Diversidade é destaque do Prêmio USP Mães Pesquisadoras

Nesta segunda edição do prêmio, trabalhos sobre ensino de cerâmica decolonial e “contação” de histórias para crianças estão entre os vencedores

 06/07/2023 - Publicado há 8 meses

Da Redação*
Arte: Carolina Borin Garcia

As pesquisadoras Priscila Leonel (esq.) e Stela Nesrine da Escola de Comunicações e Artes da USP no Prêmio USP Mães Pesquisadoras - Fotos: reprodução Youtube PRPI/USP

O Prêmio USP Mães Pesquisadoras selecionou os trabalhos de sete mulheres nas áreas de Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Linguística, Letras e Artes. A premiação, que ocorreu no dia 15 de junho, reconhece o trabalho científico, cultural ou artístico desenvolvido por pesquisadoras que também se dedicam ao cuidado dos filhos biológicos ou adotivos. Dentre as selecionadas, duas são pesquisadoras da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e têm como foco de pesquisa o ensino de cerâmica decolonial e a contação de histórias para crianças negras.

A iniciativa é da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) em parceria com a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), ambas da USP. Ao todo, a segunda edição deste ano contou com 110 inscrições, premiou quatros mães pesquisadoras e concedeu três menções honrosas para pesquisadoras de diferentes unidades da USP, além de uma pós-doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Saiba mais sobre os trabalhos das premiadas:

Ensino decolonial na cerâmica

Além de ser mãe de três meninas, Priscila Leonel é artista visual, docente da Unesp e pós-doutoranda da ECA, no Departamento de Artes Plásticas, com supervisão da professora Sumaya Mattar. Seu projeto de pesquisa para pós-doutoramento trata do ensino de cerâmica nas universidades com base na decolonialidade. A pós-doutoranda conta que passou um tempo com as mulheres Macuxi, indígenas que produzem panelas de barro na comunidade Raposa I, na terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, e explica que a forma como elas ensinam a produzir esse tipo de arte a influenciou.

“É sentar em roda e fazer junto, não é uma pessoa falando sem parar lá na frente e as outras ouvindo enfileiradas. Isso começou a funcionar para mim também. Não é só o conteúdo que eu trago, mas é a forma como a gente constrói conhecimento junto”, diz a pesquisadora sobre suas observações na comunidade.

Priscila Leonel - Foto: reprodução Youtube PRPI/USP

Com a experiência do ensino da disciplina de cerâmica para o curso de graduação em Artes Visuais na Unesp, Priscila notou a existência de preconceitos e fetiches em relação à forma e estética da produção artística. Segundo ela, existe uma preferência por técnicas e formas específicas de peças — que pode ser explicada pela cultura eurocêntrica em que o Brasil foi inserido.

Em trabalhos produzidos como parte de seu projeto de pesquisa, a pós-doutoranda aponta que o meio ceramista em São Paulo possui ligação forte com a queima de alta temperatura e com esmaltes vidrados — modos muito usados na ancestralidade europeia, norte-americana e japonesa, além da predileção pela argila branca, rara no Brasil.

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“Quando a gente pensa nesse ensino decolonial da cerâmica, é ampliar as nossas possibilidades, porque houve um apagamento de uma parte dessas possibilidades e do nosso conhecimento. É resgatar essa outra parte para que a gente tenha acesso a esse conhecimento como um todo, e não só um conhecimento que nos veio pelas vias europeias”, afirma. 

Priscila indica ser necessário que as universidades formem um discurso baseado na decolonialidade. Dessa forma, os professores que estão se formando contribuirão para que os estudantes mudem a maneira como veem a arte. Além disso, a pesquisadora vê como fundamental a inclusão de pessoas negras no corpo docente e discente. A pós-doutoranda diz já ter notado que apenas o fato de ser uma professora negra na universidade já impactava os estudantes. Ela observou ainda o interesse e a busca de alunos e alunas em conhecer a arte ancestral negra, o que a encorajou a desenvolver sua pesquisa.

A produção de panelas de barro é uma tradição para as mulheres Macuxi de Roraima. A prática é uma herança cultural da comunidade Macuxi que perdura desde 1870 - Imagem: Conjunto de panelas de barro macuxi, 2018, cerâmica Roraima – Lidia Raposo – Índia Macuxi / Acervo Digital Unesp

Mãe, pesquisadora e o equilíbrio entre as duas funções

Priscila explica que ser mãe e pesquisadora é difícil. É preciso equilibrar os dois lados para que uma função não se sobreponha à outra. Ela conta que o tempo que dedica à vida acadêmica é fora do horário comercial. Dentro de sua rotina, ela consegue ler e escrever enquanto suas filhas dormem, nas noites e madrugadas.

A preocupação em como se equilibrar entre a pesquisa e as filhas, no entanto, ainda é presente. “Muitas vezes eu me pegava nesse lugar que eu não posso estar aqui escrevendo coisas incríveis sobre uma educação transformadora e não estar ajudando a minha filha a fazer uma continha de mais”, lembra.

Apesar disso, além de contar com seu parceiro na divisão de tarefas, a pós-doutoranda diz que seu trabalho como docente a possibilita ter horários flexíveis, o que contribui para que ela tenha um maior tempo de convivência com suas filhas. Para a docente, ser premiada no USP Mães Pesquisadoras reafirma a ideia de que não adianta ser só pesquisadora ou só ser mãe: as duas vivências contribuem uma com a outra. Enquanto ser mãe e estar inserida no desenvolvimento das filhas enriquece sua pesquisa, ser pesquisadora aumenta o conhecimento que pode levar para a criação delas.

Cerimônia de premiação do Prêmio USP Mães Pesquisadoras / Canal PRPI-USP no Youtube

Para ninar crianças pretas e acordar pessoas brancas

Em trabalhos produzidos como parte de seu projeto de pesquisa, a pós-doutoranda aponta que o meio ceramista em São Paulo possui ligação forte com a queima de alta temperatura e com esmaltes vidrados — modos muito usados na ancestralidade europeia, norte-americana e japonesa, além da predileção pela argila branca, rara no Brasil.

“Quando a gente pensa nesse ensino decolonial da cerâmica, é ampliar as nossas possibilidades, porque houve um apagamento de uma parte dessas possibilidades e do nosso conhecimento. É resgatar essa outra parte para que a gente tenha acesso a esse conhecimento como um todo, e não só um conhecimento que nos veio pelas vias europeias”, afirma. 

Stela Nesrine - Foto: Arquivo Pessoal

Stela Nesrine - Foto: reprodução Youtube PRPI/USP

Stela Nesrine é mãe do Caetano, de seis anos, graduanda no curso de Educomunicação na ECA, musicista, artista e podcaster. Além de ser cofundadora da Funmilayo Afrobeat Orquestra, banda brasileira de afrobeat formada somente por mulheres e pessoas não binárias negras, ela é uma das produtoras do podcast Calunguinha.

A graduanda é filha de Gracileide Medrado da Silva, mulher negra que criou sozinha seus quatro filhos. A artista conta que sua mãe foi responsável por trazer imaginação e encanto para a sua infância e a dos seus irmãos, o que fez dela sua primeira grande inspiração intelectual.

Com base em conceitos de Kiusam de Oliveira sobre pedagogia da ancestralidade, Stela atualmente investiga “como a mídia sonora pode ser uma ferramenta de estímulo e imaginação de construção de novos imaginários, principalmente através do texto ficcional”, nos resultados dessa produção [Calunguinha].

“As nossas produções antirracistas e as nossas produções visando o bem viver e uma luta contra os preconceitos precisam estar também nas mídias, em diversas linguagens”, acredita Stela Nesrine.

A pesquisadora explica que Calunguinha, o Contador de Histórias tem como objetivo entender que formas de representação são possíveis criar através do áudio, e como a mídia sonora pode ter um impacto construtivo para as crianças, além de buscar entender as necessidades de representatividade da população negra.


*Com informações de Rosiane Lopes, do LAC – Laboratório Agência de Comunicação


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