Educação indígena no Rio Negro se destaca em meio a histórico violento de missões religiosas

Escolarização em comunidade baniwa se pauta na curiosidade de alunos e na participação ativa da comunidade; plurilinguismo e falta de formação de professores são empecilhos

 28/08/2023 - Publicado há 6 meses     Atualizado: 29/08/2023 as 18:12

A ação evangelizadora se estendia pelos diferentes povos da região do Rio Negro. Missões Salesianas do Amazonas. Prelazia do Rio Negro (1937-50). Fotografia da mostra “Itinerários Indígenas” do Arquivo Nacional - Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

A ação evangelizadora se estendia pelos diferentes povos da região do Rio Negro. Missões Salesianas do Amazonas. Prelazia do Rio Negro (1937-50). Fotografia da mostra “Itinerários Indígenas” do Arquivo Nacional - Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

A cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, coleciona recordes trágicos. Em 2018, o município liderou o ranking de casos de malária falciparum no Brasil e, dois anos depois, atingiu o maior número de casos de dengue da Região Amazônica. O histórico de crises sanitárias e omissões governamentais ficou ainda mais extenso com a pandemia, quando a cidade ocupou, em junho de 2020, a liderança no ranking proporcional de diagnóstico de covid-19.

Para além dos índices sanitários, São Gabriel da Cachoeira coleciona um outro superlativo: é conhecida como a cidade mais indígena do Brasil e é referência no campo da escolarização dos povos tradicionais. Essas inovações pedagógicas são tema da pesquisa da Faculdade de Educação (FE) da USP Trilhas da educação escolar indígena: inovação em Cabari, São Gabriel da Cachoeira, AM, produzida pelo linguista Antônio Góes. 

Para a pesquisa, Góes passou longas temporadas na comunidade Cabari, localizada na Terra Indígena (TI) Médio Rio Negro II, aplicou diversas oficinas de pesquisa na escola e acompanhou os processos pedagógicos. “Foi uma pesquisa bem colaborativa”, conta Góes, que trabalhou diretamente com docentes baniwa do ensino fundamental e apresentou o resumo da tese também em línguas yẽgatu e baniwa. “Eles eram bem abertos a esse contato, desde que os não indígenas oferecessem contrapartidas interessantes”, explica. Como compensação, o pesquisador montava atividades educativas na escola, voltadas para a sistematização e estudo das línguas indígenas, especialmente o yẽgatu, sua área de especialização. Entre as atividades propostas, Góes destaca o jogo do Urutu. “Foi uma forma de subverter o jogo da forca, que é muito punitivo. Ao invés de desenharmos a pessoa enforcada, íamos guardando as letras que eles não acertavam em uma cesta baniwa”, conta.

Antônio Fernandes Góes Neto - Foto: Arquivo Pessoal

Antônio Fernandes Góes Neto - Foto: Arquivo Pessoal

Procurei entender como os baniwa ressignificaram o histórico das missões religiosas na região”, conta o pesquisador, que constatou que a escola indígena da comunidade Cabari teve um papel fundamental nesse processo.  A partir de um método de ensino que valoriza a cultura e saberes locais e enfatiza a participação da comunidade e dos alunos, a escola indígena ressignificou o passado marcado por repressão e imposição religiosa. “A educação permitiu que eles narrassem as histórias que não puderam narrar durante muito tempo”, destaca Góes.

Escolarização cidadã e comunitária

O pesquisador explica que um dos fundamentos da educação indígena é a participação comunitária nas decisões pedagógicas, baseadas nas demandas particulares da região. “A educação indígena não é uma só. Cada comunidade tem um caminho próprio”, conta. 

Essa autonomia escolar é reforçada por um método de ensino pela pesquisa, que convida crianças e jovens a investigar temas relacionados à região, formando um currículo flexível e sensível às demandas e curiosidades dos alunos.

Nas disciplinas, os docentes de Cabari mesclam elementos do currículo básico com aspectos culturais e saberes da comunidade. Dentro do curso de história, estudam temas como História das frutas nativas, e a aula de geografia se debruça sobre elementos do cotidiano e da paisagem local, como igarapés, trilhas e canoas. O método sistematiza os saberes regionais, alfabetização em línguas indígenas e projetos socioambientais voltados para a atividade econômica.

Alunos são convidados a pesquisar sobre elementos presentes na região. Uma das ilustrações mostra o manakhe, açaizeiro (espécie Euterpe precatoria, no português) - Foto: Reprodução/"Trilhas da educação escolar indígena: inovação em Cabari, São Gabriel da Cachoeira, AM" de Antônio Goés

Projetos educacionais trabalham aspectos da atividade econômica local (feito por Cleberson, Sandra, Marieme e Carmem) Foto: Reprodução/"Trilhas da educação escolar indígena: inovação em Cabari, São Gabriel da Cachoeira, AM" de Antônio Goés

Segundo Góes, a tradição visual figura entre os principais eixos da educação local. “Grande parte dos saberes que são potencializados pelas escolas são ativados por memória oral e visual”, conta e lembra que os anciãos utilizam desenhos para recordar narrativas e repassá-las aos mais jovens. 

Os materiais didáticos oferecidos pelas Secretarias de Educação da região precisaram ser reformulados para se adaptar a essas tradições. “O desafio dos professores é trabalhar a trajetória, memória de povoamento da região a partir dessas tradições orais e visuais”, destaca. 

Saberes tradicionais, como o preparo da mandioca, compõem parte importante do currículo - Foto: Reprodução/"Trilhas da educação escolar indígena: inovação em Cabari, São Gabriel da Cachoeira, AM" de Antônio Goés

A sistematização dos saberes tradicionais é um eixo fundamental da escola indígena. O desenho ilustra a planta medicinal saracura - Foto: Reprodução/"Trilhas da educação escolar indígena: inovação em Cabari, São Gabriel da Cachoeira, AM" de Antônio Goés

Palco de disputas

De acordo com o pesquisador, as primeiras iniciativas em prol de uma educação propriamente indígena no noroeste amazônico apareceram somente na década de 1980. Até então, a escolarização era dominada por iniciativas religiosas, que buscavam a conversão da população local.

“As missões religiosas tiveram um eco, um trauma na escolarização dos povos indígenas”

A missão católica, instaurada na região no início do século 20, deixou marcas profundas na educação das crianças indígenas — hoje já adultos e anciãos. Segundo Góes, os internatos salesianos buscavam apagar a cultura local, proibindo costumes e até mesmo a prática das línguas maternas. “Se falassem em alguma língua indígena, ficavam sem comida, apanhavam e trabalhavam mais”, conta o pesquisador. Os salesianos também tinham o hábito de enclausurar, durante todo o fim de semana, jovens indígenas que manifestassem sua cultura materna.

As empreitadas salesianas eram financeiramente apoiadas pelo governo, como parte de um projeto de homogeneização cultural. “O ponto da escola, no século 20, era integrar, transformar os indígenas em trabalhadores brasileiros”, explica o pesquisador.

O afastamento não era somente cultural, mas também físico: os internatos eram construídos somente nas cidades, o que causou um êxodo de indígenas para áreas urbanas. A concentração da educação gerava ainda uma falta de acesso ao ensino por parte de povos mais isolados, como os baniwa.

Escola em posto indígena. Fotograma - Foto: Reprodução/Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa via Arquivo Nacional

Após denúncias de perseguições e assassinatos de indígenas brasileiros, a Ordem dos Padres Salesianos foi condenada internacionalmente pelo Tribunal Russell, em 1980, e reformulou seus métodos pedagógicos.

A ordem salesiana não foi a única influência religiosa na região. Com o enfraquecimento da presença católica, grupos evangélicos começaram a se envolver com a educação da população local, construindo escolas bíblicas. Diferentemente dos salesianos, eles buscavam criar vínculos com os locais, construindo escolas dentro das próprias comunidades e permitindo o uso das línguas indígenas. Ainda assim, as tradições culturais e saberes locais eram inferiorizados, como conta Góes. “Eles proibiam, em língua indígena, os saberes indígenas”.

Desafios do ensino indígena

Por se tratar de um território formado por diversas culturas tradicionais, a educação inclusiva é um desafio para os docentes. São Gabriel da Cachoeira é lar de 19 línguas distintas e a tendência, segundo Góes, é que as crianças de Cabari falem pelo menos duas línguas — além do português. Alfabetizar as crianças de forma plurilíngue requer esforços e infraestrutura, o que, segundo o pesquisador, leva alguns professores a trabalharem somente com o português, optando pela praticidade.

Geografia

  • Paisagem – Floresta
  • Igarapé
  • Igapó
  • Trilha
  • Canoa-Remo
  • Barraca

Português

  • Produção de textos
  • Frases
  • Separação de Sílabas
  • Nome de árvores – Ditado
  • Alfabetos – Baniwa e Português
  • Soletrando
  • Cruzadinhas

Matemática

  • Quantidade
  • Distância
  • Tempo
  • Kilo
  • Diferença

Serra do Cabari

História

  • História das frutas nativas
  • Período de tempo frutífero
  • Variedade das frutas

Artes

  • Paisagens
  • Cores
  • Artesanatos

Educação Física

  • Jogos 
  • Entrevistas aos mais velhos

Esquema com principais conteúdos trabalhados em cada uma das áreas do conhecimento - Fonte: "Trilhas da educação escolar indígena: inovação em Cabari, São Gabriel da Cachoeira, AM" de Antônio Goés- Elaboração: Jornal da USP

A manutenção desses alunos na rede escolar é outro desafio: em 2020, havia somente 26 mil alunos indígenas matriculados no ensino médio, frente a 166 mil no ensino fundamental. A oferta de ensino médio indígena é escassa, e os poucos que decidem seguir nos estudos precisam se afastar de suas famílias e migrar para os centros urbanos, onde se concentram as oportunidades de educação.  A falta de indígenas cursando ensino médio e superior resulta em uma falta de docentes nas comunidades. “Um dos grandes desafios é fazer com que esse sistema se retroalimente de um modo intercultural”, explica o pesquisador, que defende uma maior implementação de licenciaturas voltadas aos povos tradicionais.

A educação indígena é um direito assegurado pela Constituição de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Aula do professor Plácido Luciano na Escola Indígena Cabari (Einc), em 2017 - Foto: Arquivo do pesquisador

Ainda que a escolarização indígena tenha resultados inovadores no noroeste amazônico, há ceticismo dentro das comunidades, especialmente por parte dos mais velhos. “Tem choques geracionais, porque algumas das pessoas mais velhas foram formadas nos internatos religiosos e têm receio que, ensinando um pouco de tudo, não ensinem nada”, explica Góes.

*Estagiária sob orientação de Tabita Said
**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


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