Josely Carvalho vai em busca das cores e formas das sensações

No livro “Diário de Imagens”, a artista escreve suas lembranças compondo obras que instigam memórias e afetos

Por - Editorias: Cultura
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Josely Carvalho na década de 1960 – Foto: Reprodução/Diário de Imagens

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Josely Carvalho tece, em Diário de Imagens, lançamento da Contracapa Editora, a cartografia de sua arte. Um cotidiano que vem desde o início da década de 1960, com uma série de gravuras que presenteia o leitor logo nas primeiras páginas. Em Josely há muitas mulheres, muitas artistas que vão se buscando em técnicas e linguagens diferentes. Ora pinta, ora escreve, ora desenha, fotografa compondo poemas visuais de quem compartilha o sentimento de todos. Uma diversidade para dar forma às sensações. A artista paulistana percorre o tempo em vários países até chegar, quase seis décadas depois, à atual pesquisa e exposição Diário de Cheiros: Teto de Vidro, apresentada recentemente no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP.

“Cidadã do mundo, Josely viveu a infância e a juventude no Brasil; mudou-se para os Estados Unidos, a fim de estudar Arquitetura, tendo cursado a Washington University, em St Louis; lecionou Arquitetura na Universidad Nacional de México (Unam) e retornou aos Estados Unidos, onde vive até hoje, apesar dos períodos cada vez mais longos passados em sua terra natal”, escreve Katia Canton no texto “Uma narrativa da Impermanência”, que integra o livro. Além da análise da crítica, professora e vice-diretora do MAC, Diário de Imagens reúne textos de especialistas que acompanham a trajetória da artista, como Ana Mae Barbosa e Arlindo Machado, professores da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, os curadores Paulo Herkenhoff e Ivo Mesquita, os críticos e historiadores de arte Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos, Julia Herzberg e Lucy Lippard.

 

No que toca à produção visual em sentido estrito, desde as primeiras gravações em pedra e madeira nos anos 1960, e em tela, em 1970, apreende-se um mundo densamente povoado.”

 

A apresentação do livro, assinada por Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos, orienta o leitor aos caminhos e descaminhos da artista desde as suas primeiras gravuras. Em seu processo de criação, Josely Carvalho se dá o direito de se perder. “No que toca à produção visual em sentido estrito, desde as primeiras gravações em pedra e madeira, nos anos 1960, e em tela, em 1970, apreende-se um mundo densamente povoado por pássaros, peixes e, posteriormente, tartarugas, de que a existência, muitas vezes, manifesta-se pelo grito ou, em sentido inverso, por um recolhimento prenhe de metamorfoses intuídas, no qual ninhos e abrigos são também casulos de questões a serem mais uma vez formuladas ou ainda retomadas em sua continuidade não derruída pelo corte original”, explica Vasconcellos. “Nessa ótica, pode-se dizer que às impressões do mundo corresponde, a cada vez, uma transparência ou opacidade de um fazer em camadas, outra maneira de compreender um pegar, fatiar e largar, ou um aproximar-se, fundir-se e afastar-se, perpassado de entrega e autonomia, dedicação e resguardo.”

Em diversas séries e obras, como As Prisões Nossas de Cada Dia O Parto, de 1981, A Espera, de 1982, Contos Femininos do Purgatório, de 1983, entre outras, há Josely em uma densa reflexão sobre a mulher. Uma arte que não se limita à pintura, ao desenho, à gravura. Sentimentos líricos que fluem em poemas.

Cheiro de peixe, revela o pássaro
eu, você, nós todas
mulher que pesca cozinha carpe
nutre luta chora perde sonha vence
você, mulher encarcerada
pelas ataduras do dia a dia.
você, noiva mumificada,
por que você se casa?

“Sua obra se nutre da experiência pessoal e lida com a relação entre o tempo e o espaço, de acordo com uma espiral contínua que assimila imagens, sons, lembranças e cheiros retirados de seu cotidiano e de suas viagens, bem como das histórias de vida de pessoas que tem encontrado por toda parte”, analisa Katia Canton.

 

As instalações de Josely Carvalho revelam imagens que são fragmentos poéticos e participantes, e que me recordam as palavras do poeta Aimé Cesaire.”

 

Entre as pessoas caras com que a artista dialoga está Ana Mae Barbosa, que vem acompanhando toda a sua trajetória. No texto “A arte empática de Josely Carvalho”, a crítica destaca a condição da mulher no mundo da arte e o momento em que conversou com a artista sobre a vinda da exposição Connections Project/Conexus para o MAC, em 1987, que organizou com Sabra Moore, em Nova York. Na época, Ana Mae era diretora do MAC.

“Embora bem-sucedida no exterior, essa exposição de artistas mulheres brasileiras e norte-americanas dialogando sobre temas existenciais universais teve muito pouca aceitação no Brasil, desde o insucesso de conseguir patrocinadores até a pouca divulgação concedida pela imprensa”, conta a crítica. “Quase ninguém parece ter se dado conta de que obras de artistas importantes como Catalina Parra, Ida Appleboog, Faith Ringgod, Liliana Porter, May Stevens e Nancy Spero estiveram no Brasil. ”

Ana Mae ressalta também o processo criativo e sensível de Josely, ressaltando que “é também da empatia com o mundo que a rodeia que ela constrói suas horas, grávidas de metáforas e metonímias”. E observa: “As instalações da artista revelam imagens que são fragmentos poéticos e participantes, e que me recordam as palavras do poeta Aimé Cesaire: ‘Cuidado com meu corpo e minha alma/Cuidado, antes de tudo, ao cruzar seus braços/ E assumir a atitude estéril de um espectador/ Pois a vida não é um espetáculo’” .

O recado do poeta Cesaire é o de Josely Carvalho em Diário de Imagens. Importante lembrar também a poeta brasileira Cora Coralina, muito presente na essência dos escritos da artista, que busca o leitor com todo o cuidado de quem busca a arte: “Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas”.

Diário de Imagens, de Josely Carvalho, apresentação de Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos, Editora Contracapa, Rio de Janeiro – New York, 2018, 256 páginas com imagens coloridas. Preço: RS 110,00.
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Seis décadas de dedicação à arte

Josely Carvalho tem quase seis décadas de trajetória registradas no livro Diário de Imagens. As 256 páginas da obra reúnem gravuras, fotos, instalações e pinturas apresentando o seu trabalho sensível e poético.

Fotografias: Reprodução/Diário de Imagens

  • O livro de Josely Carvalho
  • – Foto: Reprodução
  • Canibal de Fantasias, de 1984, serigrafia e acrílica sobre tela
  • Josely e o direito de buscar a arte entre caminhos e descaminhos
  • O Parto, de 1981, serigrafia e crayon sobre papel
  • Josely Carvalho no início da sua carreira, na década de 60
  • A artista busca a forma das sensações
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