Foto: Projeto EAMar / IO USP

Educação ambiental marinha ajuda a promover a preservação dos oceanos em comunidade de Ubatuba

Projeto de extensão universitária do Instituto Oceanográfico da USP busca apresentar aspectos relacionados ao oceano para a promoção de saúde e conservação do meio ambiente

 12/09/2023 - Publicado há 9 meses     Atualizado: 14/09/2023 as 9:52

Texto: Claudia Costa

Apresentar para comunidades locais e escolas da rede pública do município de Ubatuba, no litoral norte do Estado de São Paulo, os principais aspectos relacionados ao oceano e às ciências oceânicas é o objetivo do projeto Educação Ambiental Marinha (EAMar): um olhar multidimensional para a Década do Oceano, que atende uma das metas propostas pelo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Criado em 2021 por alunos da graduação do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, o projeto enfatiza a importância que os oceanos têm para a promoção da saúde e manutenção da vida no planeta, incluindo também curiosidades, problemáticas e soluções que abrangem os diferentes ecossistemas marinhos.

“2021 marca o início da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (doravante Década do Oceano), liderada pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco (COI-Unesco) e segue até 2030. Sem dúvida, é um momento singular de difusão da Oceanografia, de desenvolvimento da Cultura Oceânica entre jovens estudantes e de articulação entre todos os setores da sociedade em prol de uma relação mais sustentável com o oceano”, afirmam os integrantes do grupo. “No âmbito da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, contribuímos para o desafio de número 10, ao incentivar mudanças (para melhor) do nosso comportamento em relação ao oceano, de forma a assegurar os múltiplos serviços ecossistêmicos, incluído o bem-estar do ser humano”, afirma a professora Camila Negrão Signori, coordenadora do projeto EAMar e presidente da Comissão de Cultura e Extensão do IO. 

Foto: Divulgação/EAMar IO USP

Camila Negrão Signori, professora do IO e coordenadora do projeto EAMar - Foto: Arquivo pessoal

O EAMar é um projeto de educação ambiental baseado na ODS 14 – Vida na Água, e prevê a produção e fornecimento de materiais didáticos acessíveis e de qualidade e treinamento de professores do ensino médio, visando a aproximar a comunidade dos diferentes ecossistemas. Através da colaboração e protagonismo de professores no processo de ensino e aprendizagem, o projeto traz inovações, como a implementação de práticas do Ciência Cidadã, uma metodologia participativa e voluntária em que a sociedade colabora com o processo e produção de conhecimento científico junto a pesquisadores, possibilitando, assim, a construção de um novo olhar sobre o ambiente em que estão inseridos, além de estabelecer um contato próximo entre comunidade científica, profissional oceanógrafo e a sociedade.

Atividades realizadas na segunda edição do EAMar em 2022 - Foto: Projeto EAMar / IO USP

Para Camila, a importância do Projeto EAMar consistiu na implementação da cultura oceânica nas escolas, “atingindo alunos e professores, ao ensinarmos sobre a influência do mar em nossas vidas e a influência que exercemos nos ecossistemas marinhos, para que possamos viver e agir de forma sustentável”. Ainda segundo ela foi um aprendizado mútuo. “Também aprendemos muito com as trocas em salas de aula com os estudantes e os professores participantes do projeto. Nossos alunos de graduação, especialmente, puderam aprender todas as etapas de um projeto, desde sua concepção até sua aplicação, com benefícios inúmeros para sua formação profissional e pessoal”, afirma. 

Primeiras etapas do projeto

Devido à pandemia de covid-19, as primeiras etapas foram realizadas virtualmente e consistiram no planejamento, pesquisas de referências bibliográficas, e produção de materiais didáticos lúdicos e acessíveis, feitos em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ao longo de sete meses foram confeccionados quatro e-books, disponíveis para download gratuito, compondo a coleção EAMar: Educação Ambiental Marinha, que aborda diferentes temáticas relacionadas aos princípios da cultura oceânica. Além disso, foram produzidos quatro roteiros de aula e 22 videoaulas, que abordam de maneira resumida os assuntos tratados nos e-books. Todos disponibilizados para os professores participantes do projeto e para o público interessado em expandir o conhecimento sobre o mar através do site

Box: E-books gratuitos sobre a cultura oceânica

O primeiro livro eletrônico, O Oceano, disponível neste link, apresenta o leitor ao oceano, abordando sua origem e evolução, sua contribuição para o surgimento da vida na Terra, o conhecimento geral que temos sobre ele, e a interseção entre o oceano e o homem. O livro traz informações como: “o Pacífico é o maior e mais antigo entre os oceanos e está localizado entre os continentes americano, asiático e Oceania. Com área de 181 milhões de km², ocupa ⅓ da superfície do planeta e mais da metade de seu volume de água. Possui profundidade média de 3.940 metros e seu fundo é formado por placas tectônicas convergentes (ou seja, que “colidem”), e por isso, possui alta atividade vulcânica e numerosos cordões de ilhas”, informam os autores, acrescentando que há pesquisadores que acreditam que por conta da atividade tectônica convergente ali presente, o Oceano Pacífico esteja “diminuindo” ou se fechando. Mas, como dizem os autores, não é preciso se preocupar já que esse possível fim aconteceria em uma escala de tempo grande demais.

Oceanografia, disponível neste link, introduz a ciência oceanográfica, abordando cada uma das suas cinco grandes áreas de estudo da oceanografia: Biológica, Física, Química, Geológica e Socioambiental, e os principais conteúdos estudados em cada uma delas. A Oceanografia é um ramo da ciência, considerado interdisciplinar, que estuda o oceano a partir da perspectiva de diversas áreas do conhecimento, afirmam os autores. No Estado de São Paulo, eles citam o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), criado em 1946, que em um primeiro momento tinha como foco os estudos referentes à pesca e exploração de recursos naturais do litoral paulista. Segundo eles, só em 1951 foi incorporado à USP como Unidade de Pesquisa, e em 1972, se tornou Unidade Universitária de Pesquisa, oferecendo cursos de pós-graduação na área de Oceanografia. “O curso de graduação foi, finalmente, aprovado pelo Conselho Universitário, com o grau de Bacharelado em Oceanografia em 2001, e o ingresso da primeira turma se deu no ano de 2002”. 

O terceiro título, Impactos Antrópicos, disponível clicando aqui, expõe cinco estudos de casos que mostram a quantos e quais níveis os impactos antrópicos podem alcançar. Um deles é o derramamento de óleo. “Frequentes falhas de monitoramento e gestão na exploração desse recurso costumam acarretar desastres ambientais de proporções e danos significativos. Um exemplo recente foi o derramamento de óleo cru no litoral brasileiro em agosto de 2019. O aparecimento repentino de manchas em mais de 130 municípios de estados do Nordeste e Sudeste do país intrigaram comunidades locais e causaram preocupação, sobretudo de cientistas”, afirmam os autores, informando que os fatos que mais chamaram a atenção acerca do ocorrido estão associados à origem do incidente e às principais características do óleo em questão: “constatou-se que as amostras analisadas, oriundas das duas regiões, tiveram a mesma origem (Venezuela), porém, mesmo após um ano, as informações obtidas não foram suficientes para identificar os autores do desastre”. O impacto, porém, foi grave. E o pior desse tipo de desastre, dizem, é a dificuldade de degradação do óleo: “em vez de diluir, essa substância quebra-se em partículas menores, permanecendo no meio por tempo indeterminado, ou sendo bioacumulado por animais filtradores, tais como corais e esponjas”.  

O quarto e último e-book, Conservação Ambiental, disponível neste link, aborda conceitos relacionados à conservação ambiental, as ações mundiais, locais e pessoais que estão sendo ou poderiam estar sendo realizadas para diminuir os impactos antrópicos no oceano, e apresenta o Parque Estadual da Ilha Anchieta e o seu papel na ação da conservação do meio ambiente. Como dizem os autores, “o respeito à vida e à natureza, por si só já é motivo suficiente para conservar o oceano, porém há outros, igualmente importantes”. Eles citam vários: cerca de 40% do oxigênio produzido anualmente no planeta ser proveniente das atividades de organismos fotossintéticos no oceano; é responsável por equilibrar o clima e o tempo globais, ao regular o fluxo de chuvas, de estiagem, a umidade relativa do ar e absorver a maior parte da radiação solar e metade do dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4) da atmosfera; é o maior reservatório de carbono em ciclo rápido do planeta, elemento que auxilia o processo de sintetização de conchas, esqueleto e recifes de corais; e fornece diversos serviços ecossistêmicos à população, dentre os quais pode-se destacar os alimentos, medicamentos, minérios, energia, via de transporte de bens e pessoas, além de proporcionar recreação, segurança nacional e ser um importante patrimônio cultural, entre outros. 

Visitas monitoradas

Em novembro de 2022, o projeto seguiu para a etapa presencial, com visita à Base de Pesquisa Clarimundo de Jesus do IO-USP em Ubatuba, de alunos das escolas E.E. Professora Áurea Moreira Rachou e E.E Professora Sueli Aparecida Figueira dos Santos. A visita monitorada compreendeu diversas atividades sobre a importância da preservação e conservação do Oceano. Entre as ações, foi realizada uma apresentação lúdica sobre a Oceanografia, descrevendo a carreira de um oceanógrafo, além de curiosidades sobre o oceano através de um jogo de “verdadeiro ou falso”. 

Em seguida, os 68 alunos presentes analisaram o perfil praial, observaram sedimentos de diferentes origens em lupas, mediram pH e salinidade da água do mar com, respectivamente, fitas indicadoras e refratômetro, e foram discutidas temáticas como a acidificação dos oceanos e poluição por microplásticos e seus impactos no ecossistema marinho.

Litoral paulista recebe ações do EAMar em 2019 e 2022 - Foto: Projeto EAMar / IO USP

Por fim, foram explicitados os diferentes compromissos de gestão ambiental realizados no Parque Estadual Ilha Anchieta – criado em 1977 por decreto de lei e administrado pelo Instituto Florestal, órgão vinculado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente -, apontando a importância de sua conservação para a proteção da segunda maior ilha do litoral norte de São Paulo, com mais de 800 hectares e 17 km de costões rochosos, incluindo sete praias de águas cristalinas que contrastam com o verde da Mata Atlântica. 

Essas atividades tiveram apoio financeiro da Pró-reitoria de Graduação da USP através do edital Aprender na Comunidade e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência através do programa SBPC vai à Escola. “Contribuição que possibilitou a disseminação dos objetivos do EAMar à comunidade discente local, que muitas vezes até mesmo desconhece a existência das instalações do IO em sua própria cidade, configurando-se como um ato fundamental para aproximar a academia da sociedade”, como dizem os pesquisadores no material de divulgação.  

Projeto EAMar em ações educativas em São Paulo, no ano de 2023 - Foto: Projeto EAMar / IO USP

Dentre as próximas ações do EAMar, está a continuidade das visitas às escolas paulistas. “Pretendemos continuar visitando escolas paulistas para propagar a importância do oceano em nossas vidas e incentivar sua preservação, mesmo que aparentemente estejamos longe do mar (na capital ou no interior)”, diz a professora Camila. Além disso, informa, que será aplicada atividades do Ciência Cidadã: “também vamos implementar, em parceria com o PEIA (Parque Estadual da Ilha Anchieta) uma atividade de Ciência Cidadã na Ilha Anchieta em Ubatuba que consiste na captação de imagens diárias de uma praia para acompanhar as mudanças da linha de costa sob diferentes escalas temporais, a partir da colaboração dos monitores e visitantes da Ilha. 

O monitoramento das praias será feito a partir da metodologia proposta pelo aplicativo CoastSnap, contando com a contribuição de voluntários, que deverão fotografar a praia onde há um totem de identificação, observar e anotar algumas informações gerais em um formulário disponível no aplicativo e enviá-lo à equipe do EAMar. Esse material, por sua vez, será encaminhado a um banco de dados open source que tem como finalidade avaliar a evolução temporal da linha de costa. 

Como escrevem os participantes do grupo no primeiro e-book da série: “Que seu mergulho nesse mar de conhecimento seja extremamente agradável e te inspire a conhecer mais e mais sobre essa imensidão azul chamada Oceano”.

Os materiais didáticos, com as apostilas e videoaulas podem ser acessados clicando aqui.

Mais informações sobre o projeto estão neste link.


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