Diário de um câncer – De 0 a 100km/h em quatro meses alucinantes – parte 1

Por Valéria Dias, jornalista e subeditora de Ciências do “Jornal da USP”. Em dezembro de 2023 foi diagnosticada com câncer ginecológico (sarcoma do estroma endometrial)

 22/04/2024 - Publicado há 1 mês
Valéria Dias - Foto: Arquivo pessoal

Capítulo 3

Se aquilo que eu vivi de 20 de outubro a 29 de fevereiro fosse um carro, ele seria uma Ferrari que vai de zero a 100 quilômetros por hora (Km/h) em menos de dois segundos. Tudo aconteceu tão rápido que até hoje, ao lembrar, fico zonza:

Recebi o diágnóstico de câncer, fiz quatro biópsias, três ressonâncias magnéticas, duas tomografias, um PET-CT, fadiga do câncer, dor oncológica, morfina na veia, infecção urinária, desisti do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp) e passei meu tratamento para o A.C. Camargo Cancer Center, tive um bixigoma, primeira internação hospitalar, sonda urinária, implantação de um cateter venoso (port-a-cath), uma forte reação alérgica interrompeu a primeira quimioterapia (carboplatina + paclitaxel), uma nova análise imunohistoquímica identificou o tumor como sarcoma do estroma endometrial, com consequente mudança de medicação (doxorrubicina + ifosfamida), conclui meu primeiro ciclo quimioterápico, constipação grave, duas lavagens intestinais, efeitos colaterais da quimio, uma crise de neutropenia, segunda internação hospitalar, queda de cabelo, raspagem do cabelo (fiquei careca), tirei licença do trabalho, pedi auxílio-doença ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e descobri que estou com metástase óssea e no pulmão.

Mas também recebi uma ótima notícia: o tumor tinha cerca de nove centímetros quando eu comecei a quimioterapia, em fevereiro. Na tomografia que fiz após a segunda internação, ele havia diminuído para sete centímetros.

Talvez eu tenha entrado para o mundo dos pacientes oncológicos em 18 de dezembro, quando fiz minha primeira ressonância magnética, exame de imagem que nunca tinha feito antes e que permite a detecção de vários tipos de doença, inclusive tumores. Muitos outros exames semelhantes seriam feitos nos meses seguintes e foi uma espécie de preparação para o que estava por vir. Nessa primeira ressonância, o laudo apontou um tumor com cerca de seis centímetros, sem metástase.

No dia 22 de dezembro fui ao Icesp, para a primeira consulta. Na palestra de acolhida, eles explicaram o funcionamento do hospital. Em caso de dor ou qualquer outro problema relacionado ao câncer, por exemplo, o paciente tem à disposição o Centro de Atendimento de Intercorrências Oncológicas (Caio), um setor que funciona 24 horas. Já na farmácia, podemos retirar todos os medicamentos receitados pelos médicos.

Na sequência, passei na consulta com um casal de ginecologistas. Respondi a várias perguntas sobre a minha saúde. Depois eles realizaram o exame ginecológico e coletaram material para a terceira biópsia (a primeira foi feita num laboratório de análises clínicas e a segunda no Hospital Universitário da USP). Pelo exame de toque eles deduziram que o tumor tinha cerca de sete centímetros. O próximo passo seria aguardar o agendamento com o oncologista, após a realização de uma ressonância magnética e uma tomografia, ambas agendadas para a primeira semana de janeiro, além de consulta com nutricionista.

Nos dias que antecederam o Natal, aproveitei para comprar os presentes. Combinei com meus pais que passaria a data com eles e fiquei encarregada de preparar alguns pratos da ceia. Até então eu não sentia dores associadas ao câncer. O único incômodo era o fato de o tumor soltar uma secreção que eu resolvia trocando de absorvente algumas vezes ao dia. Era como se eu estivesse menstruada. Eu sentia um pouco de dor, uma espécie de cólica, parecida com a menstrual, mas era algo leve, e eu mantinha sob controle tomando alguns comprimidos de dipirona ao longo do dia.

Na última semana no ano, tive o primeiro contato com a chamada fadiga oncológica, um cansaço extremo que pode afetar pessoas com câncer, como se a nossa energia vital desaparecesse. Vi uma pessoa comentando outro dia: “É como se um dementador, personagem do filme do Harry Potter, sugasse a nossa alma e a levasse embora”. Era exatamente assim que eu me sentia. Essa fadiga pode durar alguns minutos ou horas, mas depois passa. Foi difícil preparar os pratos natalinos, mas com um certo esforço, tudo deu certo. Também senti muito cansaço na passagem de ano.

Com o passar dos dias, tanto a fadiga oncológica como as dores foram aumentando, mas até então a dipirona resolvia. Na primeira semana de janeiro, fiz os exames de imagem no Icesp e fiquei aguardando o agendamento da consulta com o oncologista. Estava feliz porque durante o mês inteiro de janeiro eu estaria de férias e imaginei que ao voltar ao trabalho após o feriado do dia 25 eu já teria passado pela primeira sessão de quimioterapia. Ledo engano.

Como determinar o ponto em que uma dor se torna insuportável?

Tudo mudou no dia 15 de janeiro. No período da manhã, eu estava bem, sem cansaço, sem dor, e tranquilamente organizei um dos lados do meu guarda-roupas. Após almoçar, comecei a sentir uma dor um pouco mais forte. Na hora achei que estava menstruando, o que justificaria a cólica. Eu já havia pensado sobre dor oncológica, mas achava que era algo muito distante. Será que aconteceria comigo? Pensava que não. Ainda não havia me dado conta de que o tumor era extremamente agressivo, e que estava crescendo numa velocidade alta, invadindo espaços dentro do meu abdomen. A qualquer momento ele atingiria um nervo e isso causaria uma dor intensa.

Com o passar das horas, a dor foi aumentando, mesmo tomando vários comprimidos de dipirona. Não tinha nenhum outro analgésico. Então tomei a decisão de que iria ao Caio/Icesp caso ficasse muito forte. Mas como determinar que a dor está tão forte que preciso ir ao hospital tratar dela? Como determinar o momento em que a dor deixa de ser suportável e se torna insuportável?

Ao longo da vida sempre sofri muito com cólicas menstruais. Talvez seja algo ainda considerado “natural” e até previsível da saúde feminina. E talvez por isso tenha aprendido a lidar com elas usando medicamentos específicos. E muitas vezes, na ausência desses medicamentos, me vi sofrendo de dores horríveis, mas continuava lá, firme e forte, simplesmente aguentando.

Naquele 15 de janeiro eu não fazia ideia qual era o meu limiar aceitável de dor e isso se tornou um problema. Porque eu acabei aguentando muito mais do que eu poderia aguentar, a ponto da dor interferir no meu raciocínio. À noite, acabei “apagando”. Acordei de madrugada. Até hoje não sei se dormi ou se desmaiei de dor. Eu fico com a segunda opção. Pela manhã, a dor havia diminuído, mas achei melhor ir ao hospital. Avisei minha irmã e ela foi comigo.

Chegando no Caio, me perguntaram o quanto de dor eu senti. Numa escala de zero a 10, sendo 10 uma dor insuportável, respondi que no dia anterior, com certeza seria sete, mas que, naquele momento seria um cinco ou seis. Depois de um tempo fui encaminhada para a enfermaria. Quando a enfermeira chegou, avisou que o médico havia receitado vários medicamentos, entre eles morfina.

Confesso que ouvir a palavra morfina mexeu comigo. Eu nunca havia tomado essa medicação antes e, no meu estado, de pessoa com câncer, representava estar passando (ou ter passado) por uma dor muita forte causada pelo tumor. Foi ali, na enfermaria do Caio, junto de outros pacientes com a doença, que a realidade de estar com câncer e de precisar de cuidados específicos ficou muito clara pra mim. Foi lá que eu ouvi gente gritando de dor na enfermaria ao lado. Vi pessoas com a expressão de dor física, mas elas não falavam, nem gritavam nem reclamavam. Simplesmente sentiam, caladas. E aí me questionei se um dia eu gritaria de dor também ou se sofreria calada.

A enfermeira chegou e foi com muita gratidão que recebi a dose de morfina direto na veia, o que aliviou a minha dor em instantes. Agradeci à Ciência e à Medicina pela existência do medicamento e de outros similares que aliviam a dor de doentes. E me arrependi profundamente por não ter ido antes ao hospital. Uma coisa ali eu aprendi: a dor do câncer talvez venha, mas eu não sou obrigada a sentir essa dor passivamente, é preciso buscar uma ajuda.

Lembrei então de minha bisavó. Morreu de câncer de mama na década de 1960, no interior de Alagoas, sem acesso a cuidados médicos ou a uma injeção de morfina. O tumor expandiu para além dos seios e rompeu a pele, ficou uma ferida aberta que exigia curativos constantes. Foi minha avó materna quem cuidou dela. E, segundo dizem, minha bisavó nunca reclamou de dor. Minha outra avó, a paterna, também morreu de câncer de mama, no início dos anos 1980, em condições semelhantes. Tive uma prima que morreu pela mesma doença, mas ela teve acesso a hospitais e tratamentos para controle de dor. Lembrei dela com carinho, e fiquei feliz por ter tido assistência médica adequada.

A morfina tirou minha dor física, mas não a emocional. Naquele momento, não sabia o que aconteceria comigo, porque não tinha controle nenhum sobre o crescimento do tumor, se os tratamentos que viriam dariam certo e por não saber o que iria enfrentar dali pra frente. Não sabia sequer qual seria o meu tratamento e quando ele começaria. Era como adentrar um túnel escuro na esperança de ver a luz no final. Olhando ao redor, me sentia acolhida, não apenas pela equipe do hospital, mas também, de forma indireta, pela presença de outros pacientes que estavam com a mesma doença que eu. Não conhecia ninguém, mas me senti numa espécie de irmandade: “Todos aqui estão com câncer, e eu sou um deles”.

No dia seguinte, saí do Caio e fui direto para a Fármácia do Icesp buscar os comprimidos de tramadol indicados pelo médico. Achei que estaria protegida contra novas dores. Me enganei.

Um bixigoma pra chamar de meu: 1.200 mililitros

Na semana seguinte, em 25 de janeiro, fui ao Icesp novamente porque comecei a sentir ardência para urinar e achei que pudesse estar com uma infecção urinária. Os exames confirmaram as minhas suspeitas. Fui medicada e liberada para ir para casa, no dia seguinte, com orientação para retornar para avaliação dali a dois dias. Chegando em casa, comecei a beber água e tudo corria bem até o final da tarde. Em determinado momento, percebi que eu simplesmente não conseguia mais urinar. Ao mesmo tempo, comecei a sentir dores no baixo ventre que foram aumentando gradativamente e em pouco tempo se tornaram absolutamente insuportáveis, que fizeram a dor da semana anterior parecer coisa pouca. Era uma dor intensa, aguda, abaixo do umbigo, e que atingia até a região da uretra: eu sentia como se tudo fosse explodir. Só conseguia me contorcer e gemer. Foi a pior dor que senti até hoje.

Foi nesse momento que decidi ir para outro hospital. Optei pelo A. C. Camargo Cancer Center, coberto pelo meu convênio. Meus sobrinhos me levaram até lá de carro. Moro da zona oeste de São Paulo e o hospital fica na região da Liberdade. Atravessar a cidade esburacada com uma dor intensa, o carro chacoalhando enquanto eu me contorcia foi a experiência mais horrorosa que eu passei na vida. Achei que fosse morrer. Na verdade tive certeza de que estava morrendo.

Quando eu cheguei ao A. C. Camargo, a equipe médica identificou que eu estava com bixigoma: é quando a bixiga aumenta de tamanho devido ao acúmulo de urina. E porque eu não conseguia urinar? Porque o tumor estava crescendo e apertando toda a região abdominal. Apertou tanto que estava impedindo a passagem da urina da bexiga até a uretra.

Uma sonda foi introduzida até a bexiga para eliminar a urina. A quantidade de líquido que saiu foi de 1.200 mililitros (ml), um volume absurdamente alto, como comprovei depois falando com os enfermeiros: todos ficavam chocados com essa quantidade, pois a bexiga de um adulto consegue acumular entre 300 a 500 ml, aproximadamente.

A partir dali, a sonda urinária seria a minha companheira de aventuras por dois meses: somente a retirei na segunda quinzena de março. Segundo a equipe médica, enquanto eu não começasse um tratamento contra o tumor, as chances de eu voltar a ter um bixigoma eram muitas altas, mas isso não ocorreria com o uso da sonda.

Um profissional da oncologia foi acionado. A equipe decidiu pela minha internação, assim poderiam analisar melhor o meu caso e estudar o melhor tratamento para o tumor. Achei que ficaria internada por alguns dias apenas. Mas muita coisa aconteceu nesse meio tempo e a alta médica somente veio quase um mês depois, em 15 de fevereiro. Mas a alegria durou pouco porque tive uma nova internação, no dia 20, por conta de uma neutropenia pós-quimioterapia (baixa contagem de neutrófilos, células do sistema imunológico do sangue).

Mas essa história fica para o próximo capítulo.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.