As vivências de uma antropóloga negra em concursos para lecionar em universidades públicas

Em artigo na “Revista de Antropologia”, a pesquisadora Alexandra Alencar fala das batalhas do dia a dia na busca por circunstâncias favoráveis e saudáveis em um sistema que continua estruturado no racismo e no sexismo

 12/01/2022 - Publicado há 4 meses

Por Margareth Artur/Revistas da USP

E se quem quer estudar em nível superior no Brasil for negro, ou melhor, uma mulher negra, e ainda quiser ser professor universitário, será fácil? Estudar, em nosso país, não é tão simples quando se esbarra nas precárias condições financeiras, sociais e culturais de grande parte da população brasileira, principalmente para as mulheres negras – Formatura – Foto: Ron Lach

 

“Estudar para ser alguém vida.” Quem já não ouviu, de parentes, na rua, ou leu essa frase em algum livro, revista, na internet? O que está oculto nessas palavras? Elas remetem a quais mensagens, ideias e ditames sociais? E se quem quer estudar em nível superior neste país for negro, ou melhor, uma mulher negra, e ainda quiser ser professor universitário, será fácil? Estudar, no Brasil, não é tão simples quando se esbarra nas precárias condições financeiras, sociais e culturais de grande parte da população brasileira, principalmente para as mulheres negras, pois o preconceito é sempre um inimigo pronto para atacar e interferir nas escolhas do ser humano em todos os níveis: na autoestima, nos desejos e nos esforços para conquistas e realizações pessoais. A pesquisadora Alexandra Alencar discute esse tema no artigo Re-existências: notas de uma antropóloga negra em meio a concursos públicos para o cargo de magistério superior, publicado na Revista de Antropologia.

O texto fala de uma antropóloga negra às voltas com os concursos públicos para o cargo de docência em universidades, no caso, em uma universidade pública do Sul do Brasil. A autora relata as batalhas do dia a dia na procura de circunstâncias favoráveis e saudáveis “em um sistema capitalista que continua estruturado por várias perspectivas opressivas, como o racismo e o sexismo”. 

Em meio às dificuldades, já estamos vivenciando um período de visibilidade de negros/as, indígenas, pessoas de baixa renda, quilombolas, populações LGBTQIA+, entre outras, graças às políticas de ações afirmativas que garantem vagas nas universidades públicas brasileiras. As políticas de ações afirmativas e a presença negra na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) proporcionam uma diversidade que influencia a estrutura da universidade, “permeada pelos efeitos da colonização proposta para essa região do País e visibiliza a necessidade de repensar tal instituição em seu tripé constitutivo de ensino, pesquisa e extensão”. O artigo aponta que a UFSC é fruto da história racista da sociedade catarinense, que gerou a invisibilidade negra na instituição, justificada pela “superioridade racial dos brancos” e Santa Catarina se mostrou, assim, como o “Estado branco”.

A autora conta como introduziu, na vida universitária, vivências mostrando “o que  é ser um corpo negro na UFSC”, valendo-se da prática de atividades coletivas baseadas na cultura africana, em que se desenrolam histórias e atividades como, por exemplo, a busca, “por meio do lançamento de flechas, compartilhar coletivamente nossos alvos: a profissão, a educação, o conhecimento, o compromisso com a sociedade e a felicidade foram alguns dos destinos que nossas flechas tentaram alcançar”, argumenta Alexandra Alencar. Essa mulher, negra, expõe, no artigo, toda sua trajetória de superação na realização de um objetivo: a docência universitária exercida com liberdade e respeito, citando, nesse sentido, a importância da diferença das expressões negrotema e o negro-vida e do amor, criadas pelo sociólogo negro Alberto Guerreiro Ramos.

Ele esclarece: “o negro-tema é uma coisa examinada, olhada, vista, ora como ser mumificado” e o negro-vida “é algo que não se deixa imobilizar; é despistado, profético, multiforme, do qual, na verdade, não se pode dar versão definitiva”. O texto é um chamado para a união dos “quase excluídos”, consolidando e assegurando as re-existências, estimulando as reivindicações para que ninguém se dobre ao individualismo, à insana competitividade do sistema acadêmico e à tendência de as presenças negras serem direcionadas à objetificação do ser. Concluindo, a autora afirma que, tendo em vista, abraçando e abarcando outros saberes, estaremos prontos para as possibilidades de “criar outras formas metodológicas de ensino”.

Artigo

ALENCAR, A. E. V. Re-existências: notas de uma antropóloga negra em meio a concursos públicos para o cargo de magistério superiorRevista de Antropologia, São Paulo, v. 64, n. 3, 2021. DOI:  https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2020.189647. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/189647. Acesso em: 11 nov. 2021.

Contato

Alexandra E. V. Alencar Professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), doutora em Antropologia Social (PPGAS/UFSC), rainha do Maracatu Arrasta Ilha, pesquisadora do Núcleo de Identidades e Relações Interétnicas da UFSC (Nuer/UFSC) e do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades da UFSC (Nigs/UFSC), e coordenadora da Aláfia Casa de Cultura e mãe do Nagô e do Irê. 

e-mail xanda.alencar@gmail.com 


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