Moda combina com museu? A beleza da arte de um judeu e a busca pela paz

Por Eva Alterman Blay, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 Publicado: 20/05/2024

Visitei, no Museu Judaico de São Paulo, a extraordinária exposição do estilista, costureiro, artista Alexandre Hercovith. O local, na Bela Vista, é a antiga Sinagoga Beth-El, uma bela construção dos anos 1930 recém-renovada. No alto do edifício há uma cúpula que lembra uma quipá (aliás, o Papa Francisco cobre a cabeça com a quipá assim como os judeus religiosos).

A Beth-El viveu por meio século voltada para liturgias públicas judaicas, continuando uma tradição de dois mil anos. Hoje, não é mais uma sinagoga. Explico: para os judeus, o edifício de uma sinagoga não é um lugar sagrado, o sagrado é a Torá, o livro onde estão manuscritas as rezas; imigrantes, quando chegaram ao Brasil, comemoravam as grandes festas como o Iom Kipur (Dia do Perdão), o Ano Novo (Rosh Hachana), ou a Páscoa em um lugar qualquer, um quarto, uma sala, uma casa, pois o importante era reunir 11 homens para coletivamente ler as escrituras. Posteriormente, fixados em uma cidade, quando tinham condições econômicas, construíam uma sinagoga que, além de local para “rezar”, era usada como escola, espaço de reuniões e festas, biblioteca etc.

Pois foi na Sinagoga Beth-El que no último dia 20 de abril foi inaugurada a exposição da múltipla obra de Alexandre.

Esparramando-se por todo um andar, uma imensa variedade de peças estão expostas. São dezenas de vestidos, casacos, blusas e mil outros objetos. Rompendo o habitual limite de vitrines, as peças nessa exposição estão tão perto dos visitantes que temos de resistir em tocá-las. Cada peça revela um desenho original, formas inesperadas, tecidos finíssimos ou grossos, plásticos transparentes, pedaços de várias roupas costuradas entre si. Trajes usados por elegantes mulheres, por artistas no palco, performancers, drag queens, derrubando conservadores padrões formais, introduzindo cores, pedras, missangas, metais, pinturas a mão que parecem sangue. Vestidos longos, curtos, supercurtos, chapéus, cartolas, sapatos com solados de vários centímetros, de couro, plástico; colares, enfeites, e até o carpete é antiga obra do artista. Distribuídos pelas paredes, muitos pequenos vídeos dos antigos desfiles e eventos dos 30 anos da história de um menino judeu do Bom Retiro.

Alexandre, 52 anos, filho de segunda geração imigrante, aprendeu a costurar com a mãe, que tinha uma pequena confecção. Aos 22 anos causou tumulto pela irreverência ao se graduar na Faculdade de Moda Santa Marcelina.

Qual a relação entre esta exposição, a Sinagoga Beth-El e o momento crucial dos judeus, sionistas ou não, que vivem no Brasil? Ela se insere em um momento muito cruel, contraditório para os judeus. Ignorar a guerra que envolve Israel em pleno 2024 é praticamente impossível, mesmo para os que não se consideram parte desse “povo”. Aos judeus sempre foi imposta uma “marca”. No passado, não muito remoto, eram discriminados pela Igreja Católica. A eles eram atribuídas a morte de Cristo, as epidemias, a origem de todo o mal.

Atualmente observam-se mudanças com a expansão dos evangélicos que se identificam com o Estado de Israel, cuja bandeira se vê tremulando em diversos aglomerados políticos. Curiosamente, tanto antes como agora, os judeus da diáspora assim como os de Israel são responsabilizados por situações sociais ou políticas sobre as quais nem sempre têm qualquer agência. Mesmo assim há a busca de culpados como no passado.

Examine-se um documento aprovado pela Congregação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, no qual se denuncia “a violência brutal do Estado de Israel sobre os palestinos” e se pedem ações da USP e da FFLCH apoiadas nos “princípios em que se baseiam a antropologia, as ciências sociais, a política, a geografia, as literaturas, a filosofia e a historia” (sic). Evidentemente, mesmo cometendo crassos erros metodológicos, apontam os habituais culpados. Bastava apelar para a paz que todos nós desejamos, a deposição das armas, a libertação dos cerca de 300 sequestrados. Mas, não, era necessário nomear, dentre tantos, apenas um culpado.

A guerra é sempre brutal, e é na universidade onde precisamos desarmar o preconceito e evitar a violência. Traçar os caminhos para a paz e não alimentarmos os inúmeros programas políticos que nas redes acentuam agressões ideológicas e racismo. Nesse clima, creio que a exposição do judeu Alexandre Hercovitch suplantou a triste guerra que tanto nos atinge.

O imenso público que visitava a exposição, a maioria jovens, de todas as cores, classes, idades, etnias, sentados, em pé ou esparramados pelo chão, ocupando dois andares (o térreo e o balcão) silenciosamente esperava que Alexandre começasse a falar. Ele foi pontual. As pessoas, superatentas, até esqueceram que ele estava sentado olhando para o público e dando as costas para um altar. Detalhou como construiu sua arte, foi como um generoso professor, cuidadoso, alertando para evitar empecilhos. E, nessa hora, ao sentir a empatia de Alexandre para com seu auditório, vi um artista que ensina sua arte, da qual vive, abrir aos jovens os caminhos e procurar alertá-los para as pedras que certamente ele deve ter encontrado.

E sobre a condição judaica? Onde estava ela na obra desse multiartista? Ao público, não ocorreu abordar essa questão? De tudo ali exposto, havia apenas duas peças, um terno masculino e uma camisa, com estampas com a estrela de Davi. Quem teria comprado aquelas peças? Judeus, evangélicos, ou meros curiosos?

Chego ao fim dessa bela experiencia artística refletindo que, ao colocar a questão identitária – uma exposição numa sinagoga -, trago a experiência de que nós, judeus, somos herdeiros de traumas, ligados à perseguição e ao preconceito. Abrir uma ex-sinagoga para o mundo público é o mais democrático exemplo da inserção dos judeus no Brasil. Com isso enfrentaram as fantasias que há séculos dominam o imaginário sobre os judeus. Mostraram que não há caixas escuras, que as criações fascistas não resistem à luz do dia.

Que todos buscamos paz.

_______________
(As opiniões expressas pelos articulistas do Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.