Quando Nelson Rodrigues calou a plateia

Gutemberg Medeiros é doutor pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Por - Editorias: Artigos
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Gutemberg Medeiros – Foto: Atílio Avancini
Pode-se afirmar que o dia 7 de julho de 1961 ficou marcante para a história do teatro brasileiro, quando se deu a estreia da peça O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues.  Além de ser uma de suas principais obras dramatúrgicas, nesta estreia o autor conseguiu praticamente calar a plateia lotada do tradicional Teatro Ginástico. Provavelmente caso isolado em vida do dramaturgo, pois o comum eram suas peças serem recebidas com aplausos, chegando a urros, vaias e até palavras de calão aos berros.

Escrita para o Teatro dos Sete, a primeira montagem histórica foi dirigida por Gianni Ratto e teve grande elenco com Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto, Mário Lago, Zilka Salaberry, Italo Rossi, Cláudio Correia e Castro, entre outros.

O dramaturgo dava continuidade à crítica explícita à indústria da notícia, também um dos focos da peça anterior, Boca de Ouro. Mas, em quase toda a sua produção, há a presença do repórter – geralmente da editoria de Polícia – sem escrúpulos que não mede esforços em confundir fontes e distorcer acontecimentos e seus sentidos visando a alcançar a desejada manchete de capa.

Em O beijo no asfalto, Nelson superlativa esse olhar crítico trazendo ao palco o jornalista Amado Ribeiro, o principal jornalista de polícia do Última Hora de Samuel Wainer. O mesmo órgão de imprensa onde o dramaturgo atuava havia dez anos com a sua histórica coluna A vida como ela é… (assim mesmo, com reticências).

A peça era tão explosiva que o Grupo dos Sete promoveu sessão exclusiva para Amado e Wainer antes da estreia com vistas a receber declarações liberando os nomes das pessoas físicas e jurídica fartamente usados e evitar processos judiciais por difamação e calúnia. Wainer não pôde comparecer e enviou o documento. Já Ribeiro, ao final da peça, pulou da plateia ao tablado enlouquecido de felicidade e abraçou o ator Sérgio Britto – que interpretava o personagem com seu nome – aos berros: “Eu sou pior!”.

Em 1994, eu estava no primeiro ano no Mestrado em Ciências da Comunicação na ECA e analisava aspectos das crônicas da última fase de Nelson em O Globo. Entre esses aspectos, estava o da crítica que o autor tecia aos rumos e problemas do jornalismo brasileiro. Daí o meu interesse pelas duas peças acima citadas ao tomar o mesmo caminho. Neste mesmo ano, tive a oportunidade de conhecer o jornalista Luiz Fernando de Azevedo Mercadante (1936-2012), que fez história na imprensa em veículos como Jornal do Brasil, Realidade, Manchete, O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde.

Escrita para o Teatro dos Sete, a primeira montagem histórica foi dirigida por Gianni Ratto e teve grande elenco com Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto, Mário Lago, Zilka Salaberry, Italo Rossi, Cláudio Correia e Castro, entre outros.

Logo de cara, perguntei quando e onde começara a sua trajetória profissional. Ele disse que foi entre 1954 e 1963 no jornal carioca Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda. Pois este jornal travou violentos debates com o Última Hora, onde Wainer chegou a apelidar Lacerda como “O Corvo” da política brasileira, dada a extremada defesa dos interesses da direita culminando com adesão total ao golpe civil-militar de 1964.

Fui direto ao assunto: Mercadante, assistiu à primeira versão de O beijo no Asfalto? De pronto, me respondeu que não só ele, mas na estreia quase toda a plateia era formada por jornalistas de várias partes do País. Pois, ainda segundo Mercadante, corria o boato há quase um ano de que Nelson escrevia peça contra a imprensa.

Seguindo o depoimento de Mercadante, quando o pano caiu poucos aplaudiram – justamente os que não eram jornalistas. O elenco perfilado no palco visivelmente não entendia o que estava acontecendo. A plateia foi se esvaziando sob silêncio tumular. Na calçada em frente ao teatro, comentários cochichados variavam sob o mesmo tema: “Ele nos traiu”. Porém, no dia seguinte, a classe se refez e espalharam que toda aquela falta de ética era exclusivamente no jornal popularesco Última Hora, pois todos os outros veículos de comunicação eram honestos, objetivos e imparciais.

Não faltam depoimentos de que Nelson passou a ser hostilizado dentro do Última Hora pelos colegas, menos Wainer e Ribeiro. Este se ufanava de ter sido imortalizado no teatro brasileiro. Perguntei a Mercadante como poderia comparar o personagem em relação ao colega – “Ele era pior”. E lembra que todos os jornais tinham as redações no centro do Rio de Janeiro e os profissionais se reuniam em determinado bar depois do fechamento para comentar as matérias e, especialmente, descobrir quem tinha “furado” quem.

Como o carro-chefe do Última Hora era a editoria policial, geralmente Amado Ribeiro era um dos últimos a sair da redação após determinar a chamada de cabeça de capa.

Mercadante recorda que Ribeiro chegava ao bar quando já estava lotado, apoiava-se no centro do balcão, tomava seu primeiro gole e alardeava aos quatro ventos com quem tinha exterminado, qual o novo delegado no bolso do seu colete e por aí vai. Narrava em detalhes o que realmente tinha acontecido e aquilo que a gráfica estava imprimindo em títulos de letras garrafais e, quase sempre, era a vida como não era.

Em 1966, o crítico Leo Gilson Ribeiro entrevistou Nelson sobre O beijo no asfalto, que afirmou: “Todos estamos afetados por essa peça e ninguém que a veja poderá sentir-se alheio a ela, pois nos envolve a todos. Eu creio firmemente que vivemos numa floresta de papel impresso: somos modelados, condicionados pela imprensa”.

Em suma, além dos aspectos estéticos inegáveis de toda a obra deste autor – independente do gênero –, fica a sua obsessão extremamente atual da necessidade de desenvolvermos senso crítico até na hora de ler ou assistir às notícias do dia.

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