Todos os dois homens do presidente

Por Paulo Martins, professor e vice-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP)

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Paulo Martins – Foto: Cicero Wandemberg
O segundo ano de governo Bolsonaro começa como terminou o primeiro. Nada de novo aqui na terra. Brasília continua sendo ora o palco de uma ópera bufa cujos atores se revezam a fim de não deixar o pano baixar, ora um picadeiro em que sob a lona aguardamos os “animados” Arrelia e Pimentinha. Enfim, a semana passada foi marcada por mais duas desastrosas ações do (des)governo de JMB. Ambas sob a tutela das áreas que o presidente, desde o início de seu mandato, insiste em atropelar com nomeações inapropriadas, associadas a planos mirabolantes, invariavelmente lastreados por seu mentor cultural, o “autoproclamado filósofo e exilado”, residente em Richmond, EUA, Olavo de Carvalho.

A primeira ação liga-se à pasta da Educação, a segunda, à Secretaria da Cultura. Vale lembrar que nem o ministro Abraham Weintraub, nem o ex-secretário Roberto Alvim são marinheiros de primeira viagem na produção de conteúdo jornalístico impróprio ou de ações governamentais descabidas, inócuas, equivocadas ou irrelevantes. Não que isso nos assuste, afinal são absolutamente adequadas ao cabedal técnico, que acumularam ao longo de suas vastas e sólidas experiências na gestão pública, ou mesmo, privada. Jamais alguém poderá esquecer o clip produzido por Weintraub ao som de Singin’in the rain[1] ou os vitupérios proferidos por Alvim sobre a primeira-dama do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro[2]. Mas isso serve apenas para refrescar a memória.

Diversos em abrangência ou em nível de seriedade, os dois (in)gestores indigestos foram capazes de se superar. Weintraub conseguiu mais uma vez macular o Enem. O erro na divulgação das notas, que segundo ele comprometeram menos de cinco mil candidatos, sabe-se hoje afetou a vida de cerca de 50 mil examinados este ano, não ficando o erro do registro de notas restrito ao segundo dia de exame[3]. Não satisfeito comprovou sua expertise econômica ao não realizar a parte do orçamento de sua pasta que fora repassada pela “operação lava a jato”, algo em torno de 1 bilhão de reais[4], talvez mais, “coisa pouca” para nosso país tão combalido no plano da educação em todos os níveis, e no qual qualquer soma pode fazer diferença significativa, como todos nós, leigos, sabemos. Entretanto o orçamento não foi realizado segundo o responsável pela pasta “por falta de projetos”. A sinceridade é louvável neste caso. Weintraub não se contradiz.

Alvim, contudo, lhe roubou a cena, apimentando ou arreliando a relação. O próprio presidente, em vídeo (18/1/2020) ladeado por ambos, não se continha, eles não se aguentavam; estavam muito, muito animados. Mas Alvim foi longe em seu vídeo solo: paramentado e engomado, cenograficamente alinhado, com bandeira brasileira à direita e o retrato do líder supremo acima de tudo e de todos e ao centro do cenário, com uma linda trilha sonora – a Lohengrin[5], Richard Wagner não podia faltar –, se nos foi apresentado o nosso proativo Goebbels tupiniquim, na verdade, um congênere, um arremedo anacrônico e estulto do famigerado. Alvim queria mostrar como o líder do 3o Reich tinha uma política cultural importante que fez a Alemanha mostrar ao mundo o verdadeiro espírito límpido e ariano. É mister lembrar que aquele nazista, também, foi responsável em 1933 pela queimada pública de livros[6] “com muita coisa escrita”[7] em praça pública, pois supostamente afrontavam a ideologia preconizada pelo nacional-socialismo de Hitler. Quem quereria ler Freud, Marx, Engels e tantos outros? Visava o nosso a lançar as bases de um edital de promoção da cultura cuja intenção era e é – e isso é preocupante – submeter a atividade cultural aos grilhões de uma ditadura travestida de democracia. Uma arte heroica, uma arte fundada na família e nos valores cristãos, uma cultura de uma nova era…[8] hum hum…

Apesar de Weintraub estar na eterna corda bamba, afinal avolumam-se os boatos de sua queda iminente, portanto ligada à sua “imprecionante”[9] (lembram?) inoperância e trapalhadas e apesar de Alvim ter sido defenestrado, ao que parece, por força de Maia e Alcolumbre, o primeiro judeu a ser presidente do Senado[10], e contra a vontade do próprio presidente[11] – um dia antes, afirmou que o Brasil agora sim tinha uma política cultural de verdade, falando do projeto nazista –, não devemos acreditar no acaso, antes fiquemos atentos e fortes, pois o sistemático ataque contra a educação e a cultura sob a égide do revisionismo descabido, ou por absoluta falta de afinidade, ou por mero descaso, ou por puro ressentimento e rancor do presidente é, sim, a sua verdadeira política de governo para a Educação e a Cultura. Mais uma vez esquece o presidente que o Governo vai e o Estado fica. Essa falta de cacoete democrático do governo de Jair Messias Bolsonaro é inconcebível tanto no plano republicano como no civilizatório.

 

[1] https://www.jb.com.br/pais/2019/05/1002343-com-guarda-chuva-e-ao-som-de–singing-in-the-rain—weintraub-fala-em–chuva-de-fake-news.html

[2] https://www.cartacapital.com.br/politica/roberto-alvim-que-atacou-fernanda-montenegro-e-novo-secretario-de-cultura/

[3] https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/01/mec-tambem-analisa-erros-nas-provas-do-1o-dia-do-enem.shtml

[4] https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/01/mec-recebe-e-nao-usa-mais-de-r-1-bi-recuperado-na-lava-jato.shtml

[5] https://oglobo.globo.com/cultura/roberto-alvim-lohengrin-que-ha-de-controverso-o-que-nao-ha-na-opera-de-wagner-24197162.

[6] Bücherverbrennung, entre 10 de maio e 21 de junho de 1933.

[7] https://veja.abril.com.br/politica/bolsonaro-critica-livros-didaticos-muita-coisa-escrita/

[8] R. Alvim: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada”. J. Gobbels: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada” (https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/01/17/secretario-nacional-da-cultura-roberto-alvim-faz-discurso-sobre-artes-semelhante-ao-de-ministro-da-propaganda-de-hitler.ghtml.

[9] https://veja.abril.com.br/brasil/os-tuites-mais-imprecionantes-de-weintraub/

[10] https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/01/17/interna_politica,1114997/maia-olavo-e-alcolumbre-condenam-fala-de-secretario-de-cultura.shtml

[11] https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/01/17/interna_politica,1115027/roberto-alvim-diz-que-bolsonaro-nao-viu-ma-intencao-em-citacao-de-nazi.shtml

 

 

 

 

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