Crianças atendidas pela Pastoral têm menor déficit de altura e peso, mas apresentam obesidade

À primeira vista contraditório, dado mostra que tanto a desnutrição quanto a obesidade podem ter raízes na desigualdade social e no consumo inadequado

 11/12/2023 - Publicado há 3 meses     Atualizado: 15/12/2023 as 14:46

Texto: Ivanir Ferreira
Arte: Carolina Borin*

Crianças atendidas pela Pastoral da Criança têm menor déficit de altura e peso, mas apresentam obesidade infantil - Imagem: Ilustração de Lívia Serri Francoio via Artigo "Análise da situação Nutricional de crianças de famílias acompanhadas pela Pastoral da Criança"

Pesquisa da USP analisou dados de municípios brasileiros com e sem a ação da Pastoral da Criança e comparou com informações do Sistema de Vigilância Alimentar Nutricional (Sisvan) - Imagem: Ilustração de Lívia Serri Francoio via Artigo "Análise da situação nutricional de crianças de famílias acompanhadas pela Pastoral da Criança"

Mesmo residindo em regiões mais pobres do Brasil, crianças atendidas pela Pastoral da Criança têm menor déficit de altura e peso, mas apresentam obesidade infantil, apontam pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.  A constatação reflete os novos desafios à alimentação adequada que surgiram na sociedade como um todo, especialmente nas classes mais vulneráveis, e foi obtida por meio da comparação de dados da entidade de 4 mil municípios brasileiros com informações do Sistema de Vigilância Alimentar Nutricional (Sisvan), vinculado ao Ministério da Saúde, que monitora todo o Brasil. Os dados são referentes aos anos de 2013 a 2021 e dizem respeito aos primeiros mil dias de vida da criança, período que vai desde a fecundação até o segundo ano (270 dias da gestação + 730 dos dois anos subsequentes).

A entidade social é ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e atua em situações de pobreza por meio de ações de saúde, nutrição, educação e cidadania. Está vinculada à hierarquia da Igreja Católica, tanto nacional quanto internacionalmente.

Em 1983, quando foi fundada pela médica pediatra sanitarista Zilda Arns, a taxa de mortalidade infantil brasileira era de 83 óbitos a cada mil bebês nascidos vivos. Um ano depois do início das ações, o número diminuiu para 28 mortes para cada mil crianças nascidas vivas.

Na época, quando a desnutrição, a fome e a desidratação eram os principais fatores de óbito infantil, ficou famosa a receita de soro caseiro, à base de água potável, sal e açúcar, utilizado contra a desidratação. Hoje, o índice de mortalidade infantil está em torno de 11,2, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pesquisa foi baseada na análise de dados antropométricos (peso e massa corporal das crianças avaliadas ao longo dos primeiros mil dias de vida), do consumo alimentar e de indicadores de renda per capita das regiões atendidas pela Pastoral e pelo Sisvan. “O crescimento da criança é um marcador sensível da condição de saúde nos primeiros mil dias de vida”, explica o coordenador da pesquisa, professor Wolney Lisboa Conde, do Laboratório de Avaliação Nutricional de Populações (Lanpop) da FSP, onde os dados foram analisados.

“A alimentação adequada nessa fase, incluindo o aleitamento materno e interações afetivas com a criança, são essenciais para que o bebê atinja todo o seu potencial de desenvolvimento biológico, intelectual e social, e mais tarde se torne um adulto saudável”, diz o pesquisador. O baixo peso ao nascer, por exemplo, leva a pessoa na vida adulta a sofrer maiores riscos de doenças do coração, colesterol, diabetes, obesidade, hipertensão arterial, problemas no funcionamento dos rins, osteoporose, entre outros problemas.

Wolney Lisboa Conde - Foto: Reprodução/FSP-USP

Déficit de altura e peso

Uma das questões que se queria avaliar era se a instituição estava mesmo atuando em regiões mais vulneráveis. A pesquisa mostrou que sim. Em 2021, a frequência de crianças monitoradas pela Pastoral da Criança nos municípios mais pobres era o dobro daquelas acompanhadas nos municípios mais ricos. Na região Norte, por exemplo, na maioria dos municípios em que havia a presença da Pastoral, o percentual de crianças com baixo peso ou com altura inadequada era menor do que nos municípios atendidos somente pelo Sisvan. Veja mapas abaixo:

Quatro mapas do Brasil mostrando por município o déficit de altura e de peso nas crianças atendidas pela Pastoral e pelo Sisvan - Imagem: Reprodução/Artigo "Análise da situação nutricional de crianças de famílias acompanhadas pela Pastoral da Criança"

Baixo peso ao nascer

A pesquisa constatou também que havia um menor índice de baixo peso entre as crianças acompanhadas pela pastoral. Em 2018, a prevalência de baixo peso ao nascer entre crianças atendidas em municípios com atuação da Pastoral da Criança (7,3%) era inferior à prevalência média no Brasil (8,5%), estimada a partir dos dados do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), apontou a pesquisa.

De acordo com o Sinasc, o baixo peso ao nascer (inferior a 2.500 gramas), em geral, é causado pelo retardo do crescimento intrauterino, condição que representa fator de risco para mortalidade neonatal e infantil.

Obesidade infantil

Sobre os casos de sobrepeso e obesidade infantil, Wolney Conde diz se tratar de um problema complexo e desafiante porque o aumento do índice de obesidade está associado à evolução dos contextos socioeconômicos da população. “Se antes os principais fatores de óbito infantil eram a desnutrição, a fome e a desidratação, hoje, com a redução da mortalidade infantil, começamos a enfrentar o aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade e sua associação com o risco de doenças crônicas em etapas posteriores da vida”, diz.

Para Maria Cláudia da Veiga Soares Carvalho, nutricionista e professora do Instituto de Nutrição Josué de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), são dois problemas recorrentes de alimentação no Brasil: a desnutrição e a obesidade.

“Embora pareça um paradoxo, ambos têm as mesmas raízes na desigualdade social e no consumo alimentar inadequado e/ou insegurança alimentar”, diz.

Segundo a nutricionista, até 2030, o Brasil poderá ocupar o quinto lugar na lista de países com o maior número e crianças e adolescentes com obesidade. “É estratégico defender o consumo de alimentos in natura e/ou minimamente processados, considerando os efeitos perversos do consumo de ultraprocessados, que são um dos principais contribuintes para o aumento do excesso de peso e obesidade em todo o mundo”, relata.

Maria Cláudia da Veiga Soares Carvalho, nutricionista e professora do Instituto de Nutrição Josué de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - Foto: Arquivo Pessoal

Maria Cláudia da Veiga Soares Carvalho - Foto: Arquivo Pessoal

Os significados da comida

Além de promover satisfação, saciedade e prazer, a comida tem seus significados simbólicos, culturais e sociais que devem ser considerados no processo da construção de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, relata Conde. Em geral, à medida que as pessoas passam a ter mais renda, elas mimetizam o comportamento de famílias de maior poder aquisitivo que, na visão delas, por comerem mais, se alimentam melhor.

Carolina Dalabona, nutricionista da Pastoral da Criança - Foto: Arquivo Pessoal

Carolina Dalabona - Foto: Arquivo Pessoal

Conde faz um alerta sobre as estratégias utilizadas pelas indústrias alimentícias para produzir alimentos extremamente saborosos e viciantes (chocolates, biscoitos, salgadinhos) combinando formulações com sal, açúcar e gordura que enganam o paladar humano. “Essa questão é especialmente importante nas idades mais precoces, quando as crianças desfrutam experiências alimentares que serão determinantes para a formação do paladar e dos hábitos alimentares”, diz. Ele cita o livro Sal, Açúcar e Gordura: Como a Indústria Alimentícia nos Fisgou, no qual o autor Michael Moss relata como as indústrias alimentícias calculam exatamente o ponto em que o sal, o açúcar e a gordura colocados nos alimentos ultraprocessados induzem ao êxtase dos consumidores: é o “bliss point”, o ponto de extrema felicidade. A vontade de continuar comendo esse tipo de alimento se explica porque são hiperpalatáveis, criados pela indústria para serem saborosos e irresistíveis.

Perguntada sobre as ações da Pastoral no combate à obesidade infantil, Carolina Dalabona, nutricionista da Pastoral da Criança, diz que a instituição sempre esteve atenta aos principais problemas que afetam as crianças, especialmente aquelas de baixa renda. “Há mais de dez anos a entidade já adaptou seu método de avaliação nutricional e orientação para abranger a questão da obesidade infantil”, diz.

Segundo Nelson Arns Neumann, coordenador Nacional da Pastoral da Criança, a organização tem uma ação específica chamada “Acompanhamento Nutricional”, que ocorre a cada três meses nas comunidades. As medidas de peso e altura das crianças são realizadas, cadastradas em nosso app e, com a orientação em mãos, nossos voluntários passam as principais orientações para as famílias com base no diagnóstico principal. As orientações levam em consideração as principais recomendações do Guia Alimentar Para Crianças Menores de 2 anos e do Guia Alimentar Para a População Brasileiraambos do Ministério da Saúde.

Pastoral da Criança

Um dos pilares de atuação da Pastoral da Criança é a educação em saúde, atividade que é exercida pelas líderes voluntárias (92% são mulheres) da própria comunidade que recebem formação e treinamentos continuados. Nos cursos, elas aprendem a interpretar os resultados da comparação entre os valores medidos de altura ou IMC (índice de massa corporal, calculado dividindo o peso em quilos pela altura ao quadrado) e os valores de referência (altura, massa corporal e dobra cutânea) para crianças com crescimento considerado saudável, indicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Com esse treinamento, elas conseguem compreender se a situação nutricional da criança está adequada e como se espera que ela evolua ao longo da infância”, diz o pesquisador.

Nelson Arns Neumann - Foto: Lattes

Entre as ações das líderes, estão o acompanhamento da gestante, incentivo ao aleitamento materno, vigilância nutricional e promoção do crescimento, estímulo à vacinação, e controle de diarreias e infecções respiratórias. Os dados referentes ao monitoramento dessas ações são registrados periodicamente no aplicativo Pastoral + gestante, compartilhado entre as lideranças e as mães ou responsáveis pela criança.

Teresa Cristina Perez, uma das líderes da Pastoral da Criança na comunidade do Jardim Elga, Campo Limpo, região Sul de São Paulo, disse que o trabalho da Pastoral extrapola ações de acompanhamento nutricional. Cita como exemplo uma família que morava em uma casa onde todos dormiam juntos na mesma cama: pai, mãe e três filhos. Em uma de suas visitas, a mãe manifestou descontentamento em relação à situação e disse que gostaria de obter ajuda para dar melhores condições à família. Teresa conta que com a contribuição de outras lideranças comunitárias, conseguiram material suficiente para fazer uma pequena reforma na casa e dividir o quarto do casal.

Claudia de Oliveira Santos, que há mais de 15 anos atende crianças da comunidade Bode Zé, no Rio Pequeno, região do Butantã, em São Paulo,  confirma que o trabalho da pastoral vai além do monitoramento nutricional:

Ela conta que em uma de suas visitas domiciliares, se deparou com um menino de seis anos que queria que alguém fizesse sua matrícula na escola porque a mãe e o pai estavam presos. Agentes da pastoral se incubiram de matricular a criança. Muitos anos depois, dentro de um ônibus, Claudia disse que encontrou, por acaso, o menino já crescido (por volta dos 20 anos). Estava bem, trabalhando e morando fora da comunidade, recorda.

Claudia Santos explica que o trabalho de campo das voluntárias é feito por meio de visitas domiciliares, quando elas têm conhecimento das condições vivenciadas pela família e a orienta de acordo com as indicações para cada necessidade identificada; e por meio das “Celebrações à Vida”, encontros comunitários onde são recrutadas novas famílias em situação de vulnerabilidade, as crianças são pesadas e medidas e as mães podem esclarecer dúvidas e receber orientações das líderes.

A nutricionista Isabela Venâncio, mestranda da FSP e responsável pela junção dos bancos de dados da Pastoral da Criança e do Sisvan, disse que “não há competição entre as duas instituições, elas são complementares”, uma vez que todas as crianças atendidas pela Pastoral são monitoradas pelo Sisvan, mas nem todas as do Sisvan são acompanhadas pela Pastoral da Criança, numa proporção de mais de dez vezes, relata. As informações relativas às medidas corporais e aos indicadores do consumo alimentar monitoradas pelo Sisvan são inseridas nas suas plataformas eletrônicas pela equipe de saúde da rede de serviços da atenção básica do Sistema Único de Saúde (SUS) e cobrem todas as regiões brasileiras. Já os dados das crianças atendidas pela Pastoral da Criança são inseridos pelas líderes comunitárias em um aplicativo de celular (Pastoral + gestante) desenvolvido pela instituição.

Isabela Venâncio - Foto: Lattes

App Pastoral + gestante

Segundo o professor Conde, um dos fatores que explicaria o bons resultados da pastoral é o uso, desde 2015, do aplicativo Pastoral + Gestante, que vem facilitando a interação das famílias com os líderes da entidade, avalia. O aplicativo tem uma interface amigável e possui uma tecnologia algorítmica moderna que explora as múltiplas associações entre os indicadores antropométricos (peso, altura e IMC) e o hábito alimentar, que, ao final, descreve a situação nutricional das crianças analisadas.

A análise desses dados resulta em cartões que sintetizam os resultados de indicadores que descrevem dimensões distintas do estado nutricional de cada criança e agregam recomendações práticas que auxiliam as mães no manejo nutricional e saúde de seu filho. No app, são disponibilizados vídeos, orientações, sinais de alertas e informações específicas para cada semana de gestação até os seis anos de idade da criança, atualizadas periodicamente.

Cartões-síntese desenvolvidos pela Pastoral da Criança - Imagem: Reprodução/Artigo "Análise da situação nutricional de crianças de famílias acompanhadas pela Pastoral da Criança"

Os resultados da pesquisa constam no artigo Análise da situação Nutricional de crianças de famílias acompanhadas pela Pastoral da Criança publicado na Stanford Social Innovation Review Brasil, da Fundação José Egydio Setubal, instituição que financiou a pesquisa.

Mais informações: Wolney Lisboa Conde, e-mail wolney@usp.br; Isabela Venâncio, e-mail isa_venancio@usp.br; Maria Claudia da Veiga Soares Carvalho, e-mail mariaclaudia@nutricao.ufrj.br e Carolina Dalabona, e-mail nutri3@pastoraldacriança.org.br

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

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