Documentário desenvolvido na USP retrata os desafios da maternidade lésbica

Filme contou com a produção de Lívia Perez, doutora da Escola de Comunicações e Artes (ECA), e terá sua estreia no festival de cinema LGBTQ+ Frameline, no dia 18 de junho

 07/06/2023 - Publicado há 12 meses     Atualizado: 12/06/2023 as 12:59

Texto: Mariana Zancanelli*
Arte: Carolina Borin Garcia

Documentário que retrata maternidade lésbica estreia no festival de cinema LGBTQ+ Frameline - Foto: Freepik

O documentário M de Mães, de Lívia Perez, doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, será exibido no maior e mais antigo festival de cinema LGBTQ+ do mundo, o Frameline. O filme vai estrear em 18 de junho e promete celebrar a diversidade parental das famílias latino-americanas e desmistificar a maternidade, colocando em foco a gravidez e a amamentação. Os ingressos para acompanhar o filme no festival podem ser adquiridos neste link.

O Frameline acontece anualmente em São Francisco, nos Estados Unidos, e reúne cerca de 60 mil pessoas. A visibilidade que o evento traz para o longa-metragem, que ainda não tem previsão de estreia no Brasil, é muito importante para a diretora. “É um festival muito grande, que recebe pessoas do mundo inteiro. É uma grande oportunidade na minha carreira para divulgar esse filme, mas também meus futuros trabalhos”, afirma Lívia. Entre as obras que ela dirigiu, estão: Quem Matou Eloá? (2015) e Lampião da Esquina (2016).

Neste documentário, as protagonistas da história são Marcela e Melanie, que decidem ter filhos através da fertilização in vitro, enquanto o País passa por intensas transformações políticas. Mel fica grávida de gêmeos e Marcela resolve induzir a lactação para que também possa amamentar Bernardo e Iolanda. “Com cenas íntimas de alegrias e desafios de tudo o que precede o nascimento, na casa e no hospital, o público é convidado a questionar com elas o processo de se tornar uma mãe”, diz a sinopse. A seguir, assista ao trailer de M de Mães:

Cidadãos do futuro

Lívia conta que as gravações começaram em 2018 e funcionavam quase como um diário da gestação. “Durante o processo de nascimento dessa família LGBTQ+, o Brasil e o mundo enfrentavam uma onda de conservadorismo e de autoritarismo, os discursos de intolerância estavam muito fortes”, relembra a diretora. Para ela, documentar foi uma atitude revolucionária e de resistência, especialmente em um período em que aconteciam ataques de governantes às mulheres, à comunidade LGBTQ+, à cultura e à arte.

Nós vamos focar no que importa, que é a chegada dessas duas crianças, que serão cidadãos do futuro, filhos de uma família queer, que trarão esperança para um amanhã mais diverso”

 A obra — que é tanto um registro afetivo quanto uma resposta à corrente homofóbica que acredita que pessoas queers nunca formarão uma família — contribui para aumentar a visibilidade da comunidade LGBTQ+ e mostrar como os tipos de família são muito diversos e plurais.

Pesquisa artística

Lívia comenta que a relação entre pesquisa e arte é um traço marcante em suas obras: “Todos os meus filmes têm uma pesquisa muito profunda e todas as pesquisas que eu faço também acabam se manifestando de alguma forma artística”. A cineasta conta que, durante o doutorado, o apoio da ECA e de sua orientadora, Esther Hamburger, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), foram muito importantes. Esther sempre estimulou que Lívia continuasse atuando como diretora durante a pós-graduação.

Sua pesquisa foi sobre o legado de Norma Bahia Pontes, uma teórica brasileira que ajudou a fundamentar as ideias do chamado Cinema Novo. No começo dos anos 1970, Norma e sua então namorada produziram, em Nova Iorque, um curta-metragem sobre mulheres lésbicas que brigavam na justiça pelo direito de criar seus filhos e que lutavam contra o preconceito. Esse material foi uma grande inspiração para Lívia. 

“Durante a pesquisa, eu consegui, através desse processo de olhar para uma cineasta de outra geração, olhar para minha própria trajetória, pensar nos temas que sempre foram importantes para os meus filmes, em como eles são feitos e como são distribuídos”, relata a cineasta.

 

*Texto de Mariana Zancanelli, do Laboratório Agência de Comunicação (LAC) da ECA


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