Compra de vacinas pelo setor privado não terá a eficácia esperada, diz Oswaldo Tanaka

Para o diretor da Faculdade de Saúde Pública da USP, o grande problema é que nós não temos produção em escala no mundo para ter vacinas disponíveis

 13/04/2021 - Publicado há 8 meses
Mesmo para os que estão vacinados, os protocolos de segurança seguem sendo os mesmos – Foto: Governo de SP/Fotos Públicas

 

A Câmara dos Deputados concluiu a votação do projeto que concede a empresas a permissão de compra de vacinas para seus funcionários. O texto da proposta, que segue para o Senado, exige que 50% das vacinas adquiridas pelo setor privado sejam doadas ao SUS, mas pessoas jurídicas não precisam aguardar a imunização total dos grupos prioritários. O projeto surge em um contexto de escasso abastecimento de imunizantes em todo o mundo.

Professor Oswaldo Yoshimi Tanaka – Foto: Imagens USP

O professor Oswaldo Yoshimi Tanaka, diretor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, explica ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição que não há como garantir ao setor privado, mesmo empresas poderosas, a quantidade de vacinas necessárias para imunizar seus funcionários e concomitantemente doar 50% de sua compra. “Minha suspeita é que ela [a lei] não terá a eficácia esperada, tanto para o setor privado quanto para o setor público, e o grande problema é que nós não temos produção em escala no mundo para ter vacinas disponíveis”, afirma o professor.

Do ponto de vista epidemiológico de doenças infecciosas, segundo o diretor, é necessário que 80% da população seja imunizada, assim, mesmo que pessoas estejam infectadas, a capacidade de transmissão não é suficiente para viabilizar um brote epidêmico. As vacinas disponíveis possuem até 70% de eficácia, o que significa que se 100% da população for vacinada, 30% ainda não seriam imunizadas. “Para as empresas, por mais que se vacinem os funcionários, se eles pegam ônibus, moram em lugares de aglomeração, continuam sujeitos a todo tipo de risco”, explica Tanaka, afirmando que, mesmo que todos os funcionários tenham recebido as duas doses, “uns 30% desses funcionários não estarão imunizados; o fato de pegarem ônibus, verem a família, irem para casa de amigos, continuam sendo fonte de infecção, contaminando os não imunizados.”

Muito embora a vacina não seja uma salvação instantânea para a pandemia e que sua eficácia não seja de 100%, Tanaka reforça que ela é muito importante, o único instrumento de intervenção que permite a proteção do organismo via anticorpo. Mesmo para os que estão vacinados, os protocolos de segurança seguem sendo os mesmos. “Gostaríamos imensamente que mesmo as pessoas que tenham tomado a primeira e a segunda dose mantivessem o isolamento, uso de máscara, limpeza das mãos e permitissem o mínimo de contato possível, porque mesmo vacinados correm risco […]; até que tenhamos uma cobertura vacinal de pelo menos 60% ou 80%, não estaremos livres ainda de casos ou brotes epidêmicos”, conclui. 


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar é uma parceria da Rádio USP com a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina e o Instituto de Estudos Avançados. No ar, pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 10h45, 14h, 15h e às 16h45. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.