabemos que pelo seu potencial de causar sequelas e covid longa, a covid-19 pode levar ao óbito meses depois da infecção aguda, como, por exemplo, por aumentar a chance de fenômenos tromboembólicos, inclusive, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. Há também preocupação de que repetidas infecções pelo vírus da sars-cov-2 possam provocar perturbações do sistema imunológico aumentando a vulnerabilidade a outras infecções e mesmo doenças autoimunes.

Tudo isto significa que a fase aguda da infecção pelo sars-cov-2 não deve ser a única preocupação. Precisamos compreender que em nada ajuda focar a discussão sobre o enfrentamento à pandemia somente em determinados países ou em momentos específicos, como ocorre hoje com o destaque dado à explosão de casos e óbitos na China. Os dados científicos continuam mostrando que variantes que dominam em determinados contextos podem ou não ser variantes agressivas em outras populações e países futuramente. O enfrentamento da pandemia em cada país e contexto é complexo, e precisamos insistir em cobrar respostas globais a uma ameaça global. No dia 18 de setembro de 2022, o presidente dos EUA, Joe Biden, afirmou que a pandemia acabou, entretanto, na última semana de dezembro de 2022, a média semanal de óbitos diretamente atribuídos à covid-19, nos EUA, era de aproximadamente 400 — ressaltando que os dados de mortalidade em excesso sinalizam que esses números são superiores. E, por consequência, a administração de Joe Biden, na metade desse mesmo mês, reiniciou um programa que oferece o envio de testes de covid-19 gratuitos em casa por meio do serviço postal.

No caso brasileiro, o último ministro da Saúde do governo Bolsonaro, Marcelo Queiroga, anunciou, em abril de 2022, o fim do estado de “emergência sanitária nacional” por causa da covid-19. Desde então, o País passou por duas ondas com aumento de casos da doença, uma entre junho e julho de 2022 e outra em novembro e dezembro de 2022. Ao longo dessas duas ondas foram registrados, além do aumento de casos, a elevação das taxas de internações e demanda de serviços da saúde.

Os medicamentos que podem reduzir os riscos de agravamento da fase aguda da infecção não são acessíveis no Brasil, ou na maioria de países em desenvolvimento. Mesmo sendo acessíveis, estes tratamentos, como a utilização do fármaco Paxlovid, não podem ser ministrados em muitos idosos que contraem covid-19 e apresentam problemas de saúde, como doença renal grave, ou tomam medicamentos que interferem com outros usados no tratamento da doença. Assim, carecemos de remédios que possam proteger os mais vulneráveis. Também necessitamos de melhores dados científicos sobre reinfecções pelo sars-cov-2, sobre a covid longa. Não temos dados sobre quantas pessoas sofrem de covid longa e não há um sistema universal confiável de notificação de casos que nos permita documentar a frequência de contágio dos indivíduos ao longo do tempo.

Há muitos motivos para indivíduos, sociedades e governos apoiarem medidas para manter os riscos de covid-19, incluindo suas sequelas e complicações, em níveis baixos e controláveis. Para reduzir os óbitos, as sequelas graves e a própria doença, necessitamos de políticas coordenadas intersetoriais e de multinível para o enfrentamento da pandemia em cada país, de forma complementar às medidas de coordenação global. Precisamos produzir e distribuir vacinas eficazes, medicamentos antivirais, testes de diagnóstico e uma melhor compreensão de como deter um vírus transmitido pelo ar, por meio do uso de máscara, distanciamento e ventilação e filtragem do ar. Isso permitirá que possamos nos encontrar com as pessoas, socializar e não ficar doentes; protegendo nossa saúde a longo prazo. Imunossuprimidos e vulneráveis poderão viver suas vidas com qualidade e seguir contribuindo para melhorar a recuperação da economia no curto e no médio prazo.

(As opiniões expressas pelos articulistas do Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo)


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