O verbo cuidar está em crise: o resgate da dimensão afetiva é essencial para o futuro da nossa espécie

Por Vivian Blaso Souza Soares César, pesquisadora colaboradora do USP Cidades Globais, e Pedro Roberto Jacobi, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP

 Publicado: 04/06/2024
Vivian Blaso – Arquivo pessoal
Pedro Roberto Jacobi – Foto: IEA

“Civilizar a Terra, transformar a espécie humana em humanidade torna-se o objetivo fundamental e global de qualquer política que aspire não só ao progresso, mas também à sobrevivência da humanidade.

Edgar Morin

Segundo o relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre o Estado do Clima na América Latina e no Caribe, 2023 foi o ano mais quente já registrado. O documento também observa que o nível do mar na região atlântica elevou-se a um ritmo mais acelerado do que a média global, comprometendo cidades costeiras. Adicionalmente, o relatório enfatiza a importância de melhorar as previsões meteorológicas e de antecipar a emissão de avisos para salvaguardar vidas.

Nunca foi tão urgente compreender as dimensões relacionadas ao verbo cuidar. Esse verbo está associado a zelar, guardar, preocupar-se, tratar e curar. Por vezes, seu significado tem sido negligenciado desde a pandemia e, mais recentemente, nos enfrentamentos relacionados à crise climática, vivenciado nas inundações ocorridas no Rio Grande do Sul.

Outro dado importante a ser considerado está relacionado à saúde e ao clima. De acordo com projeções mencionadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 2030 e 2050, as mudanças climáticas poderão resultar em cerca de 250 mil mortes adicionais por ano, devido a fatores como subnutrição, malária, diarreia e estresse térmico. Além disso, estima-se que os custos diretos para a saúde devido a esses danos fiquem entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões anualmente até 2030. As regiões com infraestruturas de saúde mais frágeis, especialmente em países em desenvolvimento, enfrentarão maiores dificuldades sem apoio externo adequado para preparação e resposta.

Em artigo recente publicado no jornal Nexo Políticas Públicas, Pedro Jacobi e Eduardo Gresse destacam a relevância das eleições municipais e do controle social no combate à crise climática, dada a proximidade com as comunidades afetadas. No Brasil, apesar do engajamento de municípios em redes de ação climática desde a elaboração de planos para mitigação e adaptação às mudanças climáticas, são poucas as cidades que implementam ações concretas. Mesmo as cidades pioneiras, como São Paulo, estão distantes de alcançar um modelo de desenvolvimento sustentável e resiliente às mudanças climáticas.

Compreendendo que as cidades são potencialmente os locais para o resgate do cuidar, e com a proximidade das eleições municipais, que ocorrerão em 2024, não há mais como evitar que essa temática seja o alvo das discussões para o enfrentamento das perdas e danos já evidentes nos contextos socioambientais.

O “cuidar” reflete essa necessidade diante do sistema mundial atual, acometido pelas policrises multidimensionais que atravessamos, como mencionado por Edgar Morin em seu ensaio É hora de mudarmos de via as lições do coronavírus. Mas para que tais mudanças ocorram, será necessária uma mudança sistêmica e paradigmática nas dimensões política, econômica, social, cultural e afetiva, com ênfase na regeneração da biosfera, ou seja, na regeneração da vida.

Nesse sentido, torna-se cada vez mais necessária a capacidade de identificarmos as forças de mudança contrárias à destruição planetária, traçar as novas possibilidades de reinventarmos o futuro que queremos diante da crise climática, que ficaram ainda mais nítidas a partir da pandemia ocasionada pela covid-19, que acelerou os processos de mudanças e nos colocou em xeque quanto aos impactos do nosso processo civilizatório até então.

Diante de tais perspectivas, é preciso tratarmos do impacto da ação humana sobre o planeta, nos conscientizarmos do nosso enraizamento cósmico-biológico enquanto seres humanos e reconhecermos que todos nós somos integrantes do planeta e, por isso, somos todos agentes construtores do futuro.

Ao refletirmos sobre essas dimensões acerca das cidades sob a óptica do que vem sendo observado no Cidades Afetivas, um observatório dos movimentos afetivos que ocorrem nas cidades, sob os princípios do bem viver, convivialismo e da vida em comum, princípios que enfatizam a harmonia entre os indivíduos e o ambiente, visando não só ao bem-estar individual, mas também ao coletivo, destacamos que a dimensão afetiva e a implementação desses princípios em políticas urbanas podem ser transformadoras.

Nessa perspectiva, é possível identificarmos a ansiedade climática como uma preocupação crescente relacionada aos impactos emocionais das mudanças ambientais. No artigo Climate anxiety: Psychological responses to climate change (Ansiedade climática: Respostas psicológicas às mudanças climáticas, tradução livre), publicado no Journal of Anxiety Disorders por Susan Clayton em 2020, destaca-se a necessidade de atenção clínica para esse fenômeno. A ansiedade climática é descrita como uma resposta legítima às ameaças percebidas, sendo influenciada pela intensidade e pela frequência crescentes de eventos climáticos extremos e mudanças graduais no ambiente, tais como aumentos na temperatura média, elevação do nível do mar e alterações nos padrões de precipitação, agora reconhecidos como um problema que também afeta profundamente o bem-estar humano. Seus impactos vão desde ameaças à saúde física, como o calor e a propagação de doenças transmitidas por água e vetores, até os efeitos de desnutrição, desastres naturais, migração forçada e conflitos — fenômenos que estão interligados às mudanças climáticas. Além disso, grupos vulneráveis, como povos indígenas, idosos, crianças e pessoas com problemas de saúde preexistentes, enfrentam riscos maiores devido à maior exposição e à falta de poder político ou econômico.

Clayton enfatiza que as consequências da saúde mental relacionada à ansiedade climática poderão aumentar, como depressão, abuso de substâncias, violência doméstica, além de afetar o comprometimento cognitivo em idosos ou problemas comportamentais (relacionados à impulsividade e problemas de atenção) em crianças, uma vez que são mais vulneráveis aos seus efeitos devido à capacidade de autorregulação térmica no caso de calor excessivo, por exemplo.

Considerar a afetividade como uma componente central no planejamento urbano pode transformar as cidades em espaços mais acolhedores e resilientes, onde o bem-estar coletivo e individual caminham lado a lado com o desenvolvimento sustentável.

A pesquisa “Cidades Afetivas do local para o global: aplicação e elaboração de métricas para mensuração de indicadores de Cidades Afetivas na Prefeitura do Campus USP da Capital (Pusp-C)”, conduzida por Vivian Aparecida Blaso Souza Soares César e supervisionada pelo professor Pedro Roberto Jacobi, que ainda está em fase de desenvolvimento, vem trabalhando nessa direção de abarcar, por meio de indicadores de afetividade, quatro metadimensões: Saúde e Bem-Estar, Relações de Afetividade e Convivialidade, Engajamento Social e Sustentabilidade e Dimensão Cultural e Ambiental. Estas são condicionantes fundamentais para a coconstrução de bioterritórios regenerativos, resilientes e saudáveis que, analisados em conjunto, oferecem uma visão abrangente sobre como diferentes aspectos da vida urbana contribuem para a construção de uma “cidade afetiva”, na qual a afetividade é valorizada como parte essencial da experiência urbana, promovendo um ambiente mais acolhedor e inclusivo para todos os seus habitantes.

O foco em afetividade como uma métrica de qualidade de vida urbana destaca a necessidade de abordagens integrativas que considerem o bem-estar emocional e social como componentes centrais do planejamento e da gestão das cidades. A implementação de suas recomendações poderá levar a um ambiente urbano mais inclusivo e solidário, alinhado aos valores de bem viver, convivialismo e vida em comum, resgatando os princípios da ética do cuidado de si e dos outros, como diz Edgar Morin em seu ensaio Despertemos! Um chamado para o despertar das consciências!” – “uma política plenamente humanista”, que incorpore, por exemplo, a despoluição e cuidado das águas, a dimensão urbana que abarque a convivialidade, a dimensão energética que priorize as matrizes limpas e renováveis, a política agrícola que priorize a agricultura sustentável, a economia que priorize a solidariedade, a educação que incentive o enfrentamento dos problemas vitais e uma política civilizacional que priorize o reconhecimento da plena humanidade do outro.

Nesse contexto, a afetividade é essencial como uma força transformadora que poderá remediar as falhas de um sistema por vezes focado apenas no crescimento econômico e eficiência. O “cuidar” deve ser visto não apenas como um ato ou uma responsabilidade, mas como uma habilidade a ser cultivada e uma qualidade a ser valorizada em todos os níveis da sociedade. Resgatar o verdadeiro significado de cuidar é uma resposta que se faz cada vez mais necessária e urgente para as crises emocionais, sociais e ambientais que enfrentamos hoje.

A crise do cuidar é, portanto, um chamado à ação para todos nós, um lembrete de que a regeneração de nossos ambientes começa com a regeneração de nossas atitudes e práticas. A dimensão afetiva, portanto, não deve ser negligenciada, pois sem ela não nos tornaríamos humanos, tampouco teríamos avançado em termos de conhecimento e ciência. É graças à afetividade que é possível imaginarmos um mundo novo, construirmos utopias e criarmos sentidos coletivos para a vida.

É por meio da afetividade que podemos experimentar novidades através dos sentidos, como Antonio Damásio destacou em sua obra E o Cérebro Criou o Homem, onde ressalta que a afetividade permite uma conexão profunda com o ambiente e com os outros seres, o que é essencial para a sobrevivência da espécie humana, uma vez que formamos nossos laços sociais e criamos estruturas comunitárias que sustentam não apenas a ordem social, mas também nosso bem-estar emocional e físico, base das sociedades e culturas que nos conectam em escala planetária.

Dessa forma, fica evidente que cuidar dessa dimensão em nossas cidades e políticas urbanas não é apenas uma questão de melhorar a qualidade de vida, mas uma necessidade evolutiva e existencial para o futuro da nossa espécie.

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