O culpado sumiu! — Reflexões sobre orações ergativas

Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH/USP

 06/12/2023 - Publicado há 3 meses
Marcelo Módolo – Foto: Arquivo pessoal
Henrique Braga, doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela FFLCH/USP – Foto: Arquivo pessoal

Um caixa eletrônico explodiu

O mote deste artigo surgiu quando um destes articulistas que vos escrevem assistia a um telejornal matutino e a apresentadora usou a seguinte frase: “Um caixa eletrônico explodiu na Avenida X, na zona sul de São Paulo”. Mas caixas eletrônicos são como bombas? Eles podem simplesmente explodir?

Metáforas à parte, caixas eletrônicos são utilizados em todo o mundo para permitir que as pessoas acessem suas contas bancárias e realizem transações de maneira conveniente e segura. Ao contrário das bombas, que têm a finalidade de causar danos, são projetados para fornecer serviços bancários e não costumam representar ameaça à segurança pública (quando usados de maneira adequada…). Ultimamente, porém, ou eles passaram a explodir, ou o verbo explodir é que anda hipertrofiando alguns usos. Vejamos:

Um caixa eletrônico explodiu na madrugada desta sexta-feira (22), no distrito de Taiaçupeba, em Mogi das Cruzes.
Caixa eletrônico explodiu e destruiu o portão da minha residência.
O caixa eletrônico explodiu e, de acordo com populares, por pouco não houve uma explosão maior e afetou o posto.

Nesses três casos, o sujeito sintático de “explodir” é paciente da ação e afetado por ela. Em linguística, tais construções são chamadas de ergativas.

Mas o que é essa tal ergatividade?

O processo de ergativização realiza-se por meio de construções sintáticas com verbos utilizados como intransitivos (aqueles que, na simplificação escolar, não “pedem” complemento, como na oração “A dinamite pifou”), que, nesses casos, projetam um termo não agente para ocupar a função sintática de sujeito.

Nessas construções ergativas, portanto, o paciente é alçado para a posição de sujeito, contrariando certo senso comum que confunde “sujeito” com “aquele que pratica a ação”. Não são casos assim tão raros: “o pneu furou”, “o sorvete derreteu”, “a vidraça quebrou”, “a porta fechou”, “o copo entornou”, “o carro quebrou”, “a manteiga derreteu” são exemplos de construções ergativas.

Voltando ao exemplo inicial, pode-se dizer que, em casos como “o caixa eletrônico explodiu”, temos uma construção ergativa. Nesse tipo de enunciado, o sujeito não corresponde nem a quem produziu a explosão (“ladrões explodem caixa eletrônico”), nem ao artefato explosivo (“bomba explode caixa eletrônico”), mas ao paciente afetado pela explosão.

Topicalização: o mais importante vem primeiro

“Ferrari do jogador Romário bate em poste em Niterói.”  Esse curioso título, que estampou o noticiário quando o camisa 11 do Tetra jogava pelo Vasco da Gama, ajuda a compreender o que pode motivar o uso dessas construções menos prototípicas, em que o sujeito do verbo não tem papel semântico de agente.

No exemplo, a menos que se tratasse de um carro autônomo (não era o caso), podemos inferir que a Ferrari tinha um condutor e este sim a fez colidir contra um poste. Com base no título, leitores razoáveis pensariam: “Olha o Romário aprontando…”. Errariam: na ocasião, o atleta emprestara o veículo a um amigo, que ocasionou o acidente.

Eis a magia: “Amigo de Romário bate Ferrari do atleta” parece uma chamada muito menos sedutora do que “Ferrari do jogador Romário bate em poste […]”. Com a segunda opção, o carro de luxo e o polêmico jogador ganham destaque e garantem maior audiência à publicação – algo que pode ser considerado uma espécie de click bait.

No caso dos caixas eletrônicos que explodem, parece que a escolha pela construção ergativa se dá por razão semelhante à da Ferrari que bateu no poste: alçar o caixa eletrônico à posição de sujeito ajuda o leitor a “catalogar” o episódio em uma categoria de crimes relativamente novos, a saber, a explosão de caixas eletrônicos. Mais uma vez, o sujeito é uma espécie de “tópico” do enunciado (sem que seja necessariamente o agente), escolhido pela capacidade de angariar atenções.

Não sei quem foi

Construções ergativas podem funcionar como estratégia argumentativa para omitir o culpado. “A manteiga derreteu” é muito menos incriminador do que “esqueci a manteiga fora da geladeira”. “O vidro quebrou” pode ser uma versão discreta de “João chutou a bola na vidraça”. “A lei mudou” seria uma versão chapa branca de “os parlamentares mudaram a lei”.

Conforme já dissemos em textos anteriores, usuários da língua proficientes devem ser capazes de compreender que a expressão linguística da realidade é sempre perspectivada. Traduzir o mundo em linguagem implica posicionamento, ponto de vista, e diferentes construções sintáticas podem ser mobilizadas em função disso. A ergatividade é um entre tantos exemplos.

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