Vírus da zika modificado em laboratório destrói células de tumores do sistema nervoso

Testada em animais, versão sintética do vírus, que não transmite a doença, multiplica-se nas células tumorais e as leva à morte; testes clínicos devem começar em junho, após aprovação da Anvisa

 Publicado: 08/02/2024     Atualizado: 15/02/2024 as 14:44

Texto: Júlio Bernardes

Projeto de pesquisadores da USP indica a possibilidade da transformação do vírus da zika em um produto da biotecnologia para o tratamento de tumores do sistema nervoso - Fotomontagem: Jornal da USP - Imagens: ydlabs/Freepik, kjpargeter/Freepik, Marcos Santos/USP Imagens, ManuelSchottdorf/Wikipedia e Purdue University image/Grupo de Pesquisa Kuhn and Rossmann via Flickr

Projeto de pesquisadores da USP indicam a possibilidade da transformação do vírus da zika em um produto da biotecnologia para o tratamento de tumores do sistema nervoso - Fotomontagem: Jornal da USP - Imagens: ydlabs/Freepik, kjpargeter/Freepik, Marcos Santos/USP Imagens, ManuelSchottdorf/Wikipedia e Purdue University image/Grupo de Pesquisa Kuhn and Rossmann via Flickr

A transformação do vírus da zika em produto de biotecnologia para o tratamento de tumores do sistema nervoso é o resultado do projeto de uma startup criada por pesquisadores da USP. Testada com êxito em animais, uma versão sintética e modificada do vírus, que não transmite a doença, penetra nas células tumorais e, ao se multiplicar, leva essas células à morte. Os testes clínicos do tratamento devem começar em junho, após a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O estudo com o vírus modificado é descrito em artigo publicado na edição de fevereiro da revista Molecular Therapy. A pesquisa, conduzida pela startup de biotecnologia Vyro Biotherapeutics, empresa incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec) da USP, contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto Butantan, Harvard Medical School (Estados Unidos) e Universidade de Cambridge (Reino Unido), entre outras instituições.

O tratamento é voltado principalmente para tumores do sistema nervoso central, tanto em adultos quanto em crianças, que atingem cerca de 300 mil pessoas em todo o mundo, com sobrevida estimada em 14 meses após a descoberta do tumor. “Também foi observado um potencial para tumor de mama tipo triplo negativo”, afirma ao Jornal da USP a pesquisadora Carolini Kaid, da Vyro, empresa criada por especialistas do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco (HUG-CELL) do Instituto de Biociências (IB) da USP.

Com base em pesquisas sobre a atividade do vírus da zika contra tumores, os pesquisadores desenvolveram uma versão sintética, diferente da encontrada na natureza, que não transmite a doença. “Foi inserida no genoma do vírus uma sequência suicida, de modo que, se o vírus entrar em células saudáveis, ele é degradado”, relata Carolini Kaid. “Entretanto, quando entra em uma célula tumoral, ele replica, levando-a à morte.”

Carolini Kaid - Foto: CM Press/Divulgação

Morte da célula tumoral

“O vírus modificado usa a maquinaria da célula para replicar seu genoma e multiplicar. Quando a quantidade do vírus aumenta exponencialmente, a membrana plasmática da célula se rompe, processo conhecido como lise, e ela morre”, descreve a pesquisadora. “Por isso, esse tipo de terapia é chamado de oncolítica, ou seja, lise da célula tumoral.”

Os testes foram feitos com camundongos Balb/C Nudes. “No experimento foram inseridas células tumorais humanas no cérebro dos animais, imitando uma metástase”, relata Carolini Kaid. “Sete dias depois da inserção e crescimento do tumor, o tratamento com vírus modificado é feito direto no cérebro ou de modo sistêmico, por meio de injeção na barriga do animal, o que equivale à introdução de soro na veia em seres humanos.” A metástase é a fase final da propagação das células de tumores pelo corpo.

“Ambas as vias de administração mostraram remissão total do tumor, aumento de sobrevida e segurança”, ressalta a pesquisadora. “Como o vírus desenvolvido é sintético, o caminho para chegar à clínica é mais curto.” De acordo com Carolini Kaid, já foi desenvolvido o processo de produção industrial, ou seja, o vírus sintético pode ser produzido em grande escala.

Micrografia eletrônica do vírus zika, em azul-escuro - Imagem: Domínio Público/CDC-Wikimedia Commons

“A equipe médica da startup já desenhou o estudo clínico de fase 0 para glioblastoma recorrente, um tipo de câncer nas células do cérebro”, aponta. “Os próximos passos são submissão da documentação para a Anvisa e a previsão para início dos estudos clínicos é junho de 2024.” O artigo Genetically modified ZIKA virus as a microRNA-sensitive oncolytic virus against central nervous system tumors está disponível neste link.

A patente do tratamento foi submetida ao United States Patent and Trademark Office (USPTO), no Estados Unidos, no modelo do Tratado Internacional de Patentes (PCT), no qual o registro abrange vários países, inclusive o Brasil, com auxílio dos escritórios de patente Kaznar Leonardos no Brasil e Wilson Sonsini nos EUA. Todo o estudo foi financiado pela Vyro, que em 2022 recebeu um investimento de US$ 1,5 milhão da Vesper-Venture, fundo brasileiro especializado em biotecnologia.

Mais informações: e-mails carolini.kaid@vyrobio.com e carolinikaid@hotmail.com, com Carolini Kaid, e cmpressproducoes@gmail.com, com Cláudia Moura

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.