Série de conteúdos produzidos pelo projeto Ciclo22, que remete à reflexão da USP sobre quatro grandes marcos (1822, 1922, 2022 e 2122): o bicentenário da Independência do Brasil, o centenário da Semana de Arte Moderna, o tempo presente e os desafios para os próximos 100 anos

Foto: Divulgação/Museu Paulista

Ciência é protagonista na restauração do famoso quadro da independência do Brasil

Especialistas da USP nas áreas de física e química usaram técnicas que permitem devolver o aspecto original da obra Independência ou Morte; veja em resumo como foi o processo

 10/09/2021 - Publicado há 2 meses  Atualizado: 18/09/2021 as 9:35

Infografia: Beatriz Abdalla

No imaginário de muitos brasileiros, a independência do país está associada à pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo. Com seus personagens e ambientação idealizados, a obra conferiu tom épico a um acontecimento que, segundo testemunhas da época e pesquisas históricas posteriores, teria sido bem menos glorioso. Pintada em Florença, na Itália, em 1888, embarcou para o Brasil e foi apresentada pela primeira vez ao público brasileiro já no período republicano, em 7 de setembro de 1895, durante a inauguração do Museu do Ipiranga.

Peça mais importante do acervo e reproduzida em livros didáticos, tornando-se uma espécie de retrato oficial da nacionalidade, passou desde o início de 2019 por um processo de restauração que tem a ciência como aliada na busca por manter o aspecto original da obra e agora aguarda uma aplicação final de verniz que ficou para 2022, quando o Museu será reinaugurado.

Para atingir esse objetivo, contou com assessoria especial de dois pesquisadores do Instituto de Física (IF) da USP, a professora Marcia Rizzutto e o pós-doutorando Pedro de Campos; além de duas pesquisadoras do Instituto de Química (IQ) da USP, a professora Dalva de Faria e a pós-doutoranda Isabela dos Santos.

Confira abaixo um resumo de como foi esse processo.

A obra

O quadro ‘Independência ou Morte’ (1888) de Pedro Américo é considerado a representação mais consagrada e difundida do momento da independência do Brasil.

Artista: Pedro Américo
Técnica: Óleo sobre tela
Acervo: Museu do Ipiranga
Período: 1888

Pintura "Independência ou Morte", de Pedro Américo - Foto: Acervo Museu do Ipiranga

“Independência ou morte” foi uma obra encomendada pela Família Imperial, com a ideia de ressaltar o poder monárquico do recém-instaurado império. No Brasil, a tela foi exposta pela primeira vez em 7 de setembro de 1895, na inauguração do Museu do Ipiranga.

Panorama do Salão Nobre do Edifício-Monumento, construído para abrigar a tela "Independência ou Morte", de Pedro Américo - Foto: Divulgação/MP

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Você sabia?

Medindo 415 x 760 cm, a pintura é bem maior que as portas e janelas do Museu do Ipiranga: a tela foi montada originalmente onde está até hoje e nunca foi retirada de lá.

Foto: M. Nogueira da Silva via Wikimedia Commons

Pedro Américo

Pedro Américo de Figueiredo e Melo foi um romancista, poeta, cientista, teórico de arte, ensaísta, filósofo, político e professor brasileiro, mas é mais lembrado como um dos mais importantes pintores acadêmicos do Brasil, deixando obras de impacto nacional.

Sua obra esteve inserida na arte neoclássica, privilegiando temas históricos e personificações, como é o caso de “Independência ou Morte”, uma de suas obras cívicas.

Foto: Divulgação/Museu Paulista

O Museu do Ipiranga

O edifício histórico localizado no Parque da Independência, conhecido pelo nome de Museu do Ipiranga, tem como nome oficial Museu Paulista da Universidade de São Paulo. É uma instituição científica, cultural e educacional com atuação no campo da História e cujas atividades têm, como referência permanente, seu acervo histórico.

O edifício está fechado para visitação do público desde 2013, quando foi detectado risco iminente de queda do forro. A expectativa é que seja reaberto em setembro de 2022, completamente renovado e ampliado, para a celebração do bicentenário da Independência do Brasil.

A restauração do quadro

Foto: Daniel Antônio/Agência Fapesp

Devido à ação do tempo, “O Grito do Ipiranga” começou a apresentar sinais de desgaste. Assim, foi recrutada uma equipe de nove profissionais, sob o comando da especialista em restauro do Museu do Ipiranga Yara Petrella, para iniciar o processo de restauro da tela.

Além de reparar danos causados pela ação do tempo, os restauradores buscaram devolver à pintura suas cores originais – retirando a sujidade acumulada com o tempo, recompondo pontos de perda na camada pictórica original e retirando vestígios de restauros antigos, como um amarelado indevido em certa região do céu.

Pesquisa de
documentação

Em 2017, a equipe realizou um levantamento de documentos sobre a pintura. Desse modo foram obtidos detalhes sobre as cores originais, bem como as áreas retocadas nos três restauros anteriores, sendo o último de 1972.

Reflectografia em infravermelho

A imagem em infravermelho permite visualizar os traços iniciais, a grafite ou carvão, que Pedro Américo recobriu depois com camadas de tinta. A técnica também é usada para revelar pentimenti (alterações realizadas na obra), áreas de retoques e falsificações.

Espectroscopia por fluorescência de raios X

As técnicas espectroscópicas possibilitam determinar a paleta de cores e, por decorrência, sugerir os pigmentos usados originalmente pelo artista. Permitem ainda identificar pigmentos alterados ou que possam ter sido empregados em restaurações anteriores

Microscopia Raman

Como certos elementos químicos podem estar presentes em mais de um pigmento, o processo de identificação pode deixar dúvidas sobre qual foi o material usado. Para determinar a substância, é adotada a microscopia Raman, que analisa fragmentos microscópicos do quadro e determina sua composição química.

Restauração

Nesta etapa, a equipe de restauradores utiliza-se de todo o conhecimento sobre a obra acumulado nas fases anteriores para aplicar uma nova camada de tinta sobre a obra, respeitando seu aspecto, materiais e técnicas originais. Para esta última restauração, foram utilizados pigmentos com Paraloid B72 ou tintas prontas para retoque, que são mais reversíveis do que a tinta a óleo e facilitam possíveis restaurações futuras.

Envernizamento

Após o restauro, o quadro será recoberto com verniz, que resiste a muitos anos sem amarelecer. Esta etapa será feita em 2022, perto da data prevista para a reabertura do Museu do Ipiranga.

Confira o vídeo elaborado pela Agência Fapesp sobre a restauração do quadro:

Veja também o programa Você e o Pesquisador com Marcia Rizzutto, do IF, sobre como funciona o processo de restauração:

Fontes:

“Quadro ‘Independência ou Morte’, de Pedro Américo, chega à fase final de restauro” – Folha de São Paulo, 29/04/2020.
“A famosa tela Independência ou Morte (1888) foi restaurada” – Veja São Paulo, 08/05/2020
“Restauração do quadro Independência ou Morte alia ciência e arte em SP” – Governo do Estado de São Paulo, 19/02/2020
“Independência ou Morte (Pedro_Américo) – Wikipedia

Texto adaptado de Agência Fapesp


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