Pesquisadores criam camundongos para estudar tumor raro em humanos

Os animais são modificados geneticamente para desenvolver câncer do córtex da suprarrenal

As suprarrenais, onde o câncer se desenvolve, são duas glândulas localizadas acima dos rins – Arte: Moisés Dorado

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Estudos desenvolvidos por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, abrem caminho para a criação de novas drogas para o tratamento de carcinoma do córtex da suprarrenal. O grupo desenvolveu um camundongo geneticamente modificado capaz de reproduzir o carcinoma com as mesmas mutações encontradas nos tumores em humanos.

O carcinoma de córtex da suprarrenal é considerado um tumor agressivo, mas raro no mundo. Entretanto, no Brasil, de 3,4 a 4,2 casos por milhão de crianças com até 15 anos são afetadas pela doença por ano, incidência quinze vezes maior que a observada em outros países, como Estados Unidos. Pesquisadores brasileiros já revelaram que essa alta incidência está associada à presença de uma mutação no gene TP53 encontrada em habitantes do Sul e do Sudeste do País.

Foto: fornecida pelo pesquisador

As suprarrenais, onde o câncer se desenvolve, fazem parte do sistema endócrino; são duas glândulas localizadas acima dos rins e responsáveis pela fabricação de hormônios essenciais para o funcionamento do organismo. Quando a doença é diagnosticada em estágios iniciais, a cirurgia é o tratamento padrão. Entretanto, apesar da remoção total do tumor, o prognóstico é geralmente ruim devido à alta recorrência da doença com a presença de metástases. Pacientes diagnosticados em estágios avançados têm poucas opções de tratamento e a maioria evolui para óbito. 

Corte histológico de um pulmão de camundongo com metástases do tumor do córtex da adrenal Foto: fornecida pelo pesquisador

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Entre as dificuldades para encontrar tratamento efetivo desse câncer está a ausência de modelos animais que representem o tumor observado nos humanos. Até então, os estudos eram realizados com dados obtidos de pacientes e de linhagens celulares desenvolvidas in vitro – experimento feito fora do organismo vivo – a partir de tumores dos pacientes. Agora, surgem novas possibilidades a partir do trabalho realizado pelo grupo da FMRP e de Harvard.

O cientista Kleiton Silva Borges, da FMRP, primeiro autor do estudo, explica que os camundongos apresentam uma similaridade biológica considerável com os humanos e desenvolvem doenças parecidas do ponto de vista biomédico. O modelo animal que criaram possui mutação no gene TP53 que impede o funcionamento correto da proteína p53. Segundo Borges, mutações como essa também estão presentes nos pacientes; “essas mutações fazem com que a proteína p53 não atue adequadamente nas células dos pacientes, por isso o câncer surge”.

O pesquisador lembra que no animal é necessário associar essa mutação a outra, a do gene chamado Beta-catenina, também encontrada nos pacientes com o tumor, para desenvolver o carcinoma, o que é feito através de técnicas de engenharia genética. “Esse camundongo desenvolve um tumor com características muito similares às observadas nos tumores humanos, como a presença de metástases e aumento da secreção de hormônios.”

Mutação tem origem portuguesa, espalhada por um “tropeiro”

Kleiton Silva Borges – Foto: Arquivo pessoal

Borges conta que, antes da descoberta dos casos desse tipo de câncer no Brasil, já se sabia que “diferentes tipos de mutações germinativas do TP53 estavam associadas com casos de tumores do córtex da suprarrenal. Mas não existem relatos de alta incidência de uma outra mutação no TP53 em grandes populações como ocorre aqui no Brasil”.

Essa mutação ocorre em indivíduos do Sul e Sudeste do Brasil, entretanto já existem relatos de casos dessa mutação em indivíduos no Paraguai. “A possível origem é portuguesa e a hipótese mais aceita é que um tropeiro tenha espalhado a mutação nessas regiões durante o século 18”.

O trabalho Combined deletion of p53 and stabilization of β-catenin results in neoplasia in the mouse adrenal córtex de Kleiton Silva Borges, Emanuele Pignatti, Sining Leng, Dulanjalee Kariyawasama, Fernando Silva Ramalho, Diana L. Carlone e David T. Breault, que deu origem ao camundongo geneticamente modificado, foi premiado no último Adrenal Cancer Symposium em 2017, realizado em São Paulo (SP). Borges será um dos palestrantes do próximo evento que será realizado na França em setembro próximo.

Mais informações: (16) 3602-2651 ou e-mail ksborges@usp.br, com o pesquisador Kleiton Silva Borges

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