Grupo de leitura convida o público para desvendar Guimarães Rosa

Rodas de leitura de “Grande Sertão: Veredas” acontecem a partir de 13 de março, na Cidade Universitária

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=226455
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O grupo é apelidado de “Devotos do Rosa” devido à sua paixão pelas obras do autor. Na foto estão Rosa, Regina, Maria José, Renata e Daniel – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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A partir do dia 13 de março (quarta-feira), das 18h às 20 horas, ocorre no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP a Oficina de Leitura João Guimarães Rosa. A proposta foi desenvolvida em 2003 pelo professor Dieter Heidemann, vice-diretor do IEB na época, e realizada no local desde então.

Até o final do ano, a roda lerá em voz alta o livro Grande Sertão: Veredas. O objetivo do projeto é desmistificar a prosa de Guimarães, considerada difícil, e também propor uma nova experiência de leitura àqueles que já conhecem o estilo do autor.

Regina Pereira, uma das organizadoras da oficina, conta que o principal intuito “é fazer com que os participantes passem por três fases na leitura: ler, reler e – como dizia Manoel de Barros – transler a obra de Guimarães Rosa”. As reuniões são uma grande troca cultural, tanto que inspiraram a criação de outros grupos em outros Estados, principalmente em Minas Gerais. “Com isso, um pouco do sertão de Minas é transportado para a metrópole e vice-versa. Para ler Guimarães existem várias portas de entrada e poucas de saída. É uma literatura de alta tensão, que não se esgota nunca”, fala Regina.

Apelidado de “Devotos do Rosa”, em razão da sua paixão pelas obras do escritor, o grupo realiza frequentemente viagens ao sertão para que o leitor se situe no contexto das obras. Em julho, representantes da oficina do IEB participarão da Semana Roseana, em Cordisburgo (MG), onde serão oferecidas palestras sobre a vida e o legado de Guimarães Rosa. “Andando por aquelas cidades do interior de Minas, é possível associar os cidadãos com os personagens de Grande Sertão e vários outros livros, por conta do estilo de vida. Esse contato faz com que nós entendamos melhor a visão do autor”, conta Rosa Haruco Tane, principal coordenadora das rodas desde sua primeira edição.

Renata e Maria José relatam suas experiências ao ler Grande Sertão: Veredas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No entanto, não é necessário viajar – mesmo que isso seja muito enriquecedor, segundo os organizadores – para compreender a escrita de Guimarães. As rodas de leitura já oferecem uma experiência muito positiva de troca de ideias, estimulando a criatividade e a capacidade de reflexão dos presentes, não se restringindo a uma análise teórica.

Rosa conta que os encontros provocam uma aproximação afetiva dos livros, não meramente acadêmicas, e que a interação com o grupo é o principal motivo disso. “Quando estamos em grupo e cada um lê em voz alta uma parte do texto, temos contato com a musicalidade da linguagem de Guimarães. Cada um tem um sotaque, cada um dá ênfase em uma palavra ou frase, que às vezes nem chamaria nossa atenção se estivéssemos lendo sozinhos. Quando lemos, aquela não é mais a história de Guimarães Rosa, é a nossa própria história, contada de forma poética pela nossa própria visão e interpretação.”

Todos os interessados podem participar da oficina, que ocorrerá sempre às quartas-feiras deste ano. Os atuais frequentadores do grupo se uniram a ele por diferentes motivos, mas com o objetivo em comum de entender melhor a escrita de Guimarães Rosa.

Renata Ribeiro é estudante de História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ela começou a participar da oficina no ano passado. “Foi um encontro com pessoas incríveis e também comigo mesma. Meu primeiro contato com Guimarães Rosa foi no ensino médio, e me encantei por Grande Sertão: Veredas desde então. Lendo a obra, muitas memórias da minha infância no sertão da Bahia vieram à minha mente, e isso foi muito especial para mim. A roda me fez compreender os vários tipos de sertão, não só aquele no qual eu vi, mas também o de Euclides da Cunha, que estudei na graduação, e esse de Guimarães, universal e onírico.”

Bonecos do personagem principal do livro são os “mascotes” da roda de leitura – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Daniel Krasucki, escritor e integrante argentino da roda de leitura, conta que entrou no grupo por “acidente”. “Estava em busca de um grupo de estudos de Proust, mas não encontrei nada parecido. Então, entrei em contato com a Rosa (coordenadora) e fiquei interessado em ver como era a Oficina de Leitura de Guimarães Rosa. É uma experiência na qual ganhei muito conhecimento sobre a linguagem, os neologismos, a ‘quarta dimensão’ da escrita do autor, além de ter entendido o estilo e os apertos materiais da vida do sertão”, conta ele.

A participante Maria José Souza Silva é graduada em Letras, e sua especialização é a língua inglesa. Quando decidiu participar da oficina, ela conta que ficou “meio perdida”, pois não estava acostumada com a linguagem roseana. “Nos primeiros dias, eu fiquei bem confusa e não entendia muito bem o que estava sendo lido, não somente por uma questão linguística, mas também pelos jeitos diferentes de ler dos colegas de grupo. Com o passar do tempo, fui me acostumando e a vontade de estar presente nos encontros só aumentou. Acho que o importante é insistir em Grande Sertão e não simplesmente abandoná-lo. A roda em si já tem sua importância nisso: ela faz com que você tenha vontade de ler cada vez mais.”

O grupo já está quase na metade do livro, seguindo a leitura iniciada no ano passado. Os encontros são sempre focados em discutir, absorver e refletir sobre o que se lê. Rosa e Regina contam que a primeira oficina deste ano será um teste. “Vamos observar se os participantes já leram o livro ou não e partiremos dessa resposta para organizar os demais debates. Não queremos que ninguém se sinta perdido por estarmos no meio da história. Dependendo dos anseios das pessoas, podemos verificar a possibilidade de começar novamente, mas nosso intuito é avançar a leitura e ir desbravando o sertão roseano até o final”, diz a coordenadora.

Além dos encontros, a Oficina de Leitura João Guimarães Rosa vai realizar outras atividades ao longo do ano. O primeiro grande evento relacionado a isso ocorrerá no IEB, dos dias 14 a 16 de maio, em comemoração ao lançamento da nova edição de Grande Sertão: Veredas pela editora Cia. das Letras. “Teremos palestras sobre o assunto, narrações, rodas de leitura como a que fazemos e visitas ao acervo de Guimarães Rosa do instituto”, revela Rosa, que também está organizando essa celebração.

A programação de outras dinâmicas será lançada aos poucos. Nos anos anteriores, o grupo promoveu o Grande Minhocão: Veredas, uma caminhada pelo Elevado Presidente João Goulart, na qual distribuíram rosas de papel crepom aos transeuntes. Regina Pereira afirma que, quando realizam esse tipo de atividade, ela sempre se lembra da frase roseana: “Dar beleza a quem tem fome de beleza também é um dever cristão”. “Ver o impacto das rosas e das frases que damos junto com elas no rosto das pessoas é algo muito incrível. Isso mostra muito do poder da palavra”, relata a organizadora.

A Oficina de Leitura João Guimarães Rosa ocorre a partir de 13 de março, sempre às quartas-feiras, das 18 às 20 horas, no Auditório 1 do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.
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