Os ataques à universidade pública

Mauro Bertotti é professor titular do Instituto de Química da USP

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Mauro Bertotti – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

O ministro da Educação tem promovido cortes nas receitas das universidades federais e manifestado sua opinião sobre cursos de humanidades, os quais não produziriam “retorno imediato” ao contribuinte, como ocorre com engenharia e medicina, por exemplo. É uma pena que o ministro não reconheça a relevância e variedade de conhecimentos criados nas instituições públicas, tanto nas ciências básicas quanto nas aplicadas, a despeito da crescente e preocupante crise no financiamento. Aparentemente, o ministro compartilha da opinião do presidente Bolsonaro, em fala na qual ele sugeriu que pesquisas relevantes no Brasil somente são realizadas em algumas poucas instituições privadas. Esse desconhecimento é preocupante e demonstra que nossos atuais líderes políticos não decodificam o papel da universidade pública e não compreendem sua importância para a sociedade.

O contingenciamento de verbas no ensino superior tem sido defendido com o argumento de que as universidades são caras. De fato, essas instituições requerem vultosos recursos para cumprir suas funções, pois elas geralmente mantêm hospitais universitários e museus, executam numerosos serviços de extensão, formam a elite dos professores do País e nelas são desenvolvidas pesquisas que dependem de insumos e equipamentos sofisticados. As boas universidades federais possuem esse perfil, e uma comparação feita pelo ministro recentemente demonstra total falta de percepção da realidade. Segundo ele, o custo de um aluno universitário é dez vezes maior do que o de um estudante de ensino básico. Há dois problemas nesta afirmação. Educação nunca deveria ser tratada como custo, mas investimento responsável. E ensino básico não pode ser comparado com ensino superior, pelas razões expostas anteriormente. A amplitude das ações desenvolvidas em uma universidade pública é infinitamente maior do que a das praticadas na escola básica, restritas ao ensino, e isso explica por que esse cálculo (total de recursos por aluno) é uma falácia.

Comentários negativos sobre a relevância dos conhecimentos gerados nas universidades têm sido cada vez mais frequentes. A boa ciência seria aquela que pode ser aplicada, produzindo soluções imediatas que interessem à população para, desta forma, justificar os investimentos efetuados pelo Estado. Trata-se da atribuição de uma dimensão instrumental para o conhecimento produzido na universidade, que privilegia o aspecto funcional do saber e valoriza a formação voltada para o mercado de trabalho. A esse modelo utilitarista da ciência se contrapõe aquele que defende a busca descompromissada do conhecimento de acordo com uma concepção liberal e fundamentada na autonomia da universidade pública. De acordo com esse free-science approach, a universidade é o espaço intelectual e social no qual professores e alunos cultivam o saber de forma apaixonada, de tal forma que o avanço das ideias proporcionado pela pesquisa científica já é justificado pela própria descoberta.

É neste contexto que o papel exercido pelas humanidades na universidade tem sido debatido. Visto que as ciências humanas têm uma relação ainda menos visível com melhorias imediatas na qualidade de vida da população, aqui o caráter utilitarista se faz mais presente, a ponto de haver sérios questionamentos sobre a importância deste campo do saber. Todavia, as disciplinas ligadas a essa área do conhecimento deveriam ser tratadas exatamente como o próprio nome diz: as humanidades explicam o que nos faz ser humanos e elas nos ajudam a observar as mudanças históricas da vida em sociedade, a compreender como as relações em grupos e de comportamentos são estabelecidas, a entender mudanças no mundo e possíveis tendências e a projetar a sociedade que almejamos no futuro. As humanidades são o oposto da nossa vida atual, em que a pressa, o discurso raso e simplista e a busca pela aparência são aspectos valorizados e, por não se enquadrarem nesse perfil, resulta o fato de serem relegadas a plano inferior. As humanidades existem não como uma concepção utilitária ou visando à formação de massa trabalhadora, mas para que a mente humana seja cultivada com lógica, razão e método.

No mesmo conjunto de disciplinas que trazem pouco “retorno imediato”, o ministro da Educação poderia incluir a Astronomia. Afinal de contas, qual é a importância de se observar um buraco negro ou enviar uma sonda à Lua ou a Marte? A resposta é simples: o ser humano é curioso e a jornada não será completa enquanto não soubermos qual é nossa trajetória no vasto universo. Sair do planeta e explorar o espaço traz mais uma vantagem: a certa altitude, a Terra pode ser vista como ela é, um corpo celeste esférico que orbita o Sol. Como imaginam algumas pessoas, ela não é plana. Do mesmo modo, assuntos complexos como a origem da vida e o aquecimento global, aparentemente insignificantes sob a ótica do ministro, mobilizam milhares de cientistas em todo o mundo. Por que “perder” tempo com esse tipo de problema? Talvez o ministro pudesse fazer a mesma pergunta aos cientistas que fabricaram o raio laser em 1960, na época apenas uma curiosidade científica pautada em estudos teóricos de Einstein sobre mecânica quântica.

Nossos políticos e grande parte da sociedade deveriam entender a importância das universidades públicas para o País, pois é principalmente nelas que ocorre a geração de novos conhecimentos em um ambiente plural, tolerante e sincronizado com os avanços da ciência em nível mundial. Não é por outra razão que a interlocução de pesquisadores importantes que vêm do exterior ao Brasil, incluindo prêmios Nobel, é, via de regra, exercida com seus pares alocados em universidades públicas. Tal experiência, se bem aproveitada pelos estudantes, é ímpar. Neste tipo de instituição também se obtém um diploma, mas a formação acadêmica dos alunos é complementada por atividades extracurriculares como iniciação científica, participação em congressos, atividades de campo, estágios no exterior, palestras, workshops e, eventualmente, pela sequência de estudos na pós-graduação. A formação é ainda mais ampla se forem somadas as atividades culturais e esportivas, a participação em empresas juniores, as festas de confraternização e debates de caráter político (denominados de forma genérica como “balbúrdia” pelo ministro). Como em qualquer outro espaço de pensamento reflexivo, é esperado que haja divergências e discussões na universidade, mas não são alguns atos isolados que a caracterizam, e não é por conta deles que a instituição deve ser punida com corte de recursos ou qualquer outro tipo de ameaça velada.

A universidade pública brasileira é relativamente jovem, mas tem demonstrado sua importância para o País ao formar profissionais e contribuir para transformar a sociedade. Cabe a ela, cada vez mais, prestar contas, ser transparente e fazer contínua avaliação de suas ações, sempre à luz de sua autonomia. Os tempos atuais são uma prova inconteste desta necessidade, uma vez que ações intempestivas dos governantes podem ameaçar a desconstrução de um sistema de excelência erguido ao longo de tantas décadas. Outros tipos de agressões externas já são vistos, como a criação de uma CPI pela Alesp para investigar suposto aparelhamento ideológico nas universidades públicas paulistas ou a sugestão de cobrança de mensalidades.

Esta oposição às instituições públicas, às ciências básicas e às humanidades representa a ignorância e o obscurantismo, e é surpreendente como as promessas de valorização da educação nas campanhas políticas perdem rapidamente, após as eleições, a aderência ao discurso. Nesta conjuntura, a resposta incisiva da universidade pública, com o respaldo da sociedade, é o único caminho para demonstrar aos políticos a relevância deste tipo de instituição para a nação. A universidade pública precisa explicar que ela não é uma “torre de marfim”, insensível a questões advindas de seu entorno. De outro lado, deve ter a coragem de reivindicar o livre exercício da reflexão crítica sobre o mundo e a sociedade, sem pressões de natureza econômica, ideológica ou social. É nesse limiar que a defesa incondicional das universidades públicas perante os políticos e a sociedade se impõe. Se a universidade puder cumprir sua missão de forjar mentes esclarecidas e continuamente se renovar, e os governantes entenderem que a ciência de hoje é a tecnologia de amanhã, o País poderá se candidatar a ser uma potência no futuro. Será que a opção é não fazer ciência, não criar tecnologia e não acreditar que o homem chegou à Lua?

 

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