O golpe de Pinochet contra Allende: uma virada internacional

Osvaldo A. Coggiola é professor titular do Departamento de História-USP na área de História Contemporânea

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Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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A 11 de setembro de 1973, um acontecimento político sacudiu a América Latina e o mundo todo: as Forças Armadas chilenas, encabeçadas pelo general Augusto Pinochet, derrubaram mediante a força o governo socialista de Salvador Allende no Chile, provocando a morte de seu presidente. O golpe se inscreveu dentro de uma série que abalou a América do Sul na década de 1970: 1971, Bolívia; 1973, Uruguai e Chile; 1975, Peru; 1976, Argentina (no Paraguai e no Brasil já existiam regimes militares). O golpe chileno deflagrou uma violenta repressão e inaugurou uma longa era marcada pelas prisões arbitrárias, desaparecimento forçado de pessoas e torturas.

Em matéria econômica, o governo de Pinochet foi diretamente assessorado pelos “Chicago Boys”, grupo universitário inspirado pelo economista liberal Milton Friedman. O governo militar procedeu à privatização de quase todas as empresas estatais, em especial aquelas nacionalizadas no período de Allende (1970-1973), no que foi considerado um “laboratório” das políticas neoliberais postas em prática internacionalmente a partir do final da década; Chile, Economia de Livre Repressão foi o significativo título de um livro a respeito do economista holandês André Gunder Frank.

Os golpes militares da década de 1970 na América do Sul se distinguiram daqueles da década precedente pelo seu caráter declaradamente contrarrevolucionário (o perigo da “cubanização” foi evocado em todos os casos), a intensa repressão de caráter ilegal (com dezenas de milhares de vítimas), a coordenação e cooperação dos regimes militares em matéria repressiva (a “Operação Condor”), a intervenção direta dos Estados Unidos nos preparativos golpistas e na configuração dos governos militares e de suas políticas. O chanceler norte-americano à época, Henry Kissinger, foi denunciado perante fóruns jurídicos internacionais e correu diversas vezes risco de prisão ou extradição; os EUA, anos mais tarde, apresentaram oficialmente desculpas ao Estado chileno pela ação de seus serviços diplomáticos (muito bem retratados no filme Missing, estrelado por Jack Lemmon) e de inteligência.

A 11 de setembro de 1973, um acontecimento político sacudiu a América Latina e o mundo todo: as Forças Armadas chilenas, encabeçadas pelo general Augusto Pinochet, derrubaram mediante a força o governo socialista de Salvador Allende no Chile, provocando a morte de seu presidente.

O assanhamento repressivo do regime militar chileno (e de seus pares sul-americanos) não se acanhou diante de fronteiras e da instituição do asilo político: o general Prats, líder do setor legalista das Forças Armadas chilenas, foi assassinado com significativa facilidade em Buenos Aires, assim como já tinha acontecido com o general Juan José Torres, chefe do governo boliviano derrubado em agosto de 1971 pelo general Hugo Bánzer; Orlando Letelier, antigo membro do governo Allende, foi assassinado junto com sua secretária norte-americana em plena cidade de Washington pela famigerada DINA, polícia política da Junta Militar chilena. Os governos da força bruta não respeitaram nem a legalidade ou a soberania dos países que os apoiavam.

A força simbólica da queda de Allende teve enorme alcance internacional. O governo da Unidade Popular, que tinha prometido “governar para todos os chilenos” e tinha, inclusive, no início de seu mandato, assinado um Estatuto de Garantias, se comprometendo a respeitar todos os artigos da Constituição chilena (inclusive os que preservavam o direito de propriedade), era visto, mundialmente, como o exemplo possível de uma “transição pacífica ao socialismo”. As garantias dadas tinham-lhe permitido esconjurar, pouco antes de sua posse, uma tentativa golpista de um setor militar minoritário encabeçado pelo general Viaux Marambio, o que foi visto como mais uma façanha da excepcional habilidade política de Allende.

Mas estes estavam bem longe de constituir uma corrente homogênea, e se dividiam em inúmeros grupos (guevaristas, maoístas etc.), entre defensores da “via insurrecional” ou da “guerra popular prolongada”, estes por sua vez divididos entre partidários da guerrilha rural ou da urbana, e assim por diante.

A queda e morte de Salvador Allende foi a ‘dobradiça’ entre duas etapas da história da esquerda internacional. A última delas já entrou, como se sabe, em forte crise, que ainda não desfraldou todas as suas contradições e potencialidades, dramáticas no caso brasileiro.

E esse impacto não foi o único. Na Europa, onde existia o Partido Comunista mais forte do mundo capitalista, o Partido Comunista Italiano (PCI), o fracasso da experiência allendista teve também um impacto oposto. Citando explicitamente a experiência chilena, o PCI adotou a política de “compromisso histórico” (com as “instituições republicanas” e com a Democracia Cristã), mediante a qual se comprometia, antes de qualquer vitória eleitoral, a respeitar os limites do regime político e social vigente, uma espécie de “Estatuto de Garantias” estratégico.

Essa estratégia também teve forte influência internacional. Na América Latina, diante do fracasso da estratégia guerrilheirista, ela inspirou políticas que se tornaram majoritárias na esquerda que participou do processo de democratização na década de 1980, chegando a formulações mais radicais nessa trilha, como a “democracia como valor universal”, título de um opúsculo que fez época, do professor Carlos Nelson Coutinho (comunista), da UFRJ. Depois de uma série de crises e reviravoltas, essa política se tornou hegemônica no Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, visto naquela década, na América Latina e no mundo todo, como o paradigma de uma nova e renovada “esquerda democrática” diante da crise do “mundo socialista” e da degringolada dos partidos comunistas. Na primeira década do novo século, como se sabe, essa “nova esquerda” chegou ao governo em vários países da América do Sul, Brasil incluído.

A queda e morte de Salvador Allende foi, desse modo, a “dobradiça” entre duas etapas da história da esquerda internacional. A última delas já entrou, como se sabe, em forte crise, que ainda não desfraldou todas as suas contradições e potencialidades, dramáticas no caso brasileiro. A morte do dirigente socialista chileno teve um significado histórico. Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre as suas políticas (as críticas, contemporâneas e ulteriores, foram inúmeras), sua morte fica como um exemplo, cada vez mais raro, de quem foi capaz de lutar pelas suas ideias e suas políticas até as últimas consequências e até a última gota de sangue. A sombra de seu exemplo, fracassos incluídos, se projeta até nós meio século depois: poucos conseguem isso na história.

 

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