Estariam os seres humanos se tornando minoria na internet? Com a resposta, Luli Radfahrer: “É difícil avaliar, mas existem estimativas de que o conteúdo que está acessível na internet – cerca de 40% dele – já é feito por máquina, ou seja, é feito pelo que chamamos de robôs digitais. Antigamente, 100% do conteúdo era feito por gente, agora é 60%, e tem sinais de que ele vai ser cada vez menor .
É fácil identificar o conteúdo feito por robôs, como os que aparecem em sites medianos, às vezes até de um site bom, que no final tem, por exemplo, dez textos que você precisa ver, ou as pessoas no Brasil estão ficando completamente loucas, são claramente escritos por robôs. Dez anos atrás as vozes eram sintetizadas por robôs, aquela coisa bem mecânica, bem dura. Hoje é cada vez melhor.
Atualmente temos texto escrito por robô e todas as grandes redes sociais jogam fora uma quantidade enorme. O Elon Musk dizia que não ia comprar o Twitter porque estava cheio de robô, o Mark Zuckerberg tirou alguma coisa do tipo 6 milhões de usuários falsos, que não eram gente. Então, as redes tentam fazer isso, mas a gente tem cada vez mais conteúdo escrito por robô e lido por robô.
Se você pensar que em marketing, essencialmente, uma medida de impacto é uma medida de quantidade, eu não quero saber que duas pessoas leram isso e isso mudou a vida delas, eu quero que 10 mil pessoas leiam isso. Então, arrume um monte de gente para ler essas coisas, coloque máquina para ler […] já faz algum tempo que as pessoas não passam da primeira página do Google, tinha uma época – seis, sete anos atrás – em que se encontrava coisa bem legal na sétima página, décima página do Google, você estava querendo pesquisar alguma coisa, ali que ia ter algumas coisas mais novas, hoje não, a partir da primeira e da segunda página tudo é feito por robô.
O efeito disso, no fundo, é como a televisão. Existe pouquíssima informação de alta qualidade para quem é rico ou pertence à classe “A” cultural, ou seja, alguém que teve uma educação muito boa e sabe aonde encontrar a informação de qualidade, e teremos um monte de lixo para o “povaréu”, que é basicamente o que tem no Tik Tok. E é exatamente o que aconteceu com a televisão.
Acho tão divertido as pessoas falarem de McLuhan hoje. Ele falou da televisão nos anos 70 e a televisão naquela época prometia ser um negócio incrível, que ia trazer a comunicação, a aldeia global, e aí percebemos que, sim, existem aqueles canais, principalmente quando se fala da TV a cabo. Tem um monte de bobagem, mas também tem aquela preciosidade lá dentro, só que ela está escondida no meio de reality show, no meio de porcariadas gerais, e no fundo é o que infelizmente está acontecendo com a internet. A grande biblioteca está virando o grande Tik Tok”.
Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.
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