Anielle Franco foi indicada como uma das 12 mulheres do ano pela revista Time e carrega consigo o legado de Marielle Franco - Fotomontagem: Jornal da USP - Fotos: Wikipedia, Flickr e Texturelabs

Em Anielle, a voz de todas as Marielles

O que representa a escolha de Anielle Franco como uma das 12 mulheres do ano pela Time no mês de aniversário de morte de sua irmã

 17/03/2023 - Publicado há 12 meses     Atualizado: 30/03/2023 as 15:26

Texto: Marcello Rollemberg
Arte: Carolina Borin Garcia

Quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes? Quem mandou matar Marielle? Há cinco anos essa pergunta não tem resposta. Desde que a socióloga e vereadora do PSOL do Rio de Janeiro e seu motorista foram assassinados a tiros por Ronnie Lessa naquele dia 14 de março de 2018, logo depois de Marielle deixar um evento na Casa das Pretas, na Lapa carioca, essa pergunta ressoa Brasil afora. E mundo afora também, pode-se dizer. Porque, se a intenção desse mandante que se tornou o sujeito mais bem oculto do País nos últimos anos era calar aquela mulher negra, feminista, homossexual e defensora dos direitos humanos e das minorias, o tiro saiu pela culatra – com o perdão de um trocadilho talvez não muito apropriado. Mas verdadeiro. A morte de Marielle acabou se tornando um fator catalisador de sua luta. Sua voz, em vez de calada, ganhou uma caixa de ressonância que deu à jovem vereadora carioca – apenas 38 anos – e à sua bandeira uma simbologia que estava longe daquela intenção criminosa de cinco anos atrás. 

Marielle, morta, se tornou inúmeras Marielles, bandeiras em punho, gritos em defesa das minorias. olhos nos olhos dos extremistas. E deu luz àquela que preferia – a pedido da mãe angustiada com a perda de uma filha – não se meter em política. Mas, muitas vezes, não é a pessoa que escolhe o caminho da política. É a própria política – em seu sentido mais pleno e amplo – que o faz. E a política escolheu Anielle Franco, a irmã mais nova de Marielle, jornalista, ex-jogadora de vôlei nos Estados Unidos, para ser uma das ocupantes do espaço que a morte de Marielle criou. E que exige ser preenchido.

Velório de Marielle Franco em 15 de março de 2018, no Rio de Janeiro - Fotos: Reprodução/Mídia Ninja via Flickr

Com a mesma idade que a irmã tinha quando foi morta, Anielle Francisco da Silva – que como a irmã adotou o “Franco” como nome público – entrou na política pela porta da frente, escolhida ministra da Igualdade Racial no governo Lula. E pouco mais de um mês depois de assumir a pasta, as portas para sua luta e sua bandeira – que são as mesmas das de sua irmã – se abriram ainda mais, com a indicação pela prestigiosa revista Time de Anielle Franco como uma das 12 mulheres do ano. “A trágica história familiar, a personalidade calorosa e o uso hábil das mídias sociais transformaram Anielle, ora reservada, em uma líder improvável do movimento pelos direitos dos negros no Brasil”, descreveu a revista americana. Mas o que representa essa indicação da Time para esse novo Brasil que respira mais aliviado?

“Penso que seja complicado dizer o que representa para o Brasil que temos hoje. Consigo pensar o que significa para a luta que Anielle encampou para a construção do Brasil que queremos que exista”, avalia a professora Gislene Aparecida dos Santos, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP). “Nesse sentido, penso que o reconhecimento de Anielle em uma revista internacional contribua para chamar a atenção para a história de uma mulher negra, da periferia, que abraçou a luta travada por outra mulher negra, Marielle Franco, que ilustra a vida, a história e a luta de todas as mulheres pretas, das periferias do Brasil, que fazem de suas vidas uma batalha cotidiana contra as opressões interseccionais de raça, gênero, tom de pele e classe social”, afirma ela, que também é articulista do Jornal da USP.

Gislene Aparecida dos Santos - Foto: IEA/USP

Em entrevista recente à Globonews, Anielle definiu bem essa questão colocada pela professora Gislene. “A gente só dá valor pelo que a gente recebe e por estar aqui nesse Ministério depois de ter passado por quatro anos de muito ódio, de muito ataque, e ter hoje um governo que cuida da gente, que cuida do caso da Mari, que cuida do povo preto. É entender que a gente está, de uma certa maneira, vencendo esse ódio.”

Posse de Anielle Franco em 11 de Janeiro de 2023 como ministra da Igualdade e dos Direitos Humanos - Foto: Reprodução/Mídia Ninja via Flickr

A professora da EACH ressalta ainda alguns outros aspectos da importância da pasta que Anielle ocupa e da própria ministra. “Penso que seja interessante observar que mulheres negras têm sido indicadas (mesmo que não em 100% das vezes) para esse ministério, demonstrando que a ação política das mulheres negras é essencial para a equidade e para a democracia. Isso porque sabemos que as mulheres negras são aquelas que, infelizmente, vivem as situações de maior vulnerabilidade social no Brasil”, ressalta . “As mulheres negras estão na base social e estar na base significa aguentar o peso de sustentação de toda a estrutura, isso desde o começo da história do País. Daí, a indicação de mulheres negras para pastas que têm como meta discutir aquilo que estrutura as desigualdades sociais no Brasil é essencial”, afirma. Mas Gislene faz uma ressalva importante: “Considero bastante complicado deduzir que, sozinha, como figura única, seja possível exigir ou esperar dela que tenha influência suficiente para mudar os rumos da política nacional ou internacional no que diz respeito às mulheres negras e aos negros. Sempre é importante sinalizar para o fato de que é a ação coletiva que é capaz de fazer a pressão e as interações necessárias para a transformação social, ano após ano, década após década. Essa é uma lição que o feminismo negro tem ensinado mundo afora, apontando para o cuidado com a comunidade e o trabalho conjunto. Mas, obviamente, ilustrar essa movimentação com personalidades de destaque contribui para chamar a atenção para as causas que sustentam”.

“Anielle significa a potência da juventude”

Quem também refletiu sobre a escolha de Anielle Franco como uma das 12 mulheres do ano pela Time foi a poeta e escritora Conceição Evaristo. Atual titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência da USP, ela acredita que a nomeação “comprova que as mulheres negras têm um poder de atuação, de organização, um poder de luta, dentro de situações históricas”. “Porém, esse reconhecimento é muito recente, esse processo histórico de reconhecimento tem tido muitas dificuldades. No caso de Anielle Franco, ela é uma mulher jovem, tem idade para ser minha bisneta. Acho muito exemplar que significa também a potência da juventude. A juventude está aí para continuar nossa luta”, afirma ela.

A escritora Conceição Evaristo - Foto: IEA/USP

Para a catedrática, a escolha de Anielle representa também a coroação de uma luta que as mulheres negras vêm travando há muitos anos. “Acho que termos uma mulher nova representativa, ter uma mulher nova que recebe uma nomeação como ela recebeu, deixa a nós, mulheres mais velhas, felizes porque temos certeza que a Anielle é fruto da nossa luta. Eu como mulher mais velha me sinto contemplada”, acredita – e vai além em sua reflexão. “Há momentos da história que são mais silenciosos, ou que são momentos em que as populações mais pobres são mais sacrificadas pela inconsequência, pela irresponsabilidade, pela maldade e pela força do capitalismo que está imperando. Mas eu acredito firmemente no movimento da história, que há momentos de retrocesso e de avanços. Hoje estamos com esperança de um momento de avanço, e o que desejamos é que os avanços de agora sejam tão positivos e grandiosos que consigam anular as tragédias do passado.”

Conceição Evaristo também fez uma colocação sobre como arte e cultura acabam por se irmanar nessa luta em defesa da diversidade, das minorias e dos direitos humanos – as bandeiras, ressalte-se, que eram de Marielle e que agora estão nas mãos de Anielle e de tantas outras mulheres. “Para mim é muito significativo que, no dia de sua posse, a Anielle tenha declamado um poema meu. E os últimos versos do poema são justamente sobre essa passagem do bastão, essa passagem de responsabilidade, em que uma voz de uma pessoa mais velha, no caso nossa bisavó, acredita numa voz da juventude. A Anielle ter declamado esse poema tanto ilustra e define o compromisso dela com essa luta política, quanto também demonstra a sensibilidade dela com a arte. E nós sabemos como a arte é importante, como a arte nos faz, como a arte nos coloca, como a arte nos fortifica”, finaliza Conceição Evaristo. O poema ao qual a catedrática se refere é Vozes-Mulheres, de 2008. E termina assim:

“A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

E fome.

A voz de minha filha 

recolhe todas as nossas vozes 

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância 

O eco da vida-liberdade.”

*Com reportagem de Emilly Gondim


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