Livro reconstitui os primórdios da psicologia no Brasil colonial

Obra lançada pela Editora da USP mostra como religiosos e intelectuais usaram tratados, cartas e sermões para pensar a dimensão psicológica do ser humano

 20/07/2023 - Publicado há 12 meses     Atualizado: 25/07/2023 as 16:54

Texto: Luiz Prado
Arte: Carolina Borin Garcia (estagiária)*

A partir de tratados filosóficos, cartas e sermões de missionários jesuítas, novelas de peregrinação, obras sobre educação e narrativas autobiográficas, Marina Massimi constrói um mapa das reflexões sobre os aspectos psicológicos do ser humano feitas séculos antes do surgimento da psicologia como um saber institucionalizado. Pintura Primeira Missa, de Victor Meirelles - Imagem: Domínio público

História dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira conta a trajetória dos primórdios da psicologia em solo nacional, antes mesmo que o próprio campo da psicologia passasse a existir como o conhecemos. Obra de Marina Massimi, professora sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o livro cobre três séculos da história brasileira, compondo um itinerário do que se pensou e escreveu a respeito da dimensão psicológica do ser humano durante o período colonial.

No prefácio do volume, a professora Regina Helena de Freitas Campos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que Marina desafia o entendimento de que só é possível falar de psicologia a partir do surgimento dos primeiros laboratórios e pesquisas orientadas pelo método científico, no final do século 19. O livro se contrapõe a essa ideia e procura investigar as matrizes de pensamento que constituíram a experiência dos habitantes do Brasil colonial entre os séculos 16 e 18, organizando seus saberes, recomendações e práticas sobre a vida psíquica.

As fontes escritas constituem o material mobilizado pela autora para a pesquisa e, por isso, o livro acaba privilegiando a produção feita por europeus emigrados ou brasileiros de origem europeia. Menos uma opção do que uma imposição dos documentos disponíveis, segundo a professora, já que a oralidade da cultura indígena e a negação do acesso à escrita para as populações africanas escravizadas impediram o registro de seus saberes.

Denso de informação mas de leitura fluida, o volume se constrói a partir de pesquisas realizadas no Brasil e na Europa. Foram consultados arquivos de ordens religiosas como as irmandades das cidades históricas de Minas Gerais, como Mariana, Ouro Preto, São João del-Rei e Sabará, da Biblioteca Apostólica Vaticana, na Itália, e da Biblioteca do Colégio das Artes da Companhia de Jesus, em Portugal. Documentos localizados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, no Arquivo da Cúria Geral da Companhia de Jesus, em Roma, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, em São Paulo, também foram consultados.

Marina Massimi - Foto: Arquivo Pessoal

A professora Marina Massimi, autora do livro - Foto: Arquivo pessoal

Tratados e missivas

Como os arquivos citados já indicam, boa parte do livro se concentra nas reflexões produzidas e veiculadas pelos missionários da Companhia de Jesus, a principal fonte de intelectualidade no Brasil colonial por séculos. Aportando nas praias sulamericanas em 1549, os religiosos trouxeram em suas malas os primeiros documentos contendo os saberes psicológicos que seriam transmitidos na Terra de Santa Cruz. Estes eram tratados recém-impressos produzidos no Colégio das Artes de Coimbra e compostos para serem manuais didáticos para o curso de filosofia. Ficaram conhecidos como conimbricenses, nome derivado da localidade no qual foram escritos, Coimbra, cujo nome romano era Conimbrica.

Conforme explica Marina, as questões relacionadas aos estudos psicológicos aparecem nos tratados atribuídos ao padre Manuel de Góis (1543-1597), comentários que retomam princípios da psicologia de Aristóteles sob a apropriação realizada por Tomás de Aquino no século 13, já no contexto de uma visão cristã. Contudo, o texto de Góis revela também a interpretação dessa doutrina aristotélica-tomista a partir das mudanças culturais produzidas pelo Renascimento nos campos não só da filosofia, mas também da medicina.

“Algumas teses fundamentais referentes à definição aristotélico-tomista da alma humana constituem-se nos alicerces do saber proposto acerca dos fenômenos do psiquismo humano”, escreve a autora. “A alma é definida como ato primeiro substancial do corpo, forma do corpo e princípio da nossa atividade, conforme a doutrina aristotélica clássica. As qualidades da alma são a simplicidade, a espiritualidade, a subsistência, a imortalidade, o ser criatura.”

Nessa perspectiva, a alma possui capacidades que são denominadas potências, o que hoje a psicologia moderna define como funções psíquicas: funções sensoriais, motivacionais e emocionais e intelectuais. Contudo, na concepcão aristotélica, tais potências não se identificam plenamente com os fenômenos, diferença fundamental em relação à ciência psicológica que se formularia a partir do século 19. Outra diferença importante é que a “ciência da alma” dos tratados conimbricenses não entende o dinamismo psíquico como entidade autônoma, mas interligado a outros aspectos da pessoa, como o corpo e o espírito. Para os filósofos jesuítas, corporeidade e psiquismo estão interconectados, uma ideia que percorreria séculos e diferentes tipos de produção textual.

O funcionamento da dinâmica psíquica, explica Marina, se enxerta aí na condição psicofisiológica do corpo, expressa pelo conceito de temperamento. Sendo as diferenças de temperamento explicadas por variações no organismo, ideia com origens na teoria médica grega sistematizada por Hipócrates, o tratamento das incongruências do temperamento correspondia, para os jesuítas, a uma medicina da alma ou medicina do espírito. “Baseada numa analogia entre a alma e o corpo, a medicina da alma pressupõe a existência de ‘enfermidades da alma’, ou seja, admite a especificidade da patologia psicológica, ao mesmo tempo que a dimensão psicológica é tida como intermediária entre a orgânica e a espiritual”, escreve a professora.

A saúde, para esses filósofos de Coimbra, portanto, seria resultado do equilíbrio e cuidado tanto do corpo como da alma, um complexo que se entrelaça para formar o ser pessoal. O psiquismo encontra-se, assim, na interface entre corpo e espírito. E, graças à influência da cultura renascentista, as proposições a respeito da dinâmica das potências psicológicas aparecem orientadas para a esfera do comportamento humano, reunindo psicologia e ética.

“A concepção do funcionamento do dinamismo psíquico se constitui no alicerce de uma antropologia unitária de matriz grega, latina e medieval na qual não há solução de continuidade entre fenômenos corporais e anímicos; na qual os saberes dos filósofos e teólogos e os saberes dos médicos se complementam, expressões de um universo de sentido unitário”, escreve Marina.

É essa bagagem intelectual que serve de alicerce para o segundo conjunto de documentos analisados pela autora, o amplo conjunto de cartas escritas pelos próprios missionários jesuítas. A favor de sua inclusão no universo da pesquisa, Marina recorda que, nos séculos 16 e 17, a carta era vista não apenas como um meio de comunicação, mas também como um gênero literário aparentado da autobiografia. Dessa forma, entre registros de experiências vividas e a transmissão de teorias e ideais, as missivas aparecem como portadoras dos saberes psicológicos que estruturam as vivências de seus autores.

Inácio de Loyola e São Francisco Xavier - Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

A professora se detém sobre dois tipos de cartas. O primeiro deles corresponde às litterae indipetae, cartas escritas por jovens jesuítas solicitando seu envio para missão no Brasil. Exigência introduzida na Companhia de Jesus no final do século 16, a indipetae constitui um grupo volumoso de escritos, contando quase 16 mil cartas recolhidas só no Arquivo Histórico da Cúria Geral da Companhia de Jesus, em Roma. Esse montante considerável se justifica pelo entendimento dessa produção como parte da prática dos Exercícios Espirituais escritos pelo fundador da ordem, Inácio de Loyola, sendo o ato da escrita um exercício interior, parte constitutiva da formação do noviço.

Segundo Marina, esses documentos carregam importantes conteúdos de elaboração pessoal, o que tornam suas narrativas instigantes. “As indipetae, como fonte documental, não podem ser interpretadas de maneira imediata e como expressão espontânea de vivências subjetivas. São documentos marcados pelo trabalho pedagógico de ordenação do homem desenvolvido nos colégios da Companhia, em cujo âmbito a dimensão do psiquismo é atrelada à do corpo e abre-se à do espírito”, escreve a professora. “Nessa perspectiva, a compreensão do desejo e dos demais termos indicadores de movimentos psíquicos usados na petição só é possível pelo entendimento dos conteúdos relatados à luz dos sabores psicológicos da época, especialmente da ‘ciência da alma’ aristotélico-tomista estudada e praticada no âmbito da Companhia de Jesus.”

O outro conjunto analisado corresponde às cartas missionárias escritas por jesuítas enviados à Terra de Santa Cruz a partir de 1549, cujos trabalhos incluíam a catequese dos indígenas e o auxílio aos colonos cristãos. A produção dessas cartas, explica a professora, era um modo de manter o vínculo de pertencimento à Companhia de Jesus através do contato com os superiores e, ao mesmo tempo, garantir a unidade doutrinária e pragmática da ordem.

Páginas iniciais de Carta de Achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha, de 1500 - Imagem: Reprodução/Biblioteca Nacional Luso-Brasileira

Revelando a vivência desses religiosos em seus primeiros tempos na nova terra, as cartas também contribuíam para a construção da identidade psicossocial do jesuíta, como membro da Companhia, em seu novo contexto de vida. Os autores desses escritos observaram e descreveram suas vivências psicológicas em suas próprias experiências, e essas produções revelam que a dimensão afetiva aparece sempre unida ao juízo a respeito do significado e valor das ações.

“O juízo molda os afetos conforme a finalidade última da ação e fundamenta o movimento da vontade. A atitude da deliberação da vontade é evidenciada nos relatos de Anchieta ao descrever o trabalho árduo dos missionários para realizarem sua intenção evangelizadora”, escreve Marina.

Mas essas cartas não revelam apenas as vidas íntimas dos próprios religiosos. Os saberes psicológicos do universo cultural jesuíta também foram utilizados para o entendimento dos indígenas mobilizados para a catequese. Conforme conta a autora, as cartas mostram como os missionários tentaram compreender os povos originários a partir da bagagem que trouxeram de além-mar. “Os jesuítas tentarão compreender os índios tomando como base as categorias culturais disponibilizadas pelo seu mundo de origem, as mesmas aplicadas ao conhecimento de sua própria experiência, cujo emprego diante do outro é pautado na observação de sinais comportamentais.”

Sermões e peregrinações

Se a função terapêutica da palavra está na base do trabalho do psicólogo, Marina identifica nos sermões escritos e preservados no Brasil colonial uma expressão antiga dessa atividade. Segundo a autora, a oratória sagrada foi responsável por veicular os saberes psicológicos e, simultaneamente, atuar no plano da comunicação persuasiva, influenciando o dinamismo psíquico dos ouvintes. O intuito não era apenas a doutrinação, mas a reforma dos costumes nas esferas pessoal, social e política. “Pela força da palavra, foram comunicados às populações brasileiras conceitos, práticas e crenças da tradição clássica, medieval e renascentista ocidental, visando a induzir mudanças de hábitos e da mentalidade de indivíduos e grupos sociais.”

Um elemento importante desse processo é o que Marina identifica como a acomodação das palavras do religioso às circunstâncias do mundo de seus ouvintes. Os sermões, explica a professora, eram uma prática de encontro entre a cultura letrada dos oradores com a cultura popular de seus destinatários, o que proporcionava múltiplos níveis de apropriação dos ouvintes. Dessa forma, o bom orador não deveria mobilizar apenas os conhecimentos que trazia na mala, mas deveria adaptá-los à realidade local.

Tendo como objetivo mudar juízos e atitudes, as palavras do pregador se sustentam em sua capacidade de atingir e mobilizar o dinamismo psíquico de seus ouvintes, dinamismo esse entendido justamente de acordo com as psicologias formuladas por Aristóteles, Santo Agostinho e Tomás de Aquino. Mas a isso se reúne o recurso oratório da acomodação, no qual os argumentos, termos e imagens utilizadas pelo orador devem ser pertinentes ao universo dos destinatários.

Antônio Vieira (1608-1697) atribui ao pregador uma dupla função, conforme sublinha Marina. A primeira faz dele um “médico das almas”, devendo o efeito do sermão não ser o deleite dos ouvintes, mas sua cura. A segunda função, por sua vez, entende o pregador como o médico das chagas, tanto do corpo espiritual quanto do corpos social e político. “A palavra era tida pelos pregadores como instrumento da ‘salvação’, que era concebida como um conceito global de saúde na perspectiva da medicina da alma: saúde do corpo animado e espiritual do indivíduo e saúde do corpo político e social”, escreve a professora.

Essa é a visão de um dinamismo psíquico cujas dimensões funcionam em relação com objetos transcendentes. Nos sermões apresentados na colônia, o psiquismo é concebido como integrado à totalidade do dinamismo pessoal, com a psiquê como intermediária entre corpo e espírito. O funcionamento ideal do dinamismo psíquico depende dessa relação. É assim que o pregador é o médico da alma, sendo esta a dimensão psíquica e espiritual da pessoa, atrelada sempre ao corpo.

Padre Antônio Vieira - Foto: Reprodção/Wikipedia

“Assim, os saberes psicológicos não podem ser compreendidos numa esfera autônoma, como acontecerá com a constituição da psicologia moderna no século 19”, escreve a autora. “No Brasil colonial, a oratória sagrada constitui-se verdadeiro laboratório da eficácia da palavra para cuidar e sanar os desequilíbrios do aparelho psíquico da pessoa.”

Mas, além de tratados, cartas e sermões, outras produções textuais produzidas por brasileiros ou estrangeiros residentes na colônia também revelam os saberes psicológicos difundidos entre os séculos 16 e 18 no Brasil. Elaborados por jesuítas, mas também por leigos, tais escritos oscilam entre os entendimentos advindos da tradição aristotélica-tomista e as novidades do Iluminismo.

Um dos gêneros explorados por Marina é o das novelas de peregrinação, textos nos quais a condição humana é entendida, de acordo com a matriz judaico-cristã, como um peregrinação ao longo do tempo. Tema que até hoje perpassa a cultura brasileira, a peregrinação é investigada a partir de duas obras: História do Predestinado Peregrino e de Seu Irmão Precito (1682), escrita pelo padre jesuíta Alexandre de Gusmão (1629-1724), e o Compêndio Narrativo do Peregrino da América (1728), redigido por Nuno Marques Pereira (1652-1728).

História do Predestinado Peregrino e de Seu Irmão Precito (1682) e Compêndio Narrativo do Peregrino da América (1728) - Imagens: Domínio público

Segundo Marina, o sentido psicológico de peregrinar envolve a exigência de se conceber um norte para a vida. “Um rumo, um sentido, ou seja, a passagem de uma situação de ‘andarilho’ (que não sabe sobre sua origem nem sobre seu destino) para a condição de peregrino, isto é, de uma pessoa consciente de onde partiu e para onde vai.”

Nas duas novelas, a pesquisadora identifica que os objetivos da obra envolvem a orientação do dinamismo pessoal e a cura dos desvios anímicos a partir dos processos de escrita e leitura. Saberes como filosofia, literatura, teologia, espiritualidade e medicina convergem na criação de uma imagem do ser humano como homo viator, modelo que ficará registrado profundamente na cultura brasileira, aparecendo séculos depois nas xilogravuras, na literatura de cordel e na música popular.

Para a autora, a principal contribuição na seara psicológica trazida por essas fontes é a concepção de que, sendo dinâmica, a experiência humana é permeável a transformações. “A consciência de que ‘estrada eu sou’, ou seja, ser em processo de formação constante em busca de um destino último, processo cujo dinamismo é de algum modo inesgotável pelo fato de as metas serem sempre provisórias, perpassa um certo modo de ser brasileiro”, escreve Marina.

O padre Alexandre de Gusmão, que foi fundador e diretor do Colégio do Menino Jesus de Belém, na Bahia, é também autor em outro gênero investigado pela professora, os tratados pedagógicos. É dele o texto Arte de Crear Bem os Filhos na Idade da Puericia (1685), exemplo do empenho da Companhia de Jesus na área pedagógica e de sua visão do ensino como um de seus principais instrumentos missionários. Conforme relata a autora, a convicção na possibilidade do homem “fazer-se a si mesmo” a partir do processo educativo, postura característica do humanismo e do Renascimento, encontrou no Brasil colonial um grande laboratório para experimentações. “Por meio da educação, os religiosos pretendiam atuar na transformação dos nativos, de sua cultura e sociedade, em membros do ‘corpo social cristão’ da colônia.”

Estava em jogo a crença na plasmabilidade do ser humano, as múltiplas possibilidades do que ele poderia escolher ser. Na base do tratado de Gusmão, surgia a ideia de que modificações provocadas nas potências psicológicas nos primeiros anos de vida teriam o efeito de moldar os processos cognitivos dos adultos. Nessa pedagogia humanista, a educação aparece como instrumento de destaque para garantir o cuidado do ser pessoal individual e social, sendo seu pressuposto a ideia de que “todo o bem dos meninos depende de sua boa criação”.

Discursos morais

Mas os autores jesuítas, conforme já apontado, não são os únicos analisados pela professora. Marina dedica um dos capítulos de sua obra a autobiografias e ensaios de autores brasileiros do século 18, cujos escritos se inspiram na tradição dos discursos morais, um gênero próprio surgido no encontro entre filosofia, medicina e teologia moral.

“Essa literatura afirmava que a felicidade, ou o bem-estar ou perfeição do ânimo, coincide com o verdadeiro poder do homem, ou seja, com a capacidade de domínio de si mesmo, da natureza e dos outros seres humanos, mediante ação e convívio social, sendo necessário um percurso educativo para atingir tais objetivos”, explica a autora. “Nessa perspectiva, o gênero de escrita chamado discurso moral busca proporcionar, por meio de seus conselhos, dito percurso educativo e sugerir normas para o bem-estar pessoal e social.”

Dentre os escritores investigados está Matias Aires Ramos da Silva (1705-1763), autor de Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (1752), texto inspirado nos Ensaios, de Montaigne. Conforme explica Marina, o objetivo do livro é oferecer desengano aos leitores e também a si mesmo. Aires afirma que os enganos humanos consistem na valorização das riquezas e prazeres imediatos, em detrimento de valores éticos, morais e das virtudes. No desenrolar da obra, o autor, que nasceu no Brasil mas passou a maior parte da vida em Portugal, questiona aspectos centrais da tradição cultural lusitana.

Segundo a professora, a produção de Aires é indicativa de um novo estado de espírito da sociedade luso-brasileira, caracterizado pelo florescimento do racionalismo, antijesuitismo e o início do pensamento liberal. Antijesuitismo, diga-se, que aparece também na obra da irmã de Aires, Teresa Margarida da Silva e Orta (1712-1793), provável autora de Relação Abreviada da República Jesuítica e outra escritora analisada por Marina, ao lado de Feliciano Joaquim de Sousa Nunes (1730-1808), autor dos Discursos Político-Morais (1758).

Matias Aires Ramos da Silva, o livro Discursos Político-Morais, de Feliciano Joaquim de Sousa Nunes, e Teresa Margarida da Silva e Orta - Imagens: Wikipedia, Biblioteca Nacional Luso-Brasileira e SEED/PR

De acordo com a professora, apesar de contemporâneos, os três autores representam a diversidade de posições intelectuais do período. “Se os saberes psicológicos de Feliciano Joaquim de Sousa Nunes repropõem a concepção aristotélico-tomista não mais como doutrina filosófica, e sim como orientações práticas para o bem viver, Matias Aires e sua irmã Teresa Margarida, por sua vez, refletem o novo espírito iluminista e questionador daquela mesma tradição”, escreve a professora. “Para além dessas diferenças, os três autores, porém, mantiveram proximidades pela escolha de gêneros literários em que a posição autoral e autobiográfica é valorizada como fonte de conhecimento e por uma consciência lúcida de estarem vivenciando um tempo de crise cultural e social profundo.”

Dito isso, a ênfase que o livro de Marina dá para a produção textual de autores de origem europeia, nascidos ou não no Brasil, não significa, conforme já indicado, o esquecimento da contribuição dos outros povos que habitaram o País durante o período colonial. Ao final da obra, a professora faz questão de sublinhar esse ponto, propondo uma analogia entre os saberes psicológicos que circularam pelo Brasil com a tecelagem: se o molde que constituiu os conhecimentos é de matriz europeia, o desenho de seu tear é indígena e as cores do tingimento, africanas.
“Os saberes psicológicos na cultura brasileira, suas histórias e memórias, são ligados à existência de comunidades tradicionais concretas que os geraram. Essas comunidades constituem a face multicolorida da sociedade brasileira”, escreve Marina. “São eles que conservam esse conhecimento e cuidam de sua transmissão através das gerações. Os laços sociais que unem as pessoas que fazem parte dessas comunidades são laços de pertença. E pertencer é o que constitui uma sociedade”, conclui a autora.

Capa do livro História dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira, de Marina Massini, lançado pela Editora da USP (Edusp) - Imagem: Reprodução

História dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira, de Marina Massimi, Editora da USP (Edusp), 504 páginas, R$ 90,00

*Sob supervisão de Moisés Dorado e Simone Gomes de Sá


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