Canal de Vema (à esquerda, na imagem) é uma passagem estreita e profunda no Oceano Atlântico, entre Santos (São Paulo) e Rio Grande (Rio Grande do Sul), por onde flui a Água Atlântica de Fundo (AAF), que se forma na Antártida e avança para o Atlântico Norte, como parte da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC). A temperatura, salinidade e pressão do Canal de Vema são medidas pelas estações de monitoramento do projeto SAMOC, instaladas no Atlântico Sul, entre o Brasil e África, para obter indícios de efeitos das mudanças climáticas – Imagem: Bertrand Dano, NOAA/AOML

Aquecimento das águas no fundo do Atlântico Sul se acelerou neste século, mostra estudo internacional

Pesquisa revela que entre 2006 e 2020, no Atlântico Sul, houve aumento de 62,5% na média anual de aquecimento das águas próximas ao fundo do oceano

 Publicado: 30/09/2021  Atualizado: 01/10/2021 as 17:16
Por Júlio Bernardes
Arte: Lívia Magalhães/Jornal da USP

Pesquisa internacional com participação da USP aponta que o aquecimento das águas próximas ao fundo do oceano, no Atlântico Sul, região onde está localizada a costa brasileira, tem aumentado rapidamente desde o início do século 21, com a média anual de elevação da temperatura aumentando 62,5% entre 2006 e 2020. A conclusão é baseada na análise de informações sobre temperatura, salinidade e pressão em arquivos históricos e dados coletados pelo projeto South Atlantic Meridional Overturning Circulation (Samoc), que monitora o fluxo das águas que vêm da Antártida em direção ao oceano Atlântico. Segundo os pesquisadores, o resultado do estudo sugere que o aquecimento das águas abissais no Atlântico Sul decorre de um possível aquecimento acelerado na região antártica, provavelmente em razão de mudanças climáticas influenciadas pela atividade humana.

A pesquisa é descrita em artigo publicado na revista científica Geophysical Research Letters em 21 de setembro. “O trabalho investigou variabilidades nos fluxos meridionais das águas no Atlântico Sul e suas conexões com as mudanças no clima do planeta”, afirma ao Jornal da USP o professor Edmo Campos, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, primeiro autor do artigo. “Devido ao alto calor específico da água e sua grande quantidade, cobrindo cerca de 71% da superfície da Terra, o oceano é o controlador do sistema climático.”

Edmo Campos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O professor aponta que, com base em pesquisas publicadas nos últimos anos, sabe-se que o planeta vem se aquecendo como resultado das ações humanas (antrópicas). “Uma questão altamente relevante é se esse aquecimento seria reversível com a redução da emissão de gases que produzem o efeito estufa”, diz. “A resposta a essa pergunta passa pelo entendimento do papel do oceano no sistema climático e o conhecimento de quanto o oceano já foi afetado. Nesse contexto, um dos movimentos mais relevantes das águas oceânicas é a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc), que transporta massas de água quente dos trópicos para o norte na superfície do oceano e água fria para o sul no fundo do oceano. Instabilidades da Amoc podem levar a mudanças abruptas no clima.”

Para entender as condições médias e a variabilidade da Amoc no Atlântico Sul, o projeto de pesquisa Samoc foi criado em 2007, reunindo instituições de vários países. “Um de seus componentes mais relevantes é o sistema de monitoramento dos fluxos oceânicos através da latitude 34.5 Sul, chamado de Samoc Basin-wide Array (Sambar). A USP é uma das instituições responsáveis por essa rede de observação transoceânica, com a realização de cruzeiros oceanográficos e a manutenção de instrumentos ancorados em diferentes pontos do Atlântico Sul”, descreve Campos. “Uma dessas plataformas de observação é o conjunto de sensores colocados a cerca de 4.500 metros de profundidade no Canal de Vema, uma passagem estreita e profunda entre o Platô de Santos, em São Paulo, e a Elevação do Rio Grande, no Rio Grande do Sul, por onde escoa a Água Antártica de Fundo (AAF).”

“No Atlântico Sul, o Canal de Vema é por onde passa a maior parte da Água Antártica de Fundo em seu lento avanço em direção ao Atlântico Norte. Isso faz com que o local seja um ponto-chave para monitorar as variabilidades nessa massa de água profunda.”

Variações nas águas

As análises feitas na pesquisa usaram dados de temperatura, salinidade e pressão coletados próximo ao fundo no Canal de Vema, entre janeiro de 2019 e janeiro de 2020. “A AAF é uma massa de água fria e densa, formada ao redor da Antártida e que se espalha nas regiões abissais, no fundo dos oceanos”, explica o professor do IO. “No Atlântico Sul, o Canal de Vema é por onde passa a maior parte da AAF em seu lento avanço em direção ao Atlântico Norte. Isso faz com que o local seja um ponto-chave para monitorar as variabilidades nessa massa de água profunda.”

Evolução da temperatura da Água Antártica de Fundo (AAF), no Canal de Vema, baseado em dados históricos e dados coletados pelo sistema de monitoramento Sambar entre janeiro de 2019 e janeiro de 2020. As linhas vermelhas mostram um possível aquecimento acelerado. Já entre entre 1990 e 2016, o aumento de temperatura foi de 0,0016 graus Celsius (ºC) por ano, de 1990 a 2006, e de 0,0026 ºC por ano, a partir de 2008, um aumento de 62,5% – Imagem: Campos et al., GRL, 2021

“As águas que escoam próximo ao fundo pelo Canal de Vema são formadas, ou seja, afundam, ao redor do Continente Antártico. Se há um aquecimento acelerado nessas águas, isso significa que as temperaturas ao redor da Antártida estão também aumentando de forma acelerada. Isso é um mau sinal, pois sugere uma piora nas condições climáticas do planeta, provavelmente por influência da ação humana.”

Entre 1990 e 2006, a taxa de aquecimento observada nas profundezas do Atlântico Sul foi de 0,0016 graus Celsius (ºC) por ano. De 2006 a 2020, essa taxa aumentou para 0,0026 ºC por ano, um incremento de 62,5%. “Ao contrário do que pode parecer, esses números não são nem um pouco desprezíveis”, destaca Campos. “Para produzir esse aquecimento, desde 1990, o oceano sequestrou da atmosfera mais de 2.0 x 1023 Joules, uma quantidade de energia equivalente à explosão de algumas bombas de Hiroshima, a cada segundo, durante esse período.”

Os resultados confirmam o aquecimento das águas próximas ao fundo no Atlântico Sul, com significativa indicação, inédita, de que esse aquecimento vem aumentando desde o início do século 21, ressalta Campos. “As águas que escoam próximo ao fundo pelo Canal de Vema são formadas, ou seja, afundam, ao redor do Continente Antártico”, ressalta. “Se há um aquecimento acelerado nessas águas, isso significa que as temperaturas ao redor da Antártida estão também aumentando de forma acelerada. Isso é um mau sinal, pois sugere uma piora nas condições climáticas do planeta, provavelmente por influência da ação humana.”

A USP tem participado do Samoc desde 2008, por meio de três projetos temáticos financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), denominados Sansao, Samoc-BR e Sambar. Além do professor do IO, assinam o artigo Olga Sato, do IO, Mathias Van Caspel, do IO e do Alfred-Wegener-Institut Helmholtz-Zentrum für Polar- und Meeresforchung (Alemanha), Walter Zenk, do GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research (Alemanha), Eugene Morozov e Dmitry Frey, do Shirshov Institute of Oceanology (Rússia), Alberto Piola, do Servício de Hidrografia Naval de la Armada e da Universidad de Buenos Aires (Argentina), e Christopher Meinen, Renellys Perez e Shenfu Dong, do Atlantic Oceanographic and Meteorological Laboratory do National Oceanic and Atmospheric Administration (Estados Unidos).

Mais informações: e-mail edmo@usp.br, com o professor Edmo Campos

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