Gerontólogo ajuda famílias a administrarem o envelhecimento

Eles trabalham em conjunto com famílias, instituições e empresas para detectar as necessidades dos idosos

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“Nazareth é muito sorridente e brincalhona”, diz a cuidadora Tânia (sentada) durante acompanhamento da gerontóloga Jullyane – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Entender mudanças do corpo humano, avaliar condições psicológicas e sociológicas, conhecer direitos humanos, perceber o impacto que a arquitetura de um ambiente causa no indivíduo. Essas são algumas das atividades exercidas pelos profissionais de gerontologia, que atuam como “administradores” do envelhecimento.

Eles trabalham em conjunto com famílias, instituições, empresas e órgãos públicos para detectar as necessidades dos idosos e oferecer melhor qualidade de vida. Em 2005, a USP foi a primeira universidade do País a oferecer um curso de graduação na área. Antes, a gerontologia só existia em nível de pós-graduação.

O curso é realizado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, em São Paulo. A carreira traz uma visão ampla do processo de envelhecimento, incluindo perspectivas biológicas, psicológicas e sociais. Por isso, o curso não se encaixa em nenhuma área específica do conhecimento (exatas, humanas ou biológicas), sendo responsável pela formação de profissionais generalistas.

O bacharel em Gerontologia, identificado como gerontólogo, será preparado para realizar a gestão da atenção ao envelhecimento e à velhice em diversas áreas de atuação. Para apresentar um pouco dessas opções, o Jornal da USP entrevistou quatro gerontólogos.

Geronto o quê?

Eva Bettine, presidente da Associação Brasileira de Gerontologia e formada na USP, conta que já ouviu essa pergunta algumas vezes. “Costumam achar que gerontólogo é dentista ou médico, além de confundirem com geriatria.”

Mas existe diferença, os geriatras são os médicos especializados na saúde do idoso, já o gerontólogo é formado para gerir a atenção ao envelhecimento e estudar aspectos biológicos, psicológicos e sociais da velhice.

Eva trabalhava com tecnologia da informação (TI) quando decidiu, por volta dos 50 anos, que começaria uma nova carreira. Assistindo à televisão, viu uma reportagem sobre os novos cursos da USP e se interessou por Gerontologia. “Acredito que a área tem o papel social de atender à demanda da população idosa, que antes não tinha muita qualidade de vida. Era como se a morte fosse ludibriada com as inovações médicas, mas não havia um ganho de vida”, conta.
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Eva em abertura de evento da Associação Brasileira de Gerontologia – Foto: Arquivo Pessoal / Eva Bettine

Pesquisa e docência

“Sempre tive claro a necessidade de investir nos estudos para consolidação da Gerontologia como ciência e profissão”, diz Henrique Salmazo, formado na USP e, atualmente, professor do curso de pós-graduação em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília.

Ele ressalta que não são apenas profissionais da saúde que procuram pelo curso, “os interessados pertencem a diversas áreas do saber, incluindo economia, direito, psicologia, serviço social, além de enfermagem, medicina e outros.”

Salmazo fez parte da primeira turma do curso da EACH e decidiu a carreira por uma questão muito afetiva: “Meus avós representam sabedoria, escuta e acolhida. Cuidar deles, para mim, era um privilégio”. Durante a graduação, teve oportunidade de participar da criação da Liga Acadêmica de Gerontologia e da Associação Brasileira de Gerontologia, onde ocupa o cargo de vice-presidente.

Em seu mestrado, realizado na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, teve o desafio de implantar e coordenar a Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) no município de São Paulo. Depois, ajudou na implantação de centros-dia para idosos e nos grupos de trabalho que debatiam a regulamentação do exercício profissional do bacharel em Gerontologia.

“Creio que todos nós somos formadores de opinião para que o envelhecimento seja um processo assistido, orientado e bem cuidado”, afirma Salmazo, que está trabalhando em três projetos científicos na área.

Ele coordena uma pesquisa voltada para a Gerontologia Educacional para desenvolver intervenções ambientais socioeducativas. As atividades envolvem idosos e estudantes de uma escola pública do Distrito Federal. Além disso, auxilia no grupo de pesquisa NeuroCog_Idoso, que tem o intuito de avaliar a eficácia de intervenções cognitivas e físicas sobre as funções cognitivas, físicas e menmônicas de idosos saudáveis.

Salmazo ainda colabora com um projeto de pesquisa interinstitucional envolvendo UCB, Unicamp e Universidade do Passo Fundo para investigar perfis de envelhecimento em idosos longevos da comunidade, em ambulatório e em instituições de longa permanência.

Para Salmazo, fortalecer a gerontologia no País é essencial – Foto: Arquivo Pessoal / Henrique Salmazo

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Empresa de cuidadores e home care

Jullyane Marques fez sua graduação e mestrado na USP. Agora, atua como diretora operacional e cofundadora de uma empresa de cuidadores e home care, a Onix – Gestão de Cuidado ao Idoso. “Tudo o que o familiar não pode fazer, a gente faz. Desde acompanhar a pessoa idosa em passeios até pensar em como melhorar o ambiente domiciliar para aqueles que são mais dependentes”, conta.

Neste cenário, o gerontólogo cumpre papel de gestor que visualiza, ao menos, três pontos de vista: paciente, família e cuidador. “O papel da empresa também pretende evitar a opressão de um desses em relação ao outro. Para isso, a comunicação é um fator primordial”, explica.

Ela destaca que o gerontólogo sugere o encaminhamento do cuidado e supervisiona a situação, enquanto o cuidador cumpre uma tarefa mais operacional. Um grande desafio para ambos, entretanto, pode ser no entendimento da família com relação ao trabalho que estão exercendo.

“Algumas famílias ficam receosas com a presença de um gerontólogo em meio ao ambiente familiar. Não entendem que, para melhorar a qualidade de vida do paciente, temos que entender a situação por completo”, explica Jullyane. Ela lembra ainda que o retorno, tanto da família quanto do cuidador, é indispensável para promover a melhor qualidade de vida para o paciente.
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Jullyane Marques, gerontóloga. Ao fundo, dona Nazareth e a cuidadora Tânia – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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A cuidadora Tânia Maria Menezes de Oliveira acompanha Nazareth há quatro anos. A rotina de 12 horas compreende banhos, refeições e passeios. “Com 95 anos de idade, por conta da velhice natural, ela está precisando cada vez mais de cuidados. Tem dias em que ela está, assim como hoje, um pouco mais sonolenta, mas em outro está conversando bastante.”

Tânia fez um curso de cuidados à saúde do idoso, no qual aprendeu a parte técnica da profissão. A escolha foi feita devido a uma identificação com idosos e de amor ao cuidado com o outro.

Centro de convivência para idosos

Tiago Nascimento Ordonez trabalha como coordenador do Centro de Convivência Municipal da Pessoa Idosa (CCMI) de Diadema. Ele elabora atividades que acontecem no local e pensa em políticas públicas na área. Uma de suas funções preferidas é organizar intervenções que abordam conceitos de intergeracionalidade. “É importante para romper com estereótipos, por exemplo, o de crianças acharem que só existem idosos lentos e doentes. O intuito é relembrá-las de que uma pessoa idosa já foi uma criança antes”, afirma.

Quanto à gestão de políticas públicas para a pessoa idosa, Ordonez acredita que o Brasil está caminhando para isso. Ele fez uma especialização em Estatística e utiliza esse conhecimento para argumentar e realizar os projetos do equipamento público com base em dados reais: “fornece maior credibilidade”.

Ele estudou na segunda turma do curso de Gerontologia da EACH. Enquanto estava na graduação, teve a oportunidade de ajudar na implantação da Universidade Aberta à Terceira Idade da USP, no campus da zona leste de São Paulo, onde estudava. O convite foi feito pela professora Meire Cachioni, coordenadora do projeto. De acordo com ele, é um pouco similar ao trabalho que realiza atualmente, no sentido de desenvolver grupos de encontros com temas que “agregassem para o bem-estar da pessoa idosa, além da Universidade servir como um centro de convivência social.” Ordonez se interessou por Gerontologia exatamente por ser uma profissão que permite o contato humano a partir de um papel de gestor.

Operadora de saúde

Tamiles Mayumi Miyamoto trabalha em uma operadora de saúde com foco em pessoas idosas. Ela é responsável por elaborar um plano de gestão da saúde do idoso. Uma de suas principais ferramentas são os indicadores de especialidade médica. “Faço um trabalho de analista de dados, o intuito é olhar de forma integrada aquilo o que está acontecendo com a pessoa idosa”, conta.

“Um gerontólogo não precisa, necessariamente, ter contato direto com o paciente. Eu cumpro uma função mais estratégica.” Ela ressalta que a formação compreende o entendimento do processo do envelhecimento e isso pode envolver muitos cargos diferentes dentro de uma mesma profissão.

Antes de fazer parte da operadora de saúde, Tamiles trabalhava em um núcleo de convivência do idoso. “Era uma ONG vinculada ao setor público. Nela, eu realizava um papel de gerenciamento de pessoas idosas e por isso tinha bastante contato com elas. Foi algo que trouxe bastante aprendizado, bem como o que faço agora no mundo corporativo”, conta.

Tamiles decidiu fazer Gerontologia na USP por ter uma preocupação com os idosos tanto no quesito psicológico quanto social. “Muito advém da vivência no dia a dia, como em transporte público, shoppings e mercados. É notável que a população idosa está cada vez maior.”

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A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.


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