Coletivo paulista preserva a cultura do samba tradicional como forma de resistência

O Samba de Terreiro de Mauá é tema de pesquisa de mestrado realizada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP

 06/09/2023 - Publicado há 9 meses     Atualizado: 11/09/2023 as 9:28

Texto: Antonio Carlos Quinto
Arte: Carolina Borin*

Coletivo se articula para deixar viva a memória do samba tradicional - Foto: Blog Samba de Terreiro de Mauá/Cedida pelo pesquisador

O samba e suas tradições também podem ser instrumentos de preservação da cultura negra brasileira. “E até de lutas políticas e resistência! Por que não?”, destaca o sociólogo José Alves da Rocha Filho. Em 2020, ele deu início a um trabalho de pesquisa sobre o coletivo Samba de Terreiro de Mauá, um grupo de admiradores e pesquisadores do samba que, ao menos uma vez por mês, se reúne para “celebrar” e pesquisar as tradições do samba brasileiro. As pesquisas de Rocha Filho resultaram no estudo de mestrado intitulado Samba de Terreiro de Mauá: enquanto se luta, também se samba, que contou com a orientação da professora Madalena Pedroso Aulicino e foi apresentado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP neste 2022.

Mas, antes mesmo de ter o contato com o grupo visando realizar sua pesquisa, Rocha Filho já acompanhava as atividades dos músicos desde 2007. O pesquisador conta que, naquele ano, trabalhava na cidade de Santo André, na região do ABC paulista. “Foi quando conheci um dos fundadores do projeto, Danilo Ramos, também conhecido como Danilão”, lembra Rocha Filho. A partir de então, como frequentador de outras rodas de samba por diversas regiões de São Paulo, o pesquisador passou a ser mais efetivo nas rodas de samba realizadas, mensalmente, na cidade de Mauá, próxima à região do ABC. O Samba de Terreiro de Mauá, que foi fundado em 23 de fevereiro de 2002, chamou a atenção do estudioso por diversos aspectos. “Trata-se de um projeto de resgate de nossa cultura, diferente dos formatos comerciais. Passei a ouvir histórias e músicas que nos levam à nossa ancestralidade”, cita o pesquisador.

Recortes históricos

Instrumentos do samba tradicional - Foto: Blog Samba de Terreiro de Mauá/Cedida pelo pesquisador

Nas reuniões do Samba de Terreiro de Mauá, como conta Rocha Filho, os músicos não apenas tocam seus instrumentos ou interpretam sambas para os presentes. “Não há qualquer cobrança de ingresso. A participação é gratuita e, para sustentar o projeto, há no local o comércio de alguns tipos de comida e bebidas”, descreve o pesquisador.

Mas o diferencial está nas interpretações e no recorte histórico feito pelo coletivo que compreende o período de 1930 a 1960. Ou seja, em cada apresentação, os músicos interpretam músicas dos sambistas daquelas épocas. Dentre eles, Noel Rosa de Oliveira, Cartola, Nélson Cavaquinho, Candeia, Monarco e Xangô da Mangueira, entre outros. “Mas o que chama a atenção é que as interpretações são fiéis àqueles períodos”, destaca o pesquisador. “Até mesmo os instrumentos utilizados no acompanhamento das músicas e a forma de tocar respeitam as tradições”, descreve Rocha Filho. Nas rodas do Samba de Terreiro de Mauá não há instrumentos usados atualmente nas rodas de samba, como o banjo, a timba ou instrumentos eletrônicos. “O pandeiro tem de ser de couro, e não em acrílico, como é comum hoje em dia”, destaca o pesquisador.

José Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

Segundo o sociólogo, o período escolhido pelo coletivo diz respeito a uma época em que o samba não estava ainda tão inserido no mercado fonográfico. “Somente a partir das décadas de 1960, 1970 e 1980 é que há maior inserção do samba no mercado, já que ele acompanha o processo industrial brasileiro”, explica o pesquisador.

Além das interpretações, os componentes do Samba de Terreiro de Mauá estudam os compositores que serão homenageados, suas vidas e suas obras. “Trata-se de um trabalho de pesquisa, educação e esclarecimento dos contextos em que as músicas foram compostas pelos sambistas”, esclarece o pesquisador. Ele também relata que, em muitos casos, componentes do coletivo realizam visitas aos locais onde viveram os compositores para saber de seus costumes. “Ou seja, para melhor entender o contexto de vida dos sambistas e melhor reproduzir suas obras”, explica.

Veja abaixo o vídeo dos 15 anos do Samba de Terreiro de Mauá:

Rocha Filho destaca a homenagem que foi feita ao sambista Chico Santana. Naquele ano de 2010, o coletivo fez uma roda de samba que envolveu outros coletivos, de outros Estados. “Como Minas Gerais, por exemplo, no projeto Roda de Samba de Uberlândia”, lembra o sociólogo. Dentre outras viagens feitas pelos componentes do grupo, a homenagem ao compositor culminou com uma roda de samba na Portelinha, na cidade do Rio de Janeiro, junto com outros coletivos de Belo Horizonte e do Projeto Resgate, do Rio Grande do Sul.

Espaço de socialização

O projeto Samba de Terreiro de Mauá acabou se tornando, como conta Rocha Filho, um espaço socializador. Além das rodas mensais, os organizadores constituíram o bloco de samba “Pega o Lenço e Vai”. Da mesma forma, respeitam as tradições de acordo com os temas que são abordados a cada ano. “Posso citar como exemplo a Revolta dos Malês, que já foi tema central. Neste caso, houve um período de estudos durante todo o ano anterior ao período de carnaval”, descreve.

Coletivo reunido em 2009 - Foto: Blog Samba de Terreiro de Mauá/Cedida pelo pesquisador

Fica assim expresso um dos principais objetivos do coletivo, que é a preservação da cultura. “Os estudos e discussões do bloco acabam gerando conteúdos educacionais que vêm de encontro à Lei 10.639, de preservação da cultura africana e indígena, por exemplo”, destaca o pesquisador.

Outra atividade do coletivo, como conta Rocha Filho, foi a produção de uma peça teatral, que também atende aos mesmos requisitos de preservação do samba de acordo com uma época. O musical intitulado Candeia Samba na Veia foi apresentado juntamente com o grupo de teatro Alvorada, no Teatro Oficina. “Trata-se de um compositor que teve diversas contradições em sua trajetória de vida, o que reflete numa história rica de um grande defensor da cultura afro-brasileira”, explica o pesquisador, lembrando que a primeira temporada do musical foi em 2017 e a segunda em 2018.

Atualmente, o Samba de Terreiro de Mauá conta com 12 componentes e busca um lugar para as suas apresentações mensais. “Após a pandemia, as coisas se complicaram”, descreve Rocha Filho. Neste 2023, foram duas apresentações. Para a sua pesquisa, o sociólogo entrevistou componentes do coletivo e colheu depoimentos em diversas conversas informais durante as rodas de samba. Outra característica destacada por Rocha Filho é o aspecto democrático de decisões e ações do grupo. “Tudo é decidido por uma maioria”, descreve.

Mais informações: zerocha@usp.br

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

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