Na USP em Bauru, lideranças mundiais discutem protocolos para tratamento da fissura labiopalatina

Promovido pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP, o congresso internacional “Total Cleft Care” propiciou uma revisão do gerenciamento multidisciplinar da malformação

 01/12/2023 - Publicado há 3 meses
Uma das mesas de discussão do congresso realizado na USP em Bauru – Foto: Claudio Florenzano/HRAC

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Por Tiago Rodella*

Os atletas se preparam técnica, física e psicologicamente para obterem resultados cada vez melhores. Nos esportes de alta performance, a diferença entre vencer ou perder, com frequência, fica na casa de centésimos de segundo, ou de milímetros, dependendo do tipo de competição. No tratamento multidisciplinar das fissuras labiopalatinas, milímetros também são cruciais para determinar o prognóstico de um paciente. Na correção de um recuo de 10 milímetros do maxilar superior, por exemplo, um avanço de três milímetros obtido com a ortodontia pode otimizar o procedimento cirúrgico posterior, no qual o cirurgião terá de obter um avanço de sete e não mais de dez milímetros, reduzindo tempo de cirurgia e risco de infecção, favorecendo a segurança do paciente e propiciando melhores resultados.

Com o objetivo de abordar e revisar todos os procedimentos fundamentais realizados na reconstrução do lábio e do palato, líderes mundiais no tratamento e pesquisa das fissuras labiopalatinas se reuniram na USP em Bauru para o congresso Total Cleft Care – From birth to adulthood (Cuidado Total em Fissura – Do nascimento à idade adulta), realizado nos dias 20 e 21 de novembro pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho), centro de liderança e excelência na área, com apoio da Smile Train, maior organização filantrópica do mundo dedicada a esta malformação.

Durante dois dias, renomados especialistas da Austrália, Brasil, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Itália e Paquistão apresentaram, compararam e analisaram os protocolos e as técnicas mais modernas utilizadas, contemplando desde os aspectos preventivos, principais cirurgias e indicações, até a completa reabilitação. O evento contou com mais de 300 participantes oriundos de 12 países, um público altamente qualificado formado principalmente por experientes cirurgiões plásticos, craniofaciais e bucomaxilofaciais, ortodontistas e fonoaudiólogos, e também por profissionais de outras especialidades da saúde, além de pesquisadores, estudantes de pós-graduação e residentes.

45 minutos que transformam uma vida

Um dentre vários momentos marcantes do congresso foi a participação de Ghulam Fayyaz, cirurgião plástico do Clapp Hospital Lahore e fundador da Associação de Fissura Labiopalatina do Paquistão.

Em uma de suas palestras, o médico abordou as complicações pós-cirurgia primária do palato e destacou como 45 minutos – tempo médio de duração desse procedimento para um profissional com expertise – representam um divisor de águas na vida do paciente.

“Quando essa cirurgia é feita com êxito, por um cirurgião experiente – que utilize a técnica cirúrgica adequada, que feche a fissura não só do ponto de vista anatômico, mas que reposicione a musculatura do palato e o alongue o máximo possível, com mobilidade suficiente para esse palato interagir com as paredes da faringe -, a criança terá a oportunidade de desenvolver um mecanismo velofaríngeo capaz de separar a boca e o nariz durante a fala e ter um desenvolvimento normal da fala”, explica a professora Maria Inês Pegoraro-Krook, docente do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP e do Programa de Pós-Graduação em Ciências de Reabilitação do HRAC.

“Agora, se todos esses fatores não forem levados em consideração durante os 45 minutos de cirurgia, a chance desse paciente desenvolver uma fístula oronasal e disfunção velofaríngea pode se tornar grande, e depois a equipe multidisciplinar trabalhará por anos para corrigir complicações como a hipernasalidade da fala”, pondera Krook, que também refletiu sobre a importância desses 45 minutos em sua palestra.

Ghulam Fayyaz, cirurgião plástico do Clapp Hospital Lahore e fundador da Associação de Fissura Labiopalatina do Paquistão; Maria Inês Pegoraro-Krook, docente da FOB e do Programa de Pós-Graduação do HRAC; e Juan Pablo Gómez, professor de Biomecânica Ortodôntica e Anomalias Craniofaciais da Universidad Autónoma de Manizales, na Colômbia, e membro do Conselho Consultivo de Pesquisa e Inovação global da Smile Train – Fotos: Claudio Florenzano/HRAC

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Em outro momento que chamou a atenção do público, Juan Pablo Gómez, professor de Biomecânica Ortodôntica e Anomalias Craniofaciais da Universidad Autónoma de Manizales, na Colômbia, e membro do Conselho Consultivo de Pesquisa e Inovação Global da Smile Train, iniciou sua palestra afirmando: “Para mim, como ortodontista, estar no Centrinho é como para uma criança ou adolescente estar na Disneylândia”.

Envolvido em pesquisas e experimentação laboratorial com polímeros para melhorar a compreensão da biomecânica da movimentação dentária baseada em alinhadores, o professor Juan Pablo implementou, em 2020, com o apoio da Smile Train, a Care 3D, uma iniciativa dedicada a explorar estratégias inovadoras utilizando tecnologias digitais para melhorar os resultados clínicos e reduzir as barreiras de acesso a tratamentos para anomalias craniofaciais.

Adulto feliz e funcional

Na abertura do Total Cleft Care, o professor Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do HRAC e vice-diretor da FOB-USP, ressaltou que “é um orgulho para o HRAC receber autoridades de diferentes países do mundo, incluindo o Brasil, que se dedicam ao cuidado de pacientes com fissura labiopalatina com base em evidências científicas, e que se dispuseram a debater as práticas atuais, lacunas e desafios que ainda precisam de atenção da comunidade acadêmico-científica a fim de que o melhor tratamento possa ser dado aos pacientes clinicamente”.

Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do HRAC e vice-diretor da FOB; e Nivaldo Alonso, docente da Disciplina de Cirurgia Plástica da FMUSP, chefe da Seção de Cirurgia Craniofacial do HRAC e presidente do congresso – Fotos: Claudio Florenzano/HRAC

Para o dirigente, o evento representou também uma oportunidade ímpar de contato entre cientistas renomados para que projetos de pesquisa em colaboração possam ser realizados para sanar dúvidas e gargalos apresentados e discutidos durante o evento. “Finalmente, como Centro de Liderança em Fissuras, o apoio incondicional da Smile Train foi fundamental para que o evento ocorresse de forma impecável e muito produtiva e agradecemos a todos os representantes desta organização filantrópica pela parceria acadêmico-científica, que tem tudo para ficar cada vez mais fortalecida”, salientou.

O presidente do congresso, Nivaldo Alonso, chefe técnico da Seção de Cirurgia Craniofacial do HRAC e docente da Disciplina de Cirurgia Plástica da Faculdade de Medicina (FM) da USP, da capital, afirmou que “é muito comum em simpósios de fissura labiopalatina você ter o cirurgião em uma sala, o ortodontista em outra, e o fonoaudiólogo em outra, mas os conhecimentos são sempre interdisciplinares. Sem dúvida, a principal qualidade desse congresso foi conseguir colocar no mesmo anfiteatro, no mesmo momento e também nas mesmas mesas profissionais de excelência de áreas distintas que atuam no tratamento da fissura labiopalatina”.

“Propiciar a discussão entre o cirurgião, o ortodontista, o fonoaudiólogo, dentre outros profissionais, mostrando suas dificuldades com relação a situações que são vistas com alguma frequência na prática clínica. Possibilitar essa troca de conhecimentos entre as várias áreas de atuação essenciais no tratamento para tentar obter o melhor resultado para o paciente. Todos esses profissionais juntos é que vão trazer um tratamento de excelência, enquanto isoladamente nenhum deles conseguirá oferecer um resultado de destaque para esses pacientes. Foi um aprendizado muito interessante, mesmo para aqueles profissionais mais experientes”, avaliou Alonso.

Rafael Custódio, diretor regional da Smile Train para a América Latina, e Larry Hollier, cirurgião plástico, docente da Baylor College of Medicine e cirurgião-chefe do Texas Children’s Hospital, de Houston, nos Estados Unidos, além de presidente do Conselho Médico Consultivo global da Smile Train – Fotos: Claudio Florenzano/HRAC

Docente da Baylor College of Medicine e cirurgião-chefe do Texas Children’s Hospital, de Houston, nos Estados Unidos, além de presidente do Conselho Médico Consultivo global da Smile Train, o cirurgião plástico Larry Hollier discorreu sobre a proposta e legado do congresso. “Nós da Smile Train entendemos que é preciso tratar a criança de forma holística, completa. Muitos acreditam que tratar a fissura labiopalatina se resume à cirurgia, mas existem muito mais etapas envolvidas. Temos que ter certeza de que a criança é acompanhada por um médico desde o nascimento, pois existe uma grande dificuldade para elas se alimentarem. A cirurgia é necessária, com certeza, mas também é preciso um tratamento dentário e tratamentos para problemas de fala que a criança terá. É um tratamento muito complexo, então é preciso reunir todos esses profissionais e terapeutas para tratar de forma conjunta esse paciente. O que gostaríamos de deixar para os participantes deste congresso é um melhor entendimento do que está envolvido em transformar aquela criança com fissura em um adulto feliz e funcional”, pontuou.

“Também gostaria de destacar o quanto nós da Smile Train estamos felizes com o volume de participação que tivemos neste evento. O Centrinho, aqui em Bauru, é um dos nossos parceiros mais valiosos no mundo. Acreditamos que este é um dos melhores lugares do mundo para uma criança receber seu tratamento de fissura. Nós também o vemos como um centro de ensino e educação. Como parte da Universidade, o Centrinho tem feito um excelente trabalho neste sentido. Esta conferência é um testemunho do quanto a instituição tem sido boa em ensinar jovens a arte da medicina e odontologia”, completou Hollier.

Já Rafael Custódio, diretor regional da Smile Train para a América Latina, enfatizou que “é uma satisfação apoiarmos mais um grande evento do Centrinho, que, como sabem, é um dos nossos Centros de Liderança, e que tem sido há anos capaz não só de produzir conhecimento com os mais altos padrões de qualidade na área da fissura labiopalatina, como capaz também de exportar esse conhecimento para os demais países em que atuamos”.

“Posso dizer que o Centrinho é um exemplo para todos nós da capacidade que o Brasil e a América Latina possuem em produzir conhecimento de excelência na área da fissura, e também de, dia após dia, mudar a vida dos nossos pacientes, um sorriso de cada vez. Estamos muito satisfeitos aonde chegamos com vocês e estamos ainda mais animados com o futuro que essa parceria ainda vai gerar”, assinalou Custódio.

Organização

Além do professor Nivaldo Alonso, presidente, a Comissão Organizadora do Total Cleft Care teve como vice-presidente Cristiano Tonello, diretor do Departamento Hospitalar do HRAC e professor do Curso de Medicina da FOB, e como diretores científicos: Cleide Felício de Carvalho Carrara, odontopediatra e superintendente substituta do HRAC; Daniela Gamba Garib Carreira, professora de Ortodontia da FOB e presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação do HRAC; Melissa Zattoni Antoneli, chefe técnica da Seção de Fonoaudiologia e tutora de Residência Multiprofissional do HRAC; Renato Yassutaka Faria Yaedú, cirurgião bucomaxilofacial, docente da FOB e presidente da Comissão de Cultura e Extensão Universitária do HRAC; e Roberta Martinelli Carvalho, chefe técnica da Seção de Cirurgia Bucomaxilofacial e preceptora de Residência Multiprofissional do HRAC.

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*Da Assessoria de Imprensa do HRAC

 


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