Professor da Escola de Aplicação da USP ganha o “Oscar” da HQ

Marcelo D’Salete conquistou o Eisner Awards, o mais importante prêmio de histórias em quadrinhos do mundo

Por - Editorias: Cultura
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Estatueta do Prêmio Eisner de Melhor Edição Americana de Material Estrangeiro, recebida por Marcelo D’Salete – Foto: Reprodução / Site de Marcelo D’Salete

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No dia 20 de julho, o quadrinista e professor da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação (FE) da USP Marcelo D’Salete recebeu o mais importante prêmio de histórias em quadrinhos do mundo, o Eisner Awards.

Com 176 páginas, seu trabalho Cumbe – publicado originalmente em 2014 pela Editora Veneta – foi premiado na categoria de Melhor Edição Americana de Material Estrangeiro durante a Comic Con, convenção que reúne profissionais e amantes dos quadrinhos, ocorrida na cidade de San Diego, nos Estados Unidos, entre 19 e 22 de julho passado. Nos Estados Unidos, a obra foi publicada em 2017, com o nome Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom, pela Editora Fantagraphics 

Já publicado em seis países, Cumbe engloba quatro contos. Cada um deles possui personagens que enfrentam as mais variadas situações dentro do contexto colonial e escravista. É nessas situações que tais protagonistas buscam uma “maior autonomia diante do sistema escravista”.

Essa busca por autonomia, diz, “acontece através de uma resistência que se dá no cotidiano, no dia a dia, de uma forma individual e às vezes mais coletiva”, como aconteciam nos mocambos, quilombos e nas insurreições urbanas protagonizadas pelos escravos no Brasil.

Marcelo D’Salete, quadrinista, ilustrador e professor da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP – Foto: Arquivo pessoal

Como explica D’Salete, a ideia da obra “era falar do Brasil colonial do século 17 a partir de uma perspectiva negra e periférica”. Para tanto, “foi necessário compreender mais do período colonial do Brasil: da questão da escravidão e dos traços culturais de povos com origens em antigos reinos, do modo como essas pessoas vieram para cá, o que elas trouxeram em termos de valores, de traços da sua própria cultura e como criaram os contornos de uma experiência africana no Brasil”.     

O processo de produção “foi longo”, conta D’Salete. Ele informa que as pesquisas que culminaram na obra vencedora do Eisner começaram em 2004, em um curso realizado no Núcleo de Consciência Negra da USP. Dois anos depois´, em 2006, começou a escrever os primeiros roteiros dos contos.

Inicialmente, as pesquisas estavam direcionadas a outra publicação, o livro Angola Janga, que aborda os diversos mocambos que formavam Palmares, “o maior mocambo de nossa história”.

Porém, ele percebeu que a pesquisa e a criação dos roteiros poderiam germinar outra obra, pois algumas histórias não estavam diretamente relacionadas ao conflito de Palmares, mas falavam muito do período colonial e escravista. “Dentro de uma perspectiva histórica e social, relatar casos específicos envolvendo essas experiências de diásporas e de escravizados no Brasil colonial me interessaram bastante e acabaram constituindo o livro Cumbe”.

A palavra cumbe vem do kimbundu, língua falada no noroeste de Angola e proveniente de grupos etnolinguísticos conhecidos como bantus, localizados principalmente na região subsaariana da África. Segundo D’Salete, ela significa luz, força, fogo e, em alguns países da América Latina, também é sinônimo de mocambo.

Capa de Cumbe, história em quadrinhos lançada em 2014 por Marcelo D’Salete: obra versa sobre o Brasil colonial do século 17 a partir da perspectiva dos escravos negros – Foto: Divulgação

O prêmio

D’Salete considera que o reconhecimento recebido através do Eisner Awards “chama a atenção para uma obra que fala do Brasil de modo bem específico” e destaca uma cena de quadrinhos brasileiros “muito madura, muito interessante e que vale a pena conhecer”.

Ele cita uma geração de quadrinistas que publicam no Brasil e no exterior, como Marcello Quintanilha, André Diniz, André Toral e André Aguiar, bem como aqueles mais conhecidos, como Laerte, Rafael Coutinho e diversos outros, que criam histórias ricas “em termos de linguagem, de potencialidade dos quadrinhos e em termos de pensar nossa história e nossa sociedade atual”.

Páginas de Cumbe, história em quadrinhos produzida por Marcelo D'Salete - Fotos: Divulgação
Páginas de Cumbe, história em quadrinhos produzida por Marcelo D'Salete - Fotos: Divulgação
Páginas de Cumbe, história em quadrinhos produzida por Marcelo D'Salete - Fotos: Divulgação
Páginas de Cumbe, história em quadrinhos produzida por Marcelo D'Salete - Fotos: Divulgação
Páginas de Cumbe, história em quadrinhos produzida por Marcelo D'Salete - Fotos: Divulgação

Quadrinhos e educação

Graduado em Artes Plásticas e com mestrado em História da Arte, D’Salete afirma que utiliza os quadrinhos na disciplina de Artes Visuais, ministrada por ele na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP – instituição que oferece ensino fundamental e ensino médio para filhos de servidores da Universidade e demais interessados. Nela, ele traz aos alunos produções nacionais e estrangeiras com diversas temáticas.

A partir da leitura dos quadrinhos, os estudantes “trocam informações sobre os autores que leram e depois conversam sobre a técnica e a mídia das histórias em quadrinhos, tentando compreender como elas funcionam, falam sobre suas especificidades e sobre o que é necessário para a criação de uma história”. E, em certo momento, “eles mesmos criam suas próprias histórias”.

Segundo ele, os temas das produções dos estudantes variam. “Às vezes, falamos sobre problemas e questões atuais, como a discriminação de raça e de gênero. E, às vezes, eles falam sobre suas experiências como estudantes, de seu cotidiano.”

Para o professor, os quadrinhos apresentam “a possibilidade de leitura e compreensão de uma questão, de um problema ou de uma experiência que às vezes passa pela ficção” e, de certo modo, tais entendimentos não se dão apenas pelo texto teórico, mas também pela utilização de imagens.

“Vivemos em um mundo saturado de imagens, mas muitas vezes as leituras dessas imagens são superficiais”, acrescenta o professor. “Acho muito importante conseguirmos fazer tais leituras de forma mais aprofundada. A escola e a sala de aula são espaços para fazermos esse tipo de discussão.”  

Para conhecer mais sobre Cumbe e outras obras de Marcelo D’Salete, acesse o site www.dsalete.art.br
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