A vida das palavras 

Em “História de Um Livro”, a pesquisadora e professora da ECA Marisa Midori dá voz a obra escrita no século 19 e à sua recepção mundo afora  

 Publicado: 13/09/2021
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A Revolução de 1848 na França e François Guizot – Arte de Lívia Magalhães com imagens de Wikipédia

 

Em 1848, a França – mais de meio século depois da Queda da Bastilha e de tudo o que viria depois, com seus ideais de liberdade, fraternidade e igualdade, fim da monarquia e Napoleão Bonaparte – foi varrida por mais uma onda revolucionária. Era a chamada “primavera dos povos”, uma revolta que apeou do poder o rei Luís Felipe e tornou possível a Segunda República, que elegeria nesse mesmo ano Luís Napoleão para a Presidência. Mais tarde, esse presidente daria um golpe – seu 18 de Brumário particular – e se entronaria como Napoelão III, de fato o último monarca francês. Mas essa é outra história. O que interessa aqui são os eventos de 1848, que obrigaram a ir para o exílio na Inglaterra o político, historiador e constitucionalista François Guizot (1787-1874). Na velha e loura Albion, ele – que havia sido primeiro-ministro por um curto tempo, entre setembro de 1847 e fevereiro de 1848 – purgou seu desgosto com os fatos escrevendo um pequeno mas incendiário livro: De la Démocratie en France (A Democracia na França), publicado originalmente em Brompton, na Inglaterra, em janeiro de 1849. Um libelo contra a República e a democracia (pelo menos contra a democracia que atacava a monarquia, tão cara a Guizot), o livro ganhou o mundo e teve sucessivas edições em países como Áustria, Bélgica, Espanha, Portugal e Brasil. Mas o que este trabalho tem de essencial, por que foi tão editado mundo afora e que recepção teve? São essas respostas que a historiadora, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e colunista da Rádio USP Marisa Midori Deacto busca – e encontra – em seu História de Um Livro (Ateliê Editorial). O livro terá lançamento em uma live  neste dia 15, a partir das 20 horas, no canal da Ateliê no Youtube  (https://www.youtube.com/user/atelieeditorial), com a participação dos professores Carlos Guilherme Mota – que assina o prefácio do volume – e Eugênio Bucci.

A professora Marisa Midori – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mas por que justamente Guizot? Qual a razão de resgatar a figura e as ideias de um contrarrevolucionário? “A obra de François Guizot se insere em um conjunto mais amplo de livros esquecidos, senão, pouco lidos seguramente, não reeditados na França atual”, explica Marisa na obra, originalmente sua tese de livre-docência apresentada na ECA. “Todavia, esse grupo formado por historiadores, pensadores, ideólogos e homens de Estado teve uma presença notável na cena política francesa – e, sem dúvida, entre os intelectuais de outras partes do globo conectados com os eventos políticos daquele país – no período de 1789 a 1870.” São nomes como Mignet, o próprio Guizot e Thiers, representantes de uma geração de intelectuais que “grosso modo, apresentam-se como os filhos do Terror e do Consulado”, como afirma Marisa Midori. A esses, explica a autora, podem-se somar os de Alphonse de Lamartine, Jules Michelet e, mais tardiamente, Alexis de Tocqueville. Mas foi sobre o libelo contrarrevolucionário A Democracia na França, de François Guizot, que a pesquisadora se debruçou. E ela tratou de biografar mais do que o autor, o livro que ele escreveu.

“Afinal de contas, a biografia de um livro se revela sob diferentes prismas”, afirma a autora. “Em primeiro lugar, é preciso considerar a estatura intelectual do autor e sua posição de destaque no campo político de seu tempo. Tal perspectiva convida a uma reflexão sobre as múltiplas conjunturas de um livro, desde o momento da escrita até a sua construção no mercado editorial. Ocorre que essas conjunturas extrapolam, no tempo e no espaço, as fronteiras do próprio livro, o que torna o estudo monográfico imagem refletida de uma totalidade muito mais complexa”, escreve ela. “De la Démocratie en France chama a atenção pelo contexto político de seu lançamento, a saber, a revolução de 1848, na fase conservadora. Sua história editorial interessa em virtude das múltiplas conjunturas e geografias em que se inscreve, nesses tempos concentrados e nervosos das revoluções europeias”, esclarece Marisa Midori.

Perspectiva crítica 

Este História de Um Livro foi escrito a partir de um instrumental que Marisa Midori domina bem: a pesquisa exaustiva e acurada, a perspectiva crítica e historiográfica. Ela se ocupou em estudar as edições publicadas em diversos países e qual foi o impacto causado. Um trabalhão, cujo resultado não poderia ser melhor, ainda mais se tratando do tema abordado. Paris e Londres são as primeiras cidades a receber o livro – e não à toa, já que são as principais metrópoles europeias. “Paris e Londres são as duas primeiras cidades a partir das quais a brochura ganha o mundo. E a expressão corrente não tem caráter apenas retórico, pelo contrário, ela deve ser interpretada letra a letra, tal a vocação cosmopolita dessas duas cidades e seu poder de irradiação cultural”, escreve Marisa. “Se em Paris Démocratie se torna objeto de propaganda ideológica, dada a conjuntura particular em que é lançada, não se pode asseverar que a edição inglesa tivesse uma relação direta com as inquietações de sua elite política, pelo menos no que toca às questões internas”, afirma.

François Guizot tinha suas convicções, e isso fica claro na obra que escreveu, urdida e finalizada no calor do momento, quando a poeira da Revolução de 1848 ainda não tinha baixado. Afinal, ele era presbiteriano – e lutava pela reconciliação das igrejas –, monarquista, havia sido ministro da Instrução Pública – sendo o responsável pela criação da Cátedra de Direito Constitucional, em 1834 – e, em seu credo liberal, via a “idolatria democrática” como um risco de desestabilização da ordem burguesa. Não à toa, como lembra Marisa Midori, “meses antes da Revolução de Fevereiro, o ministro Guizot mandara perseguir e expulsar de Paris vários socialistas estrangeiros, dentre eles Karl Marx e sua família”. Guizot era um reacionário avant la lettre? Não necessariamente: ele é fruto de seu tempo, e de todas as incongruências, de todos os embates e dos pensamentos e ações que esse tempo gerou. E também de suas incompreensões.

O livro da professora Marisa Midori, lançado pela Ateliê Editorial – Foto: Divulgação

Entre as percepções do livro de Guizot, aquela no Brasil ganha atenção especial. “Há, inicialmente, um esboço dos aspectos da presença de François Guizot no meio literário brasileiro, a partir de notícias veiculadas em jornais, de citações em livros, cartas, memórias”, conta Marisa, que lembra que o diálogo entre livro e imprensa é essencial nesse contexto, já que o livro de Guizot chegou ao leitor brasileiro, inicialmente, na forma de folhetim, antes de ganhar a forma encadernada.

Todo livro tem uma história a ser contada, lembra a autora. E esse é um caso especial, porque além de ser a história de um livro – como bem destaca seu título –, essa obra também se insere na história do livro, de como uma obra traça seu caminho e é recebida pelos públicos mais diversos – tudo feito com grande expertise. É como escreve a autora: “A história de um livro nos permite ver refletido no espelho, ou através do vidro de uma garrafa, um quadro mais amplo, no qual o tempo da política define o compasso de produção e difusão da brochura – e vice-versa. Ao conduzir essa história do manuscrito ao livro, do autor ao leitor, acreditamos ter levantado algumas questões fortes sobre o fazer editorial. Talvez, quando olhamos a imagem refletida no espelho, o que procuramos, na verdade, é a imagem que se reflete em nossos olhos.”

História de Um Livro – A Democracia na França de François Guizot: 1848-1849, de Marisa Midori Deaecto, Ateliê Editorial, 366 páginas. O livro será lançado nesta quarta-feira, dia 15, às 20 horas, no canal da Ateliê Editorial no Youtube.


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