As poetisas do “slam” em São Paulo, a psicanálise e a elaboração da violência de gênero

Por Bruna Ferreira de Oliveira, mestranda do Instituto de Psicologia da USP, e Rose Gurski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e orientadora no Instituto de Psicologia da USP

 Publicado: 20/05/2024
Bruna Ferreira de Oliveira – Foto: Arquivo pessoal
Rose Gurski – Foto: Arquivo pessoal

 

 

Segundo o Atlas da Violência de 2023, o período marcado pela pandemia perdeu 7.691 vidas de mulheres no Brasil. De 2020 a 2021, ocorreu uma queda na taxa de homicídios da população geral, porém, o número de feminicídios cresceu 0,3%.

São Paulo é o estado que teve o menor registro de morte de mulheres nesse período, todavia, o número continua alto, sendo 1,5 morte para cada 100 mil habitantes. Ironicamente, no dia 8 de março de 2023, Dia Internacional da Mulher, o Portal G1 registrou o mais novo recorde brasileiro, com uma mulher morta por feminicídio no País a cada seis horas.

A partir deste panorama, perguntamos: uma mulher pode ocupar os espaços da cidade? Mais ainda, como a mulher pode ocupar os espaços urbanos?

Temos pensado o lugar da mulher na cidade a partir do dispositivo teórico-metodológico da escuta-flânerie, em estudos do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (Nuppec) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da USP. Um desses estudos é uma pesquisa de mestrado que acontece no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da USP, intitulada Psicanálise e o adolescer feminino: a Slam das Minas como espaço de elaboração da violência de gênero, de autoria da psicóloga Bruna Ferreira, sob orientação da professora Rose Gurski.

Ora, sabemos que o espaço público nem sempre foi destinado à participação das mulheres e do gênero feminino. Lauren Elkin, autora estadunidense sobre a flâneuse, registra que, na segunda metade do século 19, o homem podia ocupar e circular por qualquer espaço urbano, especialmente aqueles sujeitos pertencentes às elites financeiras e intelectuais. Walter Benjamin, em seu texto Flâneur (1927/1982), intitula o sujeito que deambulava pelos espaços urbanos, muitas vezes, a esmo, como flâneur.

Lauren Elkin propõe, deste modo, uma nova mirada às mulheres: sua aposta foi em um sufixo que marcasse o espaço feminino, o que em francês é, para muitas palavras, -euse, daí surge o feminino do flâneur, a flâneuse. A partir do encontro entre a escuta-flânerie, metodologia forjada por Gurski e a flâneuse de Laura Elkin, interrogamos nesta pesquisa o que querem as mulheres ao levarem suas palavras e narrativas para locais públicos? Especificamente neste trabalho, temos direcionado a escuta a meninas e mulheres poetisas de um grupo de slam que faz um recorte de gênero a fim de construir um espaço que abarque o feminino, para que meninas e mulheres cis e trans tenham vez e voz.

O slam, em síntese, consiste em uma batalha de poesia falada, em que as poesias são autorais e acontecem no tempo máximo de três minutos. As poesias do slam são apresentadas através de uma performance sem objetos cênicos, permitindo que o corpo e a voz sejam primordiais. Essas produções têm ocupado um espaço físico e simbólico na cidade como uma forma de reivindicação e construção de um lugar de pertencimento para jovens da periferia.

As poetisas produzem uma escrita poética atual, em que elas se posicionam politicamente, denunciam o mal-estar que vivenciam, principalmente, no que concerne à violência de gênero. Segue um trecho de um poema da slammer Júlia Araújo, publicado no livro Ponta de Lança, organizado pelo poeta Lucas Afonso:

Quantas Luanas precisarão
Perder a vida?
Quantas Cláudias precisam ter
A vida interrompida?
Elas mereciam morrer?
E onde se encaixa a frase:
Não há o que TE-MER?
Mas você ouve os gritos da sua vizinha que apanha do marido
E acha [que] não tem o que FA-ZER.

À mulher é destinado ódio em todos os períodos históricos. Rita Segato, em uma conferência de 1999, adverte: “O acesso sexual ao corpo da mulher sem seu consentimento é um fato sobre o qual todas as sociedades humanas têm ou tiveram notícias”. Esse ódio é denominado como misoginia e está alojado nos eixos que constroem nossa sociedade patriarcal e eurocêntrica.

Desde essa realidade, temos pensado que espaços com recorte de gênero que tenham a função de ofertar um local para que as mulheres possam se expressar livremente, podem funcionar como um espaço de elaboração coletiva das violências de gênero que as mulheres cotidianamente sofrem. Neste caso, tratando-se do slam, parece que é um sítio para as poetisas darem vazão ao que foi silenciado, àquilo que escapa, ao que está nas frestas. Isso ocorre porque temos visto que as meninas e mulheres conseguem falar o que elas enfrentam, podendo, também, criar vínculos e laços afetivos umas com as outras.

Temos pensando, com o filósofo italiano Giorgio Agamben, que o slam pode produzir uma abertura para o comum que vem, uma construção através da qual, além da coletividade estar pronunciada, dirige-se no sentido de garantir um espaço às jovens poetas. Conforme Shoshana Felman aponta, há alguns eventos que ocorrem no âmbito singular e atingem a coletividade. Um coletivo de meninas e mulheres que se encontra devido à identificação da escrita poética de slam constitui-se como um local possível para que elas possam reformular suas narrativas, elaborando, simultaneamente, o mal-estar advindo das violências contra a mulher.

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