Programa da USP prepara estudantes de todo o Brasil para atuação em museus de ciências

Iniciativa do Museu de Zoologia da USP promove uma semana de atividades aliando crescimento acadêmico a trocas culturais para alunos de graduação de Ciências Biológicas; edital deste ano será lançado em julho

 07/03/2024 - Publicado há 1 mês     Atualizado: 04/04/2024 as 9:53

Luísa Hirata*

Estudantes no treinamento científico do Museu de Zoologia - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Aprendizado, intercâmbio cultural, rede de contatos para a carreira e encaminhamentos para a pós-graduação: são esses os frutos do Programa de Treinamento Científico do Museu de Zoologia (MZ) da USP, também chamado de MZ Brasil, que recebeu dez estudantes de graduação, sendo dois de cada região do País, em sua segunda edição, realizada entre 6 e 11 de novembro de 2023. O programa é um curso de aperfeiçoamento acadêmico-científico e qualificação de profissionais para museus de história natural e acontece uma vez por ano de forma gratuita. O edital da edição deste ano com o prazo das inscrições e outras informações está previsto para ser lançado em julho.

“Nós vimos que havia espaço para incluir alunos fora de São Paulo no MZ, para que conheçam o que a USP tem de excelência na área de biodiversidade. Eles também divulgam o que é feito aqui para os colegas e professores de suas instituições de origem”, explica Marcelo Duarte, professor e atual diretor do museu, sobre a criação do programa. A USP arca com os custos de passagens aéreas, traslados entre os aeroportos de Guarulhos ou Congonhas até o MZ, alimentação e hospedagem dos participantes.

Podem se inscrever no treinamento alunos de Ciências Biológicas ou Biologia de universidades públicas e privadas de todo o Brasil que estejam no terceiro ano ou posterior do curso.

Alunos e monitores do MZ Brasil 2023 com o diretor do museu Marcelo Duarte (no meio, de terno) - Foto: Divulgação/MZ-USP

A seleção é definida a partir da análise dos seguintes documentos: curriculum vitae, histórico escolar completo, uma carta de recomendação de um professor ou pesquisador de zoologia e uma carta de intenções, em que o estudante deve abordar sua motivação para desenvolver estudos em sistemática e taxonomia animal e a importância dos museus para o conhecimento da biodiversidade.  

Em 2023, foram cerca de 300 inscritos e, em relação à primeira edição, o número de vagas dobrou de cinco para dez. Por enquanto, não há planos para aumentar o número de edições anuais ou de participantes devido à quantidade de recursos disponíveis. 

Estudantes analisam acervo do Museu de Zoologia - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Explorando os potes e gavetas do museu

A semana de treinamento começou com apresentações e bate-papos da direção, da divisão de difusão cultural e da equipe de pós-graduação do MZ, além de uma tour pelos espaços. As atividades incluíram visitas à biblioteca, às coleções e aos laboratórios multiusuários; o contato com alunos de pós-graduação e professores orientadores dos programas de pós-graduação; a participação nas atividades educativas do museu e o acesso aos procedimentos e técnicas de manutenção do museu. Além dessa programação em grupo, cada aluno teve um horário reservado para conhecer o laboratório de seu maior interesse. 

Os estudantes foram acompanhados pelos monitores e alunos da pós-graduação do MZ Fernanda S. Silva, Jonatas Pereira e Henrique P. Moleiro durante toda a semana.

Alunos em atividade com Dione Seripierri, funcionária do Serviço de Biblioteca e Documentação, à esquerda; à direita, os monitores Henrique P. Moleiro, Fernanda S. Silva e Jonatas Pereira (agachado) - Fotos: Divulgação/MZ-USP, Marcos Santos/USP Imagens

Um dos destaques do treinamento é o trabalho de curadoria, que envolve os eixos de pesquisa, ensino e extensão: os estudantes conhecem como os acervos são criados e conservados e de que modo contribuem com as pesquisas gerando conhecimento inédito em biodiversidade.

Dessa forma, a proposta do programa é promover o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades teóricas e práticas essenciais para a carreira acadêmica e a atuação na área, o aprimoramento em comunicação científica, o networking e parcerias acadêmicas para futuros projetos.

Atividade de Invertebrados Marinhos com o professor Marcelo Fukuda; alunos exploram os filos dos anelídeos e equinodermos, conhecendo as especificidades da curadoria dessas coleções, além de conversar com os atuais estudantes de mestrado que desenvolvem pesquisas nessa área no MZ - Fotos: Marcos Santos/USP Imagens

Atividade de Ornitologia com Luís Fábio Silveira, professor e vice-diretor do museu. Silveira explica as particularidades de exemplares como o macho do cabeça-de-prata (Lepidothrix iris), à direita, que possui uma coloração nas penas da cabeça que, sob a luz, faz parecerem um espelho, sendo utilizada como uma técnica de conquista para o acasalamento - Fotos: Marcos Santos/USP Imagens

Em relação à continuação dos estudos, vale citar que, dos participantes da primeira edição do treinamento, Ruan Vaz e Yenifer Carolina Guaca foram aprovados nos programas de pós-graduação do MZ em 2023. O museu oferece duas opções: em Sistemática, Taxonomia Animal e Biodiversidade e Interunidades em Museologia.

Quem são os alunos?

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Nós pudemos observar o quanto cada equipe de curadoria deposita de cuidado e dedicação para manter os acervos. O treinamento foi uma experiência que marcou a minha vida profissional e pessoal para sempre. Voltei para casa com o coração cheio de gratidão."

Riandra Freitas, da Universidade Federal do Pará (UFPA)

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Eu queria achar um norte para a minha carreira profissional na biologia, e realmente o curso é um divisor de águas."

José Rafael Alves, da Universidade Federal de Sergipe (UFS)

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Eu trabalho mais na área botânica e, depois de todos os laboratórios que nós conhecemos, estou repensando completamente o meu futuro, porque fiquei encantada com toda a estrutura do MZ. São profissionais muito competentes que nos receberam de braços abertos de uma forma que eu não esperava."

Anelise Vieira, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal)

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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O que mais me chamou a atenção nessa oportunidade foi poder entrar em contato com especialistas do meu grupo de estudo (família Diptera). O professor Carlos Lamas me recebeu superbem, sanou todas as dúvidas que eu não podia tirar na minha universidade por não contar com especialistas nessa família. Com certeza saio daqui mais focado no meu trabalho e espero poder voltar ao MZ no futuro."

Brunno Lima, da Universidade de Brasília (UnB)

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Eu sou da região Norte, então estou muito acostumada com as coleções da Amazônia, por isso vim ao MZ ver outros aspectos da biologia, conhecer um pouco mais do mundo e do Brasil, ver o Cerrado, o Pampa. Eu também gosto de museologia, então ter conhecido as diferentes formas de curadoria acrescentou muito na minha bagagem."

Isadora Reis, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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O programa trouxe várias experiências interessantes e diferentes. Muito do que aprendi vou tentar aplicar com a equipe da coleção didática da UFPE, da qual faço parte, e no meu trabalho como professora. Acho que muitas pessoas não entendem tanto a importância dos museus de zoologia, então eu também queria tentar chamar mais atenção para essa área."

Beatriz Lira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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Ao ter contato com profissionais que são referência na área, aprendi mais a fundo sobre a morfologia do meu grupo de interesse (Coleoptera) e pude complementar os dados de um artigo que estou escrevendo. Também conheci mais sobre a curadoria e a manutenção de coleções biológicas."

Lorenna Tavares, da Universidade Federal de Goiás (UFG)

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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O meu orientador quer montar uma coleção, então eu vim ao MZ com a missão de entender como funciona aqui para nós tentarmos aplicar na UFVJM. Duas referências importantes da minha área (Isoptera) são daqui (a professora Eliana Cancello e o pesquisador Maurício da Rocha) e eu pude sanar questões que eu precisava ver com eles."

Gabriela Marques, da Universidade Federal dos Vales Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Nós tivemos um intercâmbio cultural muito grande, e eu não sei se algum dia vou ter outra oportunidade de passar uma semana com pessoas de todas as regiões do Brasil. Aprendi muitas coisas com elas que me fizeram crescer muito como pessoa."

Marco Antonio Bim, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Treinamento científico no Museu de Zoologia da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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O programa superou as expectativas, foi muito importante para todos nós, tudo foi novo e maravilhoso."

Daisy Villamayor, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)

*Daisy é paraguaia e estuda na Unila, que adota o espanhol como segunda língua oficial e possui um processo seletivo voltado ao ingresso de alunos da América Latina e do Caribe nos cursos de graduação.

Encerramento

No último dia do curso, os alunos, divididos em dupla de acordo com a região de origem, apresentaram suas avaliações gerais sobre o treinamento para a comunidade do MZ, que recebe o convite de acompanhar o encerramento mesmo não tendo entrado em contato direto com os estudantes durante as atividades. Posteriormente, os feedbacks são discutidos para planejar ajustes de conteúdo e dinâmica para as próximas edições do programa.

“Nós viemos com uma expectativa grande de encontrar um pouco de tudo no MZ, e realmente os acervos são bem completos. Também foi surpreendente o cuidado de vocês com a conservação dos materiais, tanto para os estudos atuais como para as próximas gerações de pesquisadores”, disse Brunno Lima, da Universidade de Brasília. “As atividades de extensão, que levam o conhecimento das pesquisas para as pessoas, são sensacionais”, comentou Lorenna Tavares, da Universidade Federal de Goiás. 

Imagens do treinamento científico - Fotos: Divulgação/MZ-USP, Marcos Santos/USP Imagens

Os estudantes também apontaram questões como as semelhanças e diferenças entre o acervo e a estrutura de suas universidades em relação aos do MZ, impressões sobre os materiais raros e as particularidades do trabalho de curadoria e a boa receptividade e disponibilidade da equipe durante todo o treinamento. Uma semana depois, os participantes também precisam entregar um relatório sobre o programa.

A diretoria do MZ desejou sucesso aos participantes em suas carreiras, reforçando que a equipe está à disposição para ajudar futuramente, e agradeceu pelo trabalho dos professores, funcionários e alunos de pós-graduação do museu que tornaram possível a realização do curso. 

“Nós nos esforçamos para que todos os dias tenhamos pessoas trabalhando aqui para produzir ciência de qualidade e continuar avançando nas fronteiras da zoologia e da educação científica”, disse Luís Fábio Silveira, professor e vice-diretor do museu. “Então eu gostaria que vocês levassem consigo um pouco desse empenho e que de alguma forma vocês sejam ‘multiplicadores da ciência’ nas suas instituições de origem”, falou aos alunos.

Antes dos estudantes voltarem às suas cidades de origem, a equipe promoveu ainda uma visita ao Museu do Ipiranga. 

Estudantes participantes do treinamento científico e os monitores do museu - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Ficou interessado? Para tirar dúvidas sobre o curso, escreva para o e-mail pgmz@usp.br. Acompanhe também o site, o Instagram (@museu_zoologia) e o Facebook (/mzusp) do museu para novidades sobre o programa.

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Estagiária sob supervisão de Thais Helena Santos e Claudia Costa


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