Doenças crônicas podem ter origem no desenvolvimento do feto

Publicação recente mostra que má nutrição do pai pode aumentar suscetibilidade das filhas ao câncer de mama

O risco de desenvolvimento de doenças crônicas é um reflexo de fenômenos que acontecem durante toda a vida de uma pessoa. Obviamente, o risco aumenta com a idade. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, no momento do nascimento esse risco não é igual a zero. Isso porque o organismo do recém-nascido pode carregar uma programação metabólica que já o predispõe, quando adulto, a desenvolver determinados tipos de enfermidade. O Jornal da USP no Ar conversa com o professor Thomas Prates Ong, do Departamento de Alimentos e Nutrição da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP.

Doenças crônicas podem ter origem no desenvolvimento do feto. Além de doenças cardiovasculares, uma gama de enfermidades da vida adulta pode estar conectada a condições enfrentadas pelo feto durante a gestação. “No início da vida, durante os noves meses de gestação, acontece muita coisa. É nesse momento que as estruturas básicas dos nossos órgãos estão sendo formadas”, desenvolve Ong, e acrescenta: “Dependendo das condições metabólicas e nutricionais da mãe, o desenvolvimento do feto é afetado”.

O professor da FCF expliqua que, em casos de falta de nutrientes durante a gestação, o feto passa por uma “programação metabólica”, ou seja, há uma adaptação para sobreviver com a falta de energia. No entanto, essa programação implica custos. Prioriza-se o desenvolvimento do sistema nervoso central: do cérebro, que é o órgão mais nobre, às custas do desenvolvimento de órgãos periféricos, como fígado, coração, tecido adiposo. Essa condição implica uma maior suscetibilidade de doenças crônicas na vida adulta.

“A questão da desnutrição foi o foco dessa área da ‘programação metabólica’ por muitas décadas”, comenta Thomas Prates Ong, e desenvolve: “Mas gostaria de ressaltar que hoje é observado, também, que o excesso de nutrição – a obesidade materna – durante a gestação também pode afetar com risco de doenças crônicas nos filhos durante a idade adulta”.

Por muitas décadas, não se prestou muita atenção na contribuição do pai para o desenvolvimento de doenças crônicas nos filhos. “Achava-se que ele fornecia o espermatozoide com metade do genoma e que, basicamente, era isso”, discorre o professor. “Hoje, sabemos que as condições de saúde e a nutrição do pai, durante a pré-concepção, também vão afetar o desenvolvimento do feto.”

As condições do pai podem influenciar na programação do risco de várias doenças, como as cardiovasculares, obesidade e o câncer de mama. “Publicamos recentemente, com nossos colaboradores da Universidade de Georgetown (EUA), os primeiras estudos que mostram que a má nutrição do pai, durante a pré-concepção, afeta a suscetibilidade das filhas ao câncer de mama”, comenta o professor da FCF sobre descobertas recentes. Os experimentos foram realizados em ratos.

Cabe ponderar, por fim, que a programação metabólica não é irreversível. “Existe uma grande parcela de estudos que busca, justamente, entender como intervenções no pós-natal, ao longo da vida, pode reprogramar essas condições”, conclui.


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