Há 200 milhões de anos, mudanças climáticas foram essenciais para dinossauros espalharem-se pelo planeta

Aumento da umidade relacionado com o surgimento de novos oceanos permitiu a grupo de dinossauros alcançar áreas de clima tropical

 11/01/2023 - Publicado há 1 ano     Atualizado: 13/01/2023 as 15:26
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O aumento da umidade, relacionado com surgimento de novos oceanos a partir da fragmentação do supercontinente Pangeia, por volta de 200 milhões de anos, permitiu aos dinossauros do grupo dos sauropodomorfos alcançarem áreas de clima tropical – Foto: Wikimedia Commons

Num período entre 230 e 180 milhões de anos antes da nossa era, as mudanças climáticas foram essenciais para um importante grupo de dinossauros, os sauropodomorfos, espalhar-se pelo planeta. Em artigo publicado na revista Current Biology, um grupo de pesquisadores, com participação da USP, usou dados obtidos em fósseis e simulações meteorológicas para estimar as condições climáticas da época. A pesquisa aponta que há 230 milhões de anos as regiões tropicais tinham grandes variações de temperatura e chuvas, o que limitava a presença dos sauropodomorfos a locais de clima mais ameno, distantes dos trópicos. A situação muda com o aumento da umidade, relacionado com o surgimento de novos oceanos a partir da fragmentação do supercontinente Pangeia, por volta de 200 milhões de anos, que vai permitir ao grupo alcançar áreas de clima tropical.

O período abordado pela pesquisa estendeu-se do Triássico Superior até o final do Jurássico Inferior, entre 230 e 180 milhões de anos antes dos tempos atuais. “Ele foi selecionado pois engloba os primeiros milhões de anos de evolução dos dinossauros, o evento de extinção acontecido na transição do Triássico para o Jurássico, há 200 milhões de anos, e o período de expansão da distribuição geográfica de alguns grupos, durante o Jurássico Inferior”, relata ao Jornal da USP o paleontólogo Pedro Godoy, pós-doutorando da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), um dos autores do trabalho. “Nesse período, o que vemos na disposição dos continentes é que o supercontinente Pangeia estava dividido em dois principais blocos: Laurásia ao Norte, que incluía a América do Norte, Europa e Ásia, e Gondwana ao Sul, que incluía a América do Sul, África, Antártica, Austrália, Índia e Madagascar.”

Pedro Godoy – Foto: Reprodução/Fapesp

O objetivo do estudo foi tentar entender os mecanismos por trás dos primeiros milhões de anos de evolução dos dinossauros, logo após sua origem. “Surgidos no final do período Triássico, conhecido com Triássico Superior, há 230 milhões de anos, esses animais eram inicialmente mais restritos geograficamente do que após a extinção do Triássico-Jurássico, além de serem relativamente menos diversos que alguns outros grupos de tetrápodes, que são vertebrados com quatro membros”, aponta o paleontólogo. “Por isso, estudos anteriores sugeriram que os dinossauros teriam ‘vencido a competição’ com esses outros animais após o evento de extinção. No entanto, pouco se sabia sobre o papel do clima do período em sua evolução inicial. Para testar a ‘hipótese da competição’ e também o impacto das mudanças, usamos dados de modelos climáticos do passado para estudar, de maneira quantitativa, a evolução dos nichos climáticos do grupo.”

Os dados climáticos empregados no trabalho incluem temperatura e precipitação média anual, além da variação sazonal de temperatura. “Eles vêm de modelos que combinam informações ambientais do registro fóssil e simulações meteorológicas para gerar dados altamente precisos. Assim, nós temos dados ‘paleoclimáticos’ para cada uma das localidades onde os fósseis de dinossauros foram encontrados”, explica Godoy. “Em geral, o Triássico foi um período mais quente e seco, ao passo que o Jurássico é caracterizado por um aumento da umidade, relacionado à fragmentação do supercontinente Pangeia, que deu origem a novos oceanos. Alguns estudos também sugerem que o Triássico possuía variações sazonais mais drásticas, mesmo em regiões tropicais.”

Período Triássico foi mais quente e seco, ao passo que o Jurássico é caracterizado por um aumento da umidade, relacionado à fragmentação do supercontinente Pangeia, que deu origem a novos oceanos – Foto: Cedida pelo pesquisador


Rumo aos Trópicos

A principal mudança na distribuição dos dinossauros no período se deu em relação aos sauropodomorfos. “Este grupo inclui animais herbívoros e pescoçudos, como o Apatossauro, porém, durante o Triássico Superior, os primeiros representantes do grupo eram bem menores, ainda sem pescoços tão longos”, diz o paleontólogo. “Em relação à distribuição geográfica, durante o Triássico Superior eles estavam mais restritos a regiões temperadas, ou seja, mais distantes dos trópicos. Inclusive, uma das regiões mais importantes para entendermos a origem dos dinossauros é o Rio Grande do Sul, no Brasil, onde foram encontrados alguns dos exemplares mais antigos do mundo.”

No Jurássico Inferior, os pesquisadores observaram que os sauropodomorfos se encontram mais espalhados no globo, habitando também regiões tropicais. “Este padrão é diferente do observado para outros dinossauros e também para outros tetrápodes, que já habitavam regiões tropicais antes do final do Triássico. O que os nossos resultados mostram é que essa mudança na distribuição geográfica possivelmente se deu por causa das alterações no clima ocorridas na transição do Triássico para o Jurássico”, aponta Godoy. “Como explicado, as regiões tropicais durante o Triássico Superior possuíam variações sazonais mais extremas, que possivelmente limitavam a ocorrência do grupo nestas regiões. Com o aumento da umidade durante o Jurássico, eles finalmente puderam ocupar estas regiões mais próximas da linha do Equador.”

De acordo com o paleontólogo, este estudo é um dos primeiros a utilizar dados mais precisos para estudar o efeito do clima na evolução dos dinossauros. “Ele abre portas para estudarmos outros períodos de tempo e melhor entendermos como as mudanças ambientais influenciaram no sucesso e declínio dos dinossauros não-avianos, ou seja, que não são aves”, observa. “Por fim, a facilidade de acesso a esses dados também nos permite investigar os efeitos em outros grupos de animais e plantas, o que fortalece nosso conhecimento sobre o tema e nos ajuda a construir melhores previsões sobre futuras eventuais extinções, como as decorrentes do atual processo de mudanças climáticas.”

A pesquisa foi liderada pela professora Emma Dunne, da Friedrich-Alexander-Universität Erlangen Nürnberg (FAU), na Alemanha, que desenvolveu a maior parte do estudo durante o seu doutorado na University of Birmingham, do Reino Unido, orientado pelo professor Richard Butler, último autor do artigo. “Além dos dois, Sarah Greene também é pesquisadora da University of Birmingham e especialista em paleoclimatologia. Outros três pesquisadores, Alexander Farnsworth, Paul Valdes e Daniel Lunt, são vinculados à University of Bristol, do Reino Unido, e participaram do projeto por serem os desenvolvedores dos modelos climáticos. Já o professor Roger Benson, da University of Oxford, é especialista em evolução dos dinossauros”, conta Godoy. “Por fim, atualmente sou pós-doutorando da FFLCRP e minha colaboração se deu principalmente em relação às análises macroevolutivas utilizadas no estudo.”

Mais informações: e-mail pedrolorenagodoy@gmail.com, com Pedro Godoy


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