Escova progressiva mais ácida gera danos agressivos ao cabelo, mostra estudo

Quanto mais acidez, maior será alteração da estrutura do fio e degradação, mostra pesquisa da USP que traz fundamentos científicos para regulamentação da Anvisa

Pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP traz fundamentação científica para a nova regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre produtos alisantes para cabelos. Foto: Dolgachov / 123rf

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Você usaria limão no seu cabelo? Provavelmente, não. Mas alguns produtos usados no procedimento conhecido como escova progressiva são mais ácidos que o limão, que tem pH 2 (quanto menor o pH, mais ácido). Um estudo da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP comprova a importância da formulação adequada dos compostos usados na escova progressiva. A pesquisa revela que produtos mais ácidos tem maior durabilidade, porém, seus efeitos para a fibra capilar são também mais graves. Isso porque, para chegar à aparência desejada, a estrutura interna do fio é danificada.

A farmacêutica Alessandra Mari Goshiyama pesquisou o tema na dissertação de mestrado Avaliação das propriedades das fibras capilares tratadas com alisante ácido com diferentes valores de pH. Ela conta que um dos objetivos era descobrir se os alisantes de pH 1, muito ácidos, causavam danos mais severos à fibra capilar em comparação aos  produtos de alisamento capilar de pH 2.

Pesquisadora Alessandra Mari Goshiyama ao lado da máquina que mede a penteabilidade da mecha – Foto cedida pela pesquisadora

Ela diz que as fórmulas mais ácidas garantem maior brilho e alisamento pois selam mais as cutículas, estruturas externas do fio de cabelo. Porém, o dano é maior.

A modificação da estrutura interna é disfarçada pela formação de um filme em torno do fio, responsável pelo brilho que a escova dá ao cabelo. Mas o mesmo filme propicia o ressecamento e a quebra do fio.

No teste de penteabilidade, em que mechas padronizadas passaram por um pente com diferentes resistências, as mechas tratadas com produtos mais agressivos realmente eram mais lisas.

Mas, em outro teste de resistência do fio, a pesquisadora percebeu que essas amostras se tornaram mais fracas e suscetíveis à quebra, pois perderam sua elasticidade natural. “O produto forma compostos não ideais no cabelo e modifica a alfa-queratina, aminoácido essencial da fibra capilar.”

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Em outras avaliações, a pesquisadora constatou que até o córtex – a estrutura mais interna da fibra capilar – sofreu modificação. Como o fio é encapado, esses danos se tornam quase irreversíveis, porque os tratamentos não atingem seu interior.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está em processo para atualizar a regulamentação que determina o pH mínimo e as fórmulas permitidos.

Hoje, a Anvisa proíbe a comercialização de químicos com pH 1, mas há pressão por parte da indústria para sua liberação.

Uma das justificativas dos fabricantes é que produtos com menor nível de acidez não atingem um alisamento satisfatório. Mas o estudo prova que, embora o produto de pH1 alise mais, a diferença visual entre eles não é tão significativa para que químicos mais fortes sejam liberados.

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Cabelo alisado – Foto cedida pela pesquisadora
Cabelo virgem – Foto cedida pela pesquisadora

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A diferença parece mínima, mas a escala de pH é logarítmica. Logo, o pH 1 tem dez vezes mais íons de hidrogênio que o outro, de pH 2. “É lógico que essa diferença tenha efeito no cabelo”, explica Alessandra.

A pesquisadora foi orientada pela professora Maria Valéria Robles Velasco, do Departamento de Cosmetologia da FCF, que estuda fibra capilar há anos e está envolvida na discussão da Anvisa.

A professora Valéria comenta que a Agência estuda a liberação de alisantes com pH a partir de 1,5. “Na Europa, qualquer produto com pH abaixo de 2 deve ser vendido com alerta de corrosivo na embalagem”, aponta.

A ação do alisante

Existem dois tipos de alisantes no mercado: os básicos ou alcalinos, que geralmente contém hidróxido de sódio, tioglicolato e guanidina; e os ácidos, compostos por ácidos hidroxílicos. Os básicos são conhecidas como relaxantes, enquanto os ácidos recebem o nome de escova ou “botox capilar”. Hoje, apenas uma fórmula de pH baixo (ácido) é permitida no mercado brasileiro: o ácido glioxílico associado à carbocisteína. O ativo é comercializado por várias marcas.

A escova progressiva ácida reorganiza o interior da fibra capilar, abre as cutículas e reduz a força e elasticidade do cabelo, podendo causar cortes químicos – quando o cabelo perde sua elasticidade e quebra facilmente, como se estivesse desmanchando. Porém, os efeitos são disfarçados por um filme que cobre a superfície do fio, como um plástico. Esse filme surge quando o cabelo é aquecido com uma prancha, a popular chapinha, e é responsável pelo brilho tradicional da escova progressiva.

A temperatura alta libera a ação química que permite o sucesso do tratamento. Por isso, a chapinha faz parte do processo. O cabelo perde resistência, mas o plástico que envolve os fios não permite que outros produtos alcancem o interior do cabelo. Por isso, descolorações, hidratações e outros métodos de salão não tem efeito satisfatório no cabelo alisado.

Mesmo assim, tanto Valéria quanto Alessandra indicam que quem faz escova insista em hidratar, nutrir e condicionar o cabelo continuamente para evitar maiores danos.

Infografia: Beatriz Abdalla

E o formol?

Foi o primeiro produto utilizado em escovas e era responsável pela plastificação do cabelo. Caiu em desuso porque é comprovado que a alta exposição ao formol é cancerígena. O químico é liberado quando o cabelo é esquentado com chapinha.

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Pranchas e chapinhas causam danos à estrutura capilar

A Anvisa limita a quantidade nos produtos para cabelo – hoje, ele é permitido para a função de conservante e com limite máximo de concentração a 0,2%.

Alguns produtos, porém, ainda liberam formol em altas temperaturas. Quando aquecido, o formol é liberado no vapor e tem um cheiro forte característico. O problema é que sua inalação é tóxica. A quantidade liberada por escova é pequena, mas profissionais de salões que convivem com a exposição apresentam fator de risco.

As pesquisadoras indicam comprar apenas produtos regularizados, mas sabem que a realidade é bem diferente. “Sabemos que alguns profissionais adicionam o formol no produto em seus salões, devido ao seu melhor resultado”, explica Alessandra.

A falta de bancos de dados que contabilizem o número de escovas feitas no Brasil ou produtos vendidos impede que se estime quantitativamente o estrago. Mas as consequências à saúde já são bem conhecidas.

Fonte: Alessandra Mari Goshiyama – Infografia: Beatriz Abdalla/Jornal da USP

A própria Anvisa cita os possíveis problemas à saúde, especialmente na exposição de alisantes sem registro – que contém formol em maior quantidade nas fórmulas. O profissional exposto continuamente pode sofrer “danos na córnea, boca amarga, dor de barriga, enjoo, vômito, desmaio, feridas na boca, narina e olhos”. Pior que isso, inalação contínua do formol traz risco cancerígeno nas vias aéreas superiores, que inclui nariz, faringe, laringe, traqueia e brônquios.

Em quem recebe o tratamento, “queimaduras graves no couro cabeludo, quebra dos fios e queda dos cabelos” são os principais problemas de uma aplicação mal-feita. A exposição ao formol também causa “irritação, coceira, queimadura, inchaço, descamação e vermelhidão do couro cabeludo, queda do cabelo, ardência dos olhos e lacrimejamento, falta de ar, tosse, dor de cabeça, ardência e coceira no nariz.” E os impactos à autoestima são gravíssimos em quem procura se sentir melhor.

Mais informações: e-mail alessandra.mari@usp.br, com Alessandra Mari Goshiyama; e e-mail mvrobles@usp.br, com Maria Valéria R. Velasco///

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