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Ansiedade infantil: grupo da USP aposta em comunicação feita para crianças

Além de atender pacientes que apresentam transtornos ansiosos, profissionais do ambulatório especializado do Instituto de Psiquiatria do HC transformaram as redes sociais em espaço de orientação

 26/10/2021 - Publicado há 1 mês  Atualizado: 09/11/2021 as 18:59

Tabita Said

Uma festa, uma simples caminhada, o primeiro dia de aula. Situações que tinham tudo para ser divertidas ou tranquilas tornam-se verdadeiros dramas quando a criança sente medo ou expectativas além do que pode suportar. No geral, as situações parecem maiores do que realmente são e esta conclusão pode levar o adulto responsável a minimizar os sentimentos da criança ou do adolescente. Mas afinal, como medir a ansiedade? Quando ela deixa de ser normal para se tornar uma condição psiquiátrica?

O assunto tem preocupado pais, responsáveis e professores, sobretudo com o retorno às aulas presenciais após um longo período de ensino remoto em virtude da pandemia. Entretanto, o agravamento da saúde mental de crianças e adolescentes é multifatorial e anterior à covid-19, refletindo em um custo para a sociedade, que amarga as consequências de um baixo investimento. 

Um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) identificou que apenas 2% dos orçamentos governamentais de saúde são alocados para gastos com saúde mental em todo o mundo. Mesmo antes da pandemia, um em cada sete meninos e meninas com idade entre 10 e 19 anos vivia com algum transtorno mental diagnosticado.

“Estão mais graves. Eu acho que reflete a questão da pandemia, porque os casos de ansiedade têm uma influência ambiental muito grande. A alteração da vivência cotidiana pode mudar muito a vida de uma criança, já que a preocupação excessiva – até com a contaminação – é um prato cheio para a vivência ansiosa”, afirma o médico psiquiatra Fernando Asbahr. Ele coordena o Programa de Transtornos de Ansiedade na Infância e Adolescência (Protaia), um dos ambulatórios especializados do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP em São Paulo.

Fernando Ashbar, coordenador do Protaia no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP - Foto: Reprodução/ResearchGateReprodução/ResearchGate

Fernando Ashbar, coordenador do Protaia no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP - Foto: Reprodução/ResearchGate

Asbahr aponta que a ansiedade deve chamar a atenção dos pais e responsáveis quando se trata de medos desproporcionais para a idade. Ela é muito caracterizada pela antecipação e pela amplificação de problemas. Em crianças pequenas, é comum que ocorra a chamada ansiedade de separação, que é quando há resistência a mudanças de ambientes sem a presença da mãe. A adaptação escolar é um exemplo. À medida que a criança vai ficando mais velha, os medos vão mudando. As dificuldades estão mais associadas ao medo de ficar isolado: em seu próprio quarto, em um cômodo sozinho.

“Tem aquelas crianças que, apesar de estarem doidas para irem brincar na casa do amigo, acabam não indo por medo de que algo errado aconteça. É sempre uma antecipação; uma preocupação completamente desproporcional”, define.

Preocupação que paralisa

Quando o mundo social vai ganhando contorno, outros tipos de ansiedade podem aparecer no horizonte. A ansiedade social ou fobia social pode ser identificada pelo excesso de introversão e timidez que não desaparece com o crescimento. “É aquele menino que não levanta a mão para tirar dúvida na sala de aula, não fica na fila, pede que alguém chame um garçom para ele. Evita chamar a atenção para si por medo ou receio de passar por uma situação vexatória.” Mas o médico pondera: “Tudo depende do grau”.

Neste momento, o ambiente escolar dá pistas do problema. Camila Luisi Rodrigues, neuropsicóloga do Protaia, avalia se a criança que chega ao ambulatório tem alguma dificuldade que esbarre no aprendizado. Ela indica diversos estudos que relacionam ansiedade e o desempenho escolar, afetando principalmente a atenção.

Em estudo publicado pelo grupo, os pesquisadores avaliaram a capacidade de planejamento de 71 pessoas entre 7 e 17 anos. Já se sabia que os transtornos de ansiedade estão associados a um baixo desempenho neuropsicológico na atenção e na memória. Porém, o estudo deles mostrou que jovens com transtornos de ansiedade cometem mais erros e demoram mais em tarefas que envolvam a capacidade de planejar.

Camila Luisi Rodrigues, neuropsicóloga no Protaia no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP - Foto: Arquivo pessoal

Camila Luisi Rodrigues, neuropsicóloga do Protaia - Foto: Arquivo pessoal

De acordo com a publicação, a dificuldade de planejamento é afetada pela interferência de outras funções cognitivas, como atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e soluções de problemas.

“Nosso ambulatório promove encontros que chamamos de psicoeducacionais com o objetivo de orientar e esclarecer sobre o Transtorno de Ansiedade para Infância e Adolescência. A gente pensa em alcançar um público que não seja só do ambulatório, acreditando que o acesso à informação facilita o manejo desses casos”, conta Camila, que também gerencia as redes sociais do programa. As informações compartilhadas são direcionadas ao público, aos pacientes e familiares e também aos profissionais de saúde. Essa diretriz está presente na publicação mais importante do Protaia, o livro Ansiedade na infância e adolescência.

Página do Facebook do Protaia com destaque para temas de postagens e o livro do grupo - Foto: Reprodução/Manole

Camila conta que, com a pandemia, as redes sociais se tornaram também um espaço de orientação. Junto da família, o programa tem apostado em uma comunicação que fale diretamente com as crianças e crie imagens de identificação. “Meu objetivo tem sido compartilhar indicações úteis, mesmo que a pessoa não faça um tratamento. Que ela consiga ter algum acesso à informação em filmes, dicas de respiração”, diz.

É comum que os pais identifiquem a ansiedade dos filhos em si mesmos, quando eram crianças, e relativizem os impactos para o futuro. “Essa ideia de que é besteira e vai passar é comum, mas felizmente temos ouvido menos do que há 20 anos”, comenta o coordenador do Protaia. Em sua vivência ambulatorial, o médico tratou diversos casos de ansiedade em crianças e adolescentes cujos pais tinham o mesmo histórico. Ele afirma que mais de 50% dos casos de adultos ansiosos começaram com os sintomas na infância.

”A mãe chega e diz: ‘Nossa, eu sei exatamente o que ele está sentindo, porque eu tinha igualzinho na idade dele’. Isso é uma faca de dois gumes, porque reforçar o comportamento aumenta a dificuldade nos enfrentamentos”, diz, assim mesmo, no plural, referindo-se à principal estratégia de tratamento: a exposição a todo tipo de situações que sejam temidas, e que exigem soluções diferentes.

Série de posts Entendendo a ansiedade

Imagens: Redes Sociais do Protaia HCFMUSP

Família ativa

Entre infância e pré-adolescência, pensar no tratamento da criança isoladamente é inviável. Nesta faixa etária, a participação familiar é fundamental, ainda que a criança seja medicada. O médico explica que o remédio pode diminuir os sintomas e facilitar a aceitação à chamada terapia cognitivo-comportamental, “o que não impede que a criança deixe de sentir ansiedade”, lembra. “Mas uma coisa interessante é que você não consegue melhorar os sintomas sem o engajamento da criança, também.”

O médico conta o caso de um paciente que sofre de ansiedade social e que, como a maioria dos pacientes nesta condição, evita situações em que ele precise se encontrar e conversar com conhecidos. Já adolescente, o paciente utiliza uma convincente articulação verbal para convencer os familiares de que precisa estar em casa. “Por mais que ele entenda e assuma a ansiedade social, se ele não participa enfrentando as situações, não vai funcionar, porque o tratamento medicamentoso não garante.” 

A afirmação é baseada em estudos. Outra pesquisa do grupo comparou a ação de dois tipos de medicamentos e do tratamento placebo em crianças e adolescentes de 7 a 17 anos que foram diagnosticados com transtorno de ansiedade ou fobia social. Todos os testados apresentaram melhora significativa após 12 semanas de tratamento. Os medicamentos mostraram eficácia semelhante, mas não superaram o grupo controlado por placebo.

“Sentir ansiedade é parte absolutamente normal da vida, todo dia a gente sente”, normaliza Asbahr. E mesmo sobre o recente retorno às aulas, o médico mantém o tom moderado, apontando um equilíbrio possível: ”Estamos respirando um pouco melhor, mas de máscara”, diz.

Protaia

Há 20 anos, o Programa de Transtorno de Ansiedade na Infância e Adolescência (Protaia) assiste pacientes até 18 anos de idade que apresentem transtornos ansiosos, como: transtorno de ansiedade de separação, fobias, transtorno de pânico e agorafobia, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno obsessivo-compulsivo.

Além do atendimento ambulatorial, realizado por médicos residentes do Instituto de Psiquiatria da USP, o programa conta com psiquiatras, neuropsicólogos, psicólogos para terapia comportamental e terapia de família e nutricionistas. Fazem atendimento ambulatorial, pesquisas clínicas e eventualmente trabalham com alunos de pós-graduação em pesquisas, além de atuarem no ensino com os residentes.

Fachada do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP - Foto: USP Imagens

Acompanhe as atividades do Protaia no Facebook, Instagram e no site do grupo em https://protaiaipq.wixsite.com/website


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