Joe Biden tem um desafio histórico pela frente nos Estados Unidos

Por Luiz Roberto Serrano, jornalista e superintendente de Comunicação Social da USP

Luiz Roberto Serrano – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Os desafios para o democrata Joe Biden na Presidência dos Estados Unidos serão enormes, à altura de momentos que redefiniram a história daquele país. A agenda é ampla e complexa.

Abrange a mobilização para enfrentar o desafio sanitário de derrotar a pandemia; na política, o avanço de pautas sociais e comportamentais contemporâneas, que correspondam aos anseios da ampla coalização que o elegeu e manter um mínimo de convivência bipartidária; a dinamização da economia, superando a crise gerada pela pandemia, acelerando a sua modernização e o reequilíbrio da distribuição de renda no país; a reconstrução dos laços com a comunidade internacional historicamente aliada dos Estados Unidos.

Além dessas tarefas, por si só gigantescas, Biden terá que lidar com as cicatrizes deixadas na sociedade estadunidense pela passagem de Donald Trump pela Casa Branca, que espelhou e aprofundou divisões históricas nunca superadas – e acabou impichado duas vezes pela Câmara dos Deputados, uma marca inédita nos Estados Unidos.

Um triste retrato

A recente invasão do Capitólio pela turba incitada pelo ainda presidente Trump, causa de um segundo processo de impeachment, foi um triste instantâneo da divisão que perpassa os Estados Unidos. Um triste retrato de como cresceu a belicosidade com que cidadãos republicanos, que foram atraídos pela sua pregação, enxergam os compatriotas democratas cujos representantes se alternam na Presidência do país desde Roosevelt. A eleição de Barack Obama certamente turbinou essa belicosidade, apesar dele sempre ter respeitado o bipartidarismo na condução de seu governo e de ter adubado o caminho da recuperação da economia, depois da crise 2008, que Trump se apropriou como iniciativa sua.

Trump teve nada menos do que 74 milhões de votos na última a eleição, mesmo depois do show de horrores que estrelou ao lidar com as ameaças da covid-19, que hoje soma avanços inimagináveis em solo estadunidense. Mesmo depois que desrespeitou a liturgia do cargo, com atitudes afrontosas com parcelas da sociedade. Mesmo depois que, na prática, transformou seu slogan America First em America Alone, solapando a teia de relações mundiais hegemônicas construída pelos Estados Unidos desde a vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial.

Ou seja, Trump foi apoiado por quase metade do eleitorado estadunidense, que ainda o ouve diariamente deslegitimar a vitória de Biden, reconhecida por todas instâncias legais dos Estados Unidos, sem qualquer evidência que ampare seu discurso e com respaldo de parcela significativa dos republicanos no Congresso. Ao adotarem tal discurso, Trump e seus seguidores republicanos deslegitimam não só a eleição, mas bases da democracia dos Estados Unidos, um fantasma que Biden terá que exorcizar.

Uma sociedade em mutação

O fato é que a sociedade estadunidense vive uma acelerada mudança populacional que fará com que os considerados brancos passem a ser minoria por volta da década de 2040, em função do aumento da população principalmente de origem latina e afrodescendente. As transformações econômicas e a migração de empregos fabris para outros países, especialmente a China, deixaram para trás os trabalhadores das indústrias tradicionais, desalojando-os de seu espaço no sonho americano. A economia dos Estados Unidos está diante do grande desafio de ser returbinada, sob a ameaça de perder a hegemonia mundial para a chinesa. Espraiam-se, ao longo do tempo, tendências comportamentais e culturais que incomodam a atual maioria branca, com fortes raízes religiosas, especialmente as instaladas nas áreas rurais, majoritariamente no meio oeste conservador.

Esse é o caldo de cultura em que Donald Trump ascendeu à Presidência, ajudado ainda pela obsoleta legislação que dá primazia aos votos de um Colégio Eleitoral frente ao sufrágio popular que deu maioria à sua adversária, a democrata Hillary Clinton.

Esse é o caldo de cultura em que Joe Biden assume a Presidência dos Estados Unidos.

A seu favor conta a sensibilidade e a empatia de uma pessoa que convive com a dolorosa perda de entes queridos, como a ex-esposa e dois filhos. Conta, também, a sua longa experiência em Washington, onde acumula mais de 45 anos de vivência, no Senado e na vice-presidência dos Estados Unidos, durante oito anos. Conta, ainda, a maioria legislativa nas duas casas do Congresso, conquistada no photo chart no segundo turno das eleições ao Senado na Georgia. A vice-presidente eleita Kamala Harris cumprirá importante papel, não só presidindo o Senado, mas como elo de ligação com os setores mais progressistas que apoiaram a chapa democrata.

Quando se dá, a mudança é lenta

Os Estados Unidos são uma sociedade em que a mudança se dá, quando se dá, lentamente.

O presidente Ulysses Grant, o general que ganhou a Guerra de Secessão e nos seus mandatos (1869-1877) tentou implementar a Restauração, que consistia na pacificação e reagregação do Sul derrotado ao Norte vitorioso, principalmente a implementação de uma legislação que garantisse os direitos da população negra recém liberta da escravidão não conseguiu avançar.

A Lei dos Direitos Civis, que garantiu direitos à população afro-americana, inclusive o de votar só foi aprovada em 1964, quase 100 anos depois, sob a presidência de Lyndon Johnson, o vice do assassinado John Kennedy, um período conturbado em que a Guerra do Vietnã começava a agitar a juventude norte-americana. O direito de voto dos afro-americanos ainda hoje é burocraticamente obstaculizado em muitos distritos eleitorais ao longo do país. Os constantes e violentos embates entre a polícia e a população afro-americana se repetem com espantosa frequência.

Franklin Delano Roosevelt, assumiu a presidência dos Estados Unidos em 1933 (mesmo ano em que Hitler se tornou chanceler na Alemanha). Com as várias versões do seu New Deal e engajando os EUA na 2ª Guerra Mundial, depois que os japoneses lhe fizeram o favor de deixar os isolacionistas sem discurso, construiu as bases para uma sociedade capitalista mais funcional e democrática tirando-a do desastre semeado pela Depressão de 1929. Seu sucessor, Harry Truman, completou o quarto mandato de Roosevelt quando este faleceu, e reelegeu-se para o seguinte. Mas, no final de 1952, em plena guerra da Coreia, os eleitores estadunidenses preferiram eleger o general Dwight Eisenhower, comandante supremo dos aliados no front europeu durante a 2ª Guerra Mundial, candidato pelo partido Republicano. No seu período presidencial, floresceu o macarthismo, comandado pelo senador Joseph McCarthy, que em nome do combate ao comunismo, num momento histórico que a União Soviética disputava influência mundial com os Estados Unidos, destruiu carreiras e reputações.

Biden tem à sua frente até mesmo o embate, que muitos chamam de nova Guerra Fria, mas se dá num campo muito mais sofisticado do que a corrida armamentista e política com a então União Soviética. Diferentemente, a disputa com a China se dá no campo da tecnologia, do comércio, dos investimentos ao redor do mundo, da diplomacia e na competição de qual será a maior economia do mundo em décadas.

Ou seja, nos fronts interno e externo o novo presidente dos Estados Unidos terá que se inspirar no que de melhor realizaram os seus antecessores na Presidência daquele país, ou até mais, para mantê-lo ainda como um paradigma para o mundo ocidental nas próximas décadas, apesar de todas as críticas e controvérsias que sua história e atuação no cenário mundial geraram e geram. E sua ação terá que ir muito além do mundo político, de Washington. Terá que influenciar e inspirar diretamente toda a sociedade estadunidense iluminando suas escolhas de futuro.


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