Brasil precisa de políticas públicas para fomentar crescimento

Feldmann diz que não faz sentido sacrificar 2019, esperando orçamento proveniente da reforma da Previdência

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Foto: Visualhunt

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O desempenho da economia no primeiro trimestre, com queda de 0,2% em comparação ao último trimestre do ano passado, deve fazer com que as expectativas para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2019 piorem ainda mais. Com o fraco resultado da atividade econômica observado entre janeiro e março, passou a ganhar força entre analistas um cenário no qual o crescimento do Brasil neste ano possa ser inferior a 1%. Por que o crescimento persiste baixo no País? A economia vive um processo de estagnação?

“O Brasil não cresce porque insistimos em não fazer planos para o futuro. Durante o governo Temer, afirmou-se que a reforma trabalhista traria crescimento e emprego. Fazem o mesmo agora com a Previdência (a Proposta de Emenda Constitucional-PEC 06/2019). Precisamos de políticas públicas para fomentar crescimento”, responde Paulo Feldmann, professor do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA). Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, ele aponta um grande crescimento no mundo – hoje, o Fundo Monetário Internacional (FMI) espera uma expansão global de 3,6%.

Enquanto aqui são 12,4 milhões de desempregados, “praticamente não há desemprego no mundo. Na Europa é assim. Nos Estados Unidos a taxa é a mais baixa dos últimos 50 anos”, comenta Feldmann. Segundo ele, governos europeus investem no empreendedorismo para estimular o crescimento. À medida que o desemprego surge, pessoas têm facilidades para abrir seu negócio. “No modelo chinês, a prioridade máxima é infraestrutura. Ocupa-se a mão de obra com uma contrapartida para o país”, argumenta.

Nessa perspectiva, o professor reitera a necessidade de esforços para gerar empregos. O ministro da Economia, Paulo Guedes, prometeu iniciativas nessa direção na semana passada, mas nesta terça-feira (4) alegou que só seria possível implementá-las depois de aprovada a reforma da Previdência. “As previsões de aprovação da proposta no Congresso estão para setembro. Até lá, o ano acabou. Não faz sentido sacrificar o ano de 2019, esperando a fatia do orçamento que seria liberada em 2020 após a consolidação da nova Previdência, parece chantagem”, declara Feldmann. Ele lembra que desemprego é um problema recorrente no mundo e existe conhecimento disponível a respeito do assunto.

O professor atribui a estagnação também à falta de crédito. “A oferta é muito baixa e, quando existe, as taxas de juros são altas e os prazos de pagamento, curtos. Soma-se isso à insegurança econômica, e os empresários não investem. Desta maneira, não compram máquinas, não contratam nem expandem suas fábricas”, analisa.

Além das políticas de crédito, outra medida estrutural importante e necessária citada por Feldmann é a reforma tributária. “Nosso sistema é anacrônico. Oitenta por cento da arrecadação fica na União, ao passo que Estados e municípios ficam com uma parcela muito pequena. Impostos têm de ficar próximos ao cidadão”, esclarece. Assim, prefeituras e governos estaduais teriam mais recursos para revertê-los diretamente ao contribuinte. Fora isso, a reforma poderia propiciar uma redistribuição de renda. “Desigualdade talvez seja o principal problema do País. Menos de 10% da população tem mais de 85% da renda”, indica o professor.

Ele ainda lembra da necessidade de capacitar profissionais preparados para a nova conjuntura do mercado. “Com a expansão da área tecnológica, implementação de robôs e inteligência artificial, a qualificação da mão de obra se torna muito importante. Os novos cortes de bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) vão na contramão disso”, alega Feldmann.

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