Mulher que teve gravidez na adolescência ganha em média 30% menos

Estudo realizado na USP alerta para as complicações na situação econômica atual e futura de jovens gestantes

O estudo também indica que os casos de gravidez precoce são mais frequentes em regiões pobres e entre mulheres com baixa escolaridade, o que perpetua o ciclo de pobreza – Foto: EBC/Agência Brasil

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Um estudo realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, analisou como a gravidez na adolescência pode afetar economicamente a vida de mulheres. De acordo com os dados levantados, há uma queda de 1,3 anos na escolaridade das mulheres que tiveram filhos com menos de 20 anos e a probabilidade de entrar em um mercado formal se reduz em 12 pontos porcentuais. Essas diferenças podem causar impacto econômico de grandes proporções: foi observada uma redução de 30% no salário de mulheres que ficaram grávidas durante a adolescência.

A pesquisa faz parte de um projeto que examina o impacto da gravidez precoce na educação, alfabetização e no mercado de trabalho em quatro países da África e no Brasil. Ana Lúcia Kassouf, docente sênior do Departamento de Economia, Administração e Sociologia (LES) da Esalq, foi a responsável pelo estudo no Brasil. Para obter os resultados, ela analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com um relatório de 2018 da Organização Mundial da Saúde, o Brasil é um dos países com a maior incidência de gravidez na adolescência do mundo. Enquanto a taxa mundial é de 46 nascimentos para cada 1 mil meninas, no Brasil esse índice é de 68,4 para cada 1 mil. Entre as razões da grande incidência dos casos no País estão os problemas sociais e econômicos da população pobre.

Salário

A professora Ana Lúcia Kassouf, da Esalq – Foto: Acervo pessoal

Como explica a pesquisadora, em grande parte dos casos a jovem gestante precisa deixar a escola ou pausar os estudos temporariamente, um dos principais motivos para o impacto econômico negativo. “Elas acabam em empregos compatíveis com a falta de habilidades, que pagam menos e que não têm nenhum seguro saúde ou ajuda social, o que complica mais ainda a vida dessas mulheres”, disse Ana.

Outra evidência é que os casos são mais frequentes em regiões pobres, em mulheres com baixa escolaridade, o que acaba perpetuando o ciclo de pobreza. “Elas entram em um mercado de trabalho ruim, provavelmente em um setor informal, porque não têm escolaridade, experiência, precisam de uma flexibilidade maior de tempo e precisam da renda”, explicou. A pesquisadora também alerta para a falta de políticas públicas e estudos sobre o problema.

Para que o cenário melhore, a docente defende que a discussão sobre sexualidade na escola é essencial para que jovens se conscientizem das complicações que uma gravidez na adolescência pode trazer. Além disso, é necessário atendimento personalizado para que as jovens mães consigam voltar para a escola. “As adolescentes grávidas precisam ter educação, uma forma de passar essas informações para elas, às vezes até na escola, nas famílias, programas de saúde, para que elas tenham ciência da complicação que será uma gravidez precoce.”

Além do quadro econômico, a pesquisadora também comenta sobre as complicações na saúde da mulher. “A principal causa de morte entre meninas de 15 a 19 anos é a gravidez na adolescência, em razão de complicações na gestação e no parto. Além disso, elas são mais expostas a doenças sexualmente transmissíveis e a probabilidade de morte do bebê na primeira semana após o nascimento é 50% maior”, finaliza.

O estudo teve financiamento da organização sem fins lucrativos Partnership for Economic Policy (PEP).

Clique aqui para conferir na íntegra os resultados (em inglês).

Com informações da Assessoria de Comunicação da Esalq

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